As vozes de Marrakech, de Elias Canetti

 

As vozes de Marrakech conta histórias interessantes e divertidas. Bastaria isso, mas vai mais longe, bem mais longe do que apenas entreter o leitor.

 

Elias Canetti escreveu o livro após passar alguns meses no Marrocos, em 1954. Acompanhava uma equipe de filmagem inglesa e aproveitou para conhecer Marrakech. Será que conheceu? Será que conhecemos os lugares que visitamos?

 

Pelo menos, ele tentou. E, com algumas décadas de antecedência, desmontou, com seu relato, alguns mitos atuais. Principalmente o relativismo cultural condescendente, hoje tão em voga, que mistura correção política com um falso antropologismo e tempera tudo com a arrogância de quem se supõe superior porque não acredita que haja superioridade…

 

Afinal, tudo é diferente, não é mesmo? Não há melhor ou pior, apenas diferença. Shakesperare e aqueles sujeitos que vendem seus livros na entrada do Masp: são apenas diferentes. Homero? Por que celebrá-lo, se temos Patativa do Assaré? E Dante, ora!, tem tanto poeta de primeira por aí, que só precisa ser descoberto para despontar para a fama e para a glória. Por que buscar o florentino?

 

Se você já circulou por uma universidade (nos prédios dos cursos de humanidades), se lê o caderno Mais da Folha de S. Paulo ou se simplesmente freqüenta os cinemas cult, sabe do que estou falando. Fico pensando se um desses sujeitos lesse As vozes de Marrakech. Ficaria chocado. Mas os deixemos para lá.

 

Porque Canetti não pretende olhar o outro com os olhos do outro, não quer percorrer a consciência alheia, nem inquirir o mundo despido dos próprios valores. Essa espécie de culto ou vício da “outredade” não o atinge. Ele sabe que tem olhos, valores e princípios próprios. E é a partir desse olhar estranho que ele olha o diferente.

 

Claro: para que uma postura assim não acabe por cegar, é preciso historizar a peculiaridade do próprio olhar; é preciso – diria Carlo Ginzburg – valorizar a distância e o estranhamento. É preciso saber que a melhor representação não é a direta, mas – foi Proust quem ensinou – a que se faz ao revés, para revelar o que normalmente não aparece.

 

E tudo porque Canetti não pretende apenas atestar a diferença – como fazem nossos contemporâneos, que valorizam o outro durante meia hora e, depois, o esquecem, o ignoram, o isolam como exótico e diferente, e partem logo para achar outro outro…

 

Canetti quer viver um pouco o mundo estranho, mesmo sabendo de suas limitações (o possessivo é intencionalmente ambíguo). Ele quer compará-lo ao que conhece porque sabe que só assim se estabelece algum diálogo entre culturas. Comparar é necessário; caso contrário, não abstraímos; e, além de comparar, também pode ser necessário julgar, em vez de se recolher ao confortável relativismo que aceita tudo e fecha os olhos diante da barbárie dos outros.

 

As tradições de Marrakech são vistas segundo essa mesma disposição dialógica e compreensiva. Não se trata de observar as tradições alheias para admirá-las e desejá-las fixas, paralisadas, peças de um museu vivo. Canetti sabe que tradição nunca é estática, nem implica redução ao seu estado original.

 

Tradições, afinal, não são naturais, não existem em si. São forjadas historicamente e supõem, sempre, mobilidade – algo que ocorre pelo contato com outras culturas, pela capacidade de assimilar e transformar. Só em nossos sonhos totalitários – em geral, endereçados aos outros, é que queremos que as tradições restem intocadas.

 

Canetti, que não padece da ingenuidade nociva de tantos daqueles com que convivemos, enxerga o passado – e tudo que a ele se refere – em movimento. Por isso, ao se aproximar do outro, consegue compreender o desejo daquele de se transformar. Não tenta ensinar que ele tem que se confinar ao universo limitado de seu passado. Tampouco força ou tenta deslocar quem não quer arredar pé do mundo pré-determinado.

 

Canetti apenas sabe que é preciso ouvir as vozes – de Marrakech ou de qualquer outra parte. E também se fazer ouvir. Sabe que cultura é conversação, não celebração do vazio ou de si mesmo.

 

Elias Canetti. As vozes de Marrakech. São Paulo: Cosac Naify, 2006 (original: 1968; tradução: Samuel Titan Jr.)