Adeus, Hemingway e O rabo da serpente, de Leonardo Padura

 

Adeus, Hemingway e O rabo da serpente são, cada um a seu modo, livros circunstanciais, resultados de adaptações não totalmente bem sucedidas.

 

Ambos trazem Mario Conde —detetive criado pelo cubano Leonardo Padura— em novas aventuras, mas nenhum deles consegue envolver de fato o leitor: soam artificiais nas histórias e na própria construção da narrativa.

 

Adeus, Hemingway foi escrito originalmente para a coleção “Literatura e morte”, da Companhia das Letras, cuja proposta era contar histórias de mistério que incluíssem grandes escritores como personagens. Uma excelente ideia, diga-se de passagem. Mas as obras não ficaram à altura da proposta original e, fora uma ou outra exceção, a coleção apresentou livros inexpressivos e, em pelo menos um caso, constrangedor.

 

O rabo da serpente, por sua vez, foi um conto que Padura expandiu, atualizou e transformou em romance.

 

Dentro da cronologia do Conde, a história de Adeus, Hemingway se passa logo após sua saída da polícia. Ou seja, imediatamente depois da aventura narrada em Paisagens de outono. Já a trama de O rabo da serpente se situa nas imediações de Máscaras, antes de Paisagens de outono.

 

No caso de Adeus, Hemingway, o posicionamento cronológico não traz problemas. Sua enigmática história coloca o Conde na investigação de um crime ocorrido no jardim da casa cubana de Hemingway, nos idos de 1958. O livro cruza a investigação, ocorrida décadas depois, com as idiossincrasias o quotidiano passado do escritor norte-americano e explora o universo algo mítico que se criou em torno de sua figura.

 

Em outras palavras, Padura transforma o mito-Hemingway em personagem de seu livro. Aproveita, assim, o conhecimento prévio, a familiaridade que o leitor pode ter com o homem que acreditamos vigoroso, viril, caótico, bêbado e genial e prescinde de reinventá-lo ficcionalmente. O efeito facilita a leitura, mas expõe o clichê, a generalidade, o artificialismo. A própria trama, rocambolesca em excesso (mesmo para aqueles que consideram que a narrativa policial nasceu com o Rocambole…), provoca a impressão de um livro simplificado demais, circunstancial demais.

 

A adaptação por que passou O rabo da serpente deixou ainda mais sequelas do que a transposição do Hemingway real para a ficção. O relato leva Conde ao bairro chinês de Havana para desentranhar, do silêncio dos imigrantes chineses miseráveis, uma história complexa, que envolve religiosidades mescladas, crime organizado e tragédias individuais e coletivas. O material de que Padura se apropria é interessante e deve ter dado um excelente conto. Como romance, porém, é irregular.

 

O leitor atento percebe facilmente os elementos inseridos para ampliar a narrativa, e que acabaram por diluir e dispersar a força da ideia central. Mesmo o grupo de amigos que gira ao redor do Conde —personagem coletivo e decisivo nos demais livros, espécie de enraizamento e desenvolvimento das dúvidas e hesitações que caracterizam o protagonista— aparece pouco e em diálogos inócuos.

 

Também a ambiguidade temporal atrapalha e confunde. O narrador indica, logo no início, que o caso ocorreu no passado do Conde e sugere um movimento de lembrança do personagem. Na Havana atual, já afastado da polícia, o ex-detetive e hoje livreiro recordaria a história. No entanto, as manifestações desse presente se dão em seções desconectadas do restante e deixam dúvida quanto ao motivo que teria levado a obra a operar em dois tempos se, na prática, eles não se cruzam, nem o movimento da memória é justificado. Resta, no rescaldo da leitura, a sensação de uma adaptação feita apenas para justificar a republicação em outro formato.

 

Embora as adaptações aparentemente mal resolvidas e as circunstâncias da escritura (em Adeus, Hemingway) e da reedição (de O rabo da serpente) resultem em livros frágeis, bastante inferiores às outras cinco histórias do Conde, é inevitável que o leitor de Padura queira revisitar a Havana ambígua —e ambiguamente representada— e o dia-a-dia errático de um dos mais originais detetives da atualidade.

 

Essa é a razão —digamos, afetiva— que justifica a leitura dos dois romances.

 

 

Leonardo Padura. Adiós, Hemingway. Barcelona: Tusquets, 2006.

Leonardo Padura. La cola de la serpiente. Buenos Aires: Tusquets, 2012.

 

 

Paisagens da crítica publicou resenhas de outros livros de Leonardo Padura.

Clique nos títulos dos livros para lê-las:

Ventos de quaresma (10.6.2008)

Máscaras (15.11.2011)

 

 

Máscaras, de Leonardo Padura Fuentes

 

Máscaras revelou uma mágica que só a leitura faz: nos levar de volta a um livro e a um autor que antes nos desagradaram e alterar radicalmente a impressão.

 

Três anos atrás, mais ou menos, eu li os livros de Leonardo Padura Fuentes publicados no Brasil. Saí com a certeza de que se tratava de um autor que dominava bem as matrizes e estratégias do gênero policial, tinha texto fluido e ágil, e nada além disso. Um bom entretenimento, agradável, mas descartável. Traduzi minha opinião na resenha de um deles, publicada aqui no blog.

 

Eis que agora, em função de um trabalho que assumi, fui instado a reler todos os Padura traduzidos e um ou outro que ainda não receberam versão nacional. E tudo se modificou.

 

Comecei a releitura por Máscaras, de 1997, o terceiro volume da tetralogia “Quatro estações”, protagonizada pelo investigador Mario Conde —os demais volumes da série são Passado perfeito (1991), Ventos de quaresma (1994) e Paisagens de outono (de 1998, não publicado no Brasil).

 

Máscaras propõe uma trama complexa em que figurões do regime cubano estão envolvidos num jogo de perseguições políticas, sexuais e dramas familiares profundos. Todos se travestem —se mascaram—, literal ou metaforicamente, num movimento ininterrupto de variações e instabilidades.

 

Padura percorre, por meio da ação de seu detetive, os abismos de uma Havana que já foi bela, das mais belas das Américas, e depois se afundou na deterioração e nas relações e nos vínculos clandestinos. Também a história dos últimos quarenta ou cinquenta anos cubanos ultrapassa a função cenográfica que, a princípio, parece ter e se torna personagem decisiva do enredo.

 

Não cabe aqui discutir a dimensão diretamente política do livro —sempre secundária em relação ao exercício muito mais transfigurador da ficção—, nem a posição ambígua de Padura diante do regime. Cabe ressaltar a construção cuidadosa do universo íntimo de Mario Conde e seus amigos unidos em laços profundos e definitivos, o trabalho de assimilação da língua falada no texto escrito, a atualidade de uma narrativa policial que dialoga com as regras e os vícios do gênero, mas não se submete a eles.

 

Mágica é a leitura —e as revisitações, releituras de fato, que fazemos aos livros. Magia não de vara de condão ou correlato, mas a que mostra que nossa posição de leitor não é fixa, nosso tempo não é uno. Somos leitores da mesma forma que somos humanos: oscilantes, dotados de perspectivas provisórias, errantes.

 

Por tudo isso, ao reler Máscaras, não apenas descobri um Padura que eu não tinha enxergado nas leituras anteriores; redescobri, sobretudo, o motivo de, há mais de quarenta anos, eu ter escolhido a leitura como profissão.

 

 

Leonardo Padura Fuentes. Máscaras. São Paulo: Companhia das Letras, 2000 (original: 1997; tradução: Rosa Freire D’Aguiar)