A arte da ficção, de David Lodge

A arte da ficção é o livro que todo crítico e todo professor de literatura gostaria de ter escrito. Talvez também os ficcionistas. Mas sobretudo é o livro que todo leitor gostaria de deixar como resíduo das horas passadas na poltrona.

E quem o escreveu é tudo isso. David Lodge foi professor universitário e é um bom romancista, cuja divulgação no Brasil, até hoje, foi infelizmente limitada: Invertendo os papeis e Fora do abrigo não receberam a atenção que mereciam e Small World e Nice Work, que eu saiba, sequer foram traduzidos.

A voz de A arte da ficção associa esses dois ofícios na atividade que os baseia e justifica – a crítica – ao reunir sua colaboração do princípio da década de 1990 para os jornais The Independent on Sunday e The Washington Post. A proposta da coluna que assinava era a de esmiuçar alguns procedimentos da ficção – especialmente da romanesca – e sempre partir de algum texto literário e de sua análise.

Lodge, com a graça do Altíssimo e, principalmente, com bom senso, evita o academicismo e busca o leitor comum – taí uma boa idéia e um bom exemplo para os responsáveis pelos suplementos literários de nossos jornais, que transformaram parte da imprensa cultural brasileira num apêndice do gueto de nossas universidades. E Lodge busca o leitor comum – aquele sujeito que gosta de ler e que gostaria de conhecer um pouco melhor a arquitetura do que lê – simplesmente porque age e fala como leitor.

Divide o livro em cinqüenta tópicos (“O começo”, “Suspense”, “Ambientação”, “Polifonia”, “O narrador não-confiável”, entre outros) e mostra como autores significativos da literatura em língua inglesa os desenvolveram. Os tópicos misturam conceitos e procedimentos modernos (“Intertextualidade”, “Metaficção”) com a caracterização de partes de uma obra (“O título”, “O fim”), o emprego de figuras de linguagem (“Ironia”, “Metonímia”) e de elementos da trama (“Listas”, “O telefone”), as formas do romance (“O romance epistolar”, “O romance de não-ficção”) e algumas marcas de desenvolvimento do texto (“Duração”, “Motivação”). Compõe, assim, uma espécie de manual inteligente e aplicado que pode até se prestar a uma iniciação na escrita.

Não foi esta, no entanto, sua intenção – nem na coluna original, nem na reunião dos artigos em livro, que traz alterações e acréscimos em relação ao que saiu nos jornais. Lodge quis mostrar que o exercício da crítica não é tarefa acadêmica e, a bem da verdade, sequer precisa ser especializada. Não depende de diploma ou de posição privilegiada na universidade, na imprensa ou onde for – nos dias atuais, poderíamos acrescentar: nem na internet.

Ele dispôs-se a dizer o óbvio – talvez por isso normalmente esquecido: que com livros pode-se fazer o mesmo que fazemos com tantos outros elementos de nosso quotidiano. Pensar um pouco sobre eles. Desmontá-los. Compará-los. Identificar como certos autores são capazes de variar suas propostas e os decorrentes desenvolvimentos enquanto outros adotam modelos fáceis, rígidos e paralisados, repetidos.

O leitor que segue as leituras e análises de Lodge não sai ileso. Na próxima vez que abrir um livro – e vai querer abrir logo – ou uma revista, seus olhos terão mais argúcia.

Mas cuidado: isso traz problemas. Você cruza o texto de um colunista de jornal e fica deprimido ao notar a imensa quantidade de inadequações e de banalidades – o vazio – de quem é pago para escrever e devia saber fazê-lo. Você vai se entediar com aquele livro que todo mundo celebra e talvez desista de ouvir a palestra do autor na próxima Flip.

Vai discordar de muita gente e pode até passar por arrogante, quando insistir que não dá para ignorar determinados autores e que não importa que repitam que fulano ou beltrano é “grande”; você saberá que ele simplesmente não é. Você talvez prefira reler a ler – este é outro grave risco – e, às vezes, fique profundamente desanimado ao percorrer as prateleiras de uma livraria e constatar que, de tudo que está ali, você queria mesmo era voltar a Faulkner ou a Proust.

Não importa. O desânimo passa. Os cultuadores de inutilidades também passam. A leitura boa, aguda, essa que Lodge ensina, fica.

David Lodge. A arte da ficção. Porto Alegre: L&PM, 2009 (original: 1992; tradução (inclusive dos textos literários citados e analiados por Lodge): Guilherme da Silva Braga)

A cidade ilhada, de Milton Hatoum

 

A cidade ilhada traz, pela boca de um de seus personagens, sua autodefinição: “ninguém pode ser totalmente outro”.

 

Afinal, a cada página do novo livro de Milton Hatoum, pensamos nos anteriores. E também nos sentimos distantes deles.

 

Livro no espelho de outros livros, A cidade ilhada repõe temas e circunstâncias já conhecidas, mas mesmo assim, surpreende.

 

O leitor encontra lá o riso melancólico a que se habituou e o traçado de Manaus – mais tortuoso pela força da memória do que pela topografia.

 

Encontra também definições e frases contundentes, categóricas, que revelam a sensibilidade – digamos – filosófica do texto. Aquelas frases que são idéias incomuns e que só se comunicam pela precisão da sentença escrita e reescrita, pensada e elaborada, da palavra justa.

 

Encontra, ainda, certos personagens ou parentes próximos deles. O tio Ran aparece em mais de uma história e, em outras, temos ecos dos pais, das mães e dos vizinhos dos três romances e da novela que antecederam A cidade ilhada.

 

A cidade ilhada é o primeiro livro de contos de Hatoum e a forma breve, o enlace de tramas em planos diferentes, com movimentos que fazem uma ou outra se sobrepor a cada parágrafo, é apenas a primeira surpresa do leitor.

 

A segunda é notar que, afinal de contas, os contos não são exatamente contos. Suas fronteiras são porosas e facilmente percebemos, em alguns dos textos, o tom de crônica ou a força da crítica literária.

 

E embora os ecos de Guimarães Rosa, Machado de Assis ou Borges não sejam propriamente surpreendentes, eles agora parecem mais explícitos. Borges especialmente parece acompanhar cada linha do conto-título ou de “A natureza ri da cultura”. Machado, por exemplo, ilumina a pista de “Dançarinos na última noite”. E Cortázar, que ainda não havia aparecido, ressoa por trás da melhor narrativa: “Bárbara no inverno”.

 

As referências são claras sem ser exageradas, sem ultrapassar seu espaço possível, nem se impor à trama que alimentam. O diálogo subterrâneo ajuda a construir as variações de perspectiva e entonação ou as oscilações de registro narrativo, que podem buscar a linguagem do cinema ou do teatro para enfatizar uma cena ou destacar um personagem. Para mostrar sua leitura cáustica de certos estereótipos brasileiros – que um crítico desavisado ou sobreavisado pode confundir com a fala do próprio autor.

 

Diálogo subterrâneo que é, sobretudo, diálogo – independentemente do adjetivo. E é essencial num livro que fala da errância, circula entre geografias e temporalidades, vai de Bombaim a Barcelona e a Palo Alto, cruza Manaus tantas vezes e transborda fronteiras, sem nunca escapar do peso da memória da infância. Tensão, contradição? Não: nada é mais errante do que nossa memória, mesmo se a supusermos paralisada.

 

Hatoum sabe disso e lida com os labirintos da memória a cada conto de A cidade ilhada. Porque sua cidade literária se comunica o tempo todo com outras e, principalmente, com o leitor. Nunca é totalmente outra, mas sempre sonda a chance de migrar.

 

Milton Hatoum. A cidade ilhada. São Paulo: Companhia das Letras, 2009

 

 

Paisagens da Crítica já publicou comentário sobre outro livro de Milton Hatoum, Órfãos do Eldorado (17 de março de 2008)

 

 

 

 

 

 

Ao mesmo tempo, de Susan Sontag

para m.s.n.

 

Ao mesmo tempo me foi indicado por um amigo e, não sei bem por quê, fui correndo comprá-lo e o li compulsivamente.

 

Não sei bem por quê porque há tempos não lia Susan Sontag e quase pegara uma implicância de seus escritos, da carga ideológica a que recendiam, de algumas análises políticas superficiais e de moda.

 

Mas fui correndo comprá-lo e o li compulsivamente. Em parte, claro, foi o respeito pela indicação. Em parte, o interesse pelo tema do romance histórico, tratado em mais de um dos ensaios do livro. E uma terceira parte é insondável – aquela atração que certos livros provocam em nós, sem que sejamos capazes de descrevê-la ou interpretá-la.

 

Felizmente fui correndo comprá-lo e o li compulsivamente. Porque só assim a leitura pôde equivaler em avidez ao que está no livro. Avidez de falar – compulsão de uma Fedra cujo corpo não responde mais, não contribui, já corroído pela doença.

 

Susan Sontag escreveu esses ensaios no fim da vida, e eles foram editados postumamente. Seu filho, David Riff, prefacia o livro, num texto emocionado. Os leitores seguem o ímpeto da escritura de Sontag e se contaminam da emoção de Riff.

 

Li compulsivamente. Não concordei com tudo que ela diz, continuei a desconfiar de seu engajamento algo acintoso, de sua disposição para a correção política, que carrega nas tintas ao criticar uns e poupa cuidadosamente outros.

 

Mas não resisti à contundência de suas análises. À maneira como defende o prazer da leitura. À disposição de reagir à boçalidade quotidiana e generalizada. À missão, que assume, de recuperar nomes quase esquecidos.

 

Um deles é o da italiana Anna Banti. E, por meio de um livro de Banti – Artemísia, Sontag disseca os mecanismos do romance histórico, recusa os esquematismos de historiadores e de alguns críticos que, na paisagem da crítica que todo romance é, só conseguem olhar para sua própria intenção mimética ou experimental.

 

Sontag sabe – até porque escreveu O amante do vulcão, um ótimo romance histórico – que romancista e personagem fazem um inevitável pacto de vida e morte, que se combinam, se confundem, se imiscuem na vida e na consciência, um do outro.

 

E essa consciência radical de si e do outro não autoriza apenas o romance histórico; justifica o próprio ato da escrita, quando fazemos poesia, ficção ou – mais banalmente – a crítica literária, histórica, gastronômica. Não importa. É nela – na escrita – que nos jogamos seguidamente e é também nela que ocasionalmente nos encontramos.

 

Esta, a lição de Sontag. Concordar ou com suas idéias políticas é irrelevante. Inevitável é concordarmos com sua atitude – a de quem, em tempo sombrios pessoais e coletivos, aposta na leitura e na escrita.

 

Susan Sontag. Ao mesmo tempo. São Paulo: Companhia das Letras, 2008 (original: 2007; tradução: Rubens Figueiredo)