Um duplo orgulho

 

Caros Leitores

 

Permitam uma breve pausa para dois orgulhos.

 

A resenha anterior foi a número 300 e saiu um mês antes do sétimo aniversário do blog. Caramba…

 

Nos últimos tempos, como o leitor rotineiro deve ter notado, resenhei muitos livros policiais. Não por acaso: essas narrativas são, há vários anos, meu principal tema de estudo e pesquisa, que já rendeu cursos de graduação e pós na universidade em que trabalho, algumas dezenas de artigos publicados dentro e fora do Brasil e uma tese, de livre docência, defendida no final de 2010.

 

Agora, a convite do Centro Universitário Maria Antonia (no histórico antigo prédio da Faculdade de Filosofia da Usp), as “histórias de raciocínio” —como as definia Poe— serão a base de um pequeno curso de extensão.

 

Quem se interessar em aparecer por lá e conversar sobre o assunto, siga as pistas da página oficial do Centro.

 

E, por favor, me desculpem o duplo orgulho. É que gosto muito desse blog e tenho especial prazer em dar aulas para públicos não-(apenas)acadêmicos.

 

Abraços,

Júlio

 

Quando não estou por perto, de Annita Costa Malufe

 

Quando não estou por perto expõe algo óbvio, mas essencial: poesia nunca é certeza; poesia é hesitação.

 

Os versos de Annita Costa Malufe são abertos e em aberto; os gestos ficam suspensos; a palavra é pouco coesa e sempre limitada, mesmo quando é princípio, centro e sentido: afinal, como expressar o que se desenha na oscilação, em locais improváveis e impróprios, no ar que nos rodeia; como representar o que segue itinerários muito além do controle?

 

Annita é uma poeta moderna e dialoga com poetas, críticos e prosadores modernos. Por trás de seus poemas, espreitam autores sobre os quais ela já escreveu ou, melhor, que não se cansou de ler. Lógico: a boa crítica se infiltra na poesia, tal como a leitura densa jamais se separa da escrita. Ana Cristina Cesar, por exemplo, está ali, na impermanência das temporalidades e das espacialidades, na sólida inconsistência de um olhar atravessado e inquieto sobre o mundo. Mas também se lê, sob Annita, Marcos Siscar, algo de Beckett, de Éluard, muito de Deleuze.

 

Lê-se, sobretudo, o lirismo possível num tempo em que a unicidade se tornou impossível; há mais de um sujeito, mais de um ponto de enunciação, e eles dificilmente se associam, as sílabas não se juntam: “há um buraco no meio / da frase uma fenda que a corrói / por dentro um silêncio um giro / em falso uma fenda que se expande / um vazio sem passado girar e / girar o que pode começar / neste exato ou em qualquer / instante seguinte”.

 

Qual certeza? Nenhuma: as garantias e quaisquer sonhos (não necessariamente desejáveis) de ordenação se esvaem perante a imprecisão do movimento, da voz que perscruta o tempo, passado interrompido, mas cujos vínculos vivos ainda afligem. A memória se torna guia —guia ora inoportuna, em geral incompetente, normalmente instável— da vontade de persistir num ontem enevoado e plural: plural como o presente e, como o presente, impalpável, assustador e angustiante.

 

Annita é uma poeta madura na técnica, no domínio conceitual, na intensidade; nos seus versos aparecem certos temas irreversíveis da poesia —ela mesma, a precária percepção do tempo, a instabilidade dos dias—, traduzidos e vividos na vertigem do instante. “Por que cantar a rosa?”, perguntava Huidobro em 1916 para, em seguida, aconselhar: “fazei-a florescer no poema”. Annita, quase cem anos depois, sabe que, ao poeta, não se pede apenas que crie: é preciso também que se mova —não na aceleração do que se passa lá fora, mas na lentidão do que se passa lá dentro.

 

Por isso, ela escreve com exatidão sobre o que não é exato, jamais é. Escreve com precisão sobre o que é preciso: hesitar.

 

 

Annita Costa Malufe. Quando não estou por perto. Rio de Janeiro: 7Letras, 2012.

 

 

Paisagens da crítica já publicou resenhas de três outros livros de Annita Costa Malufe.

 

Clique nos títulos para lê-las:

 

Fundos para dias de chuva (17.6.2006);

Territórios dispersos: a poética de Ana Cristina Cesar (1.7.2007);

Nesta cidade e abaixo de teus olhos (1.7.2008)

 

Gainsbourg, de Gilles Verlant

 

Gainsbourg daria um ótimo romance se o protagonista não fosse tão inverossímil e algumas de suas aventuras, improváveis. Acontece que Gainsbourg não é um romance; é biografia e os fatos que narra ocorreram.

 

Não uma biografia qualquer, diga-se de passagem; a mais completa biografia já feita sobre Lucien Ginsburg, dit Serge Gainsbourg, cantor, compositor, ator, pintor, arquiteto, cineasta, colecionador, personagem de si mesmo.

 

Gilles Verlant, o biógrafo, havia escrito outros livros sobre Gainsbourg, biografias provisórias, textos mais breves. Em 2000 compôs o panorama definitivo, resultado de centenas de entrevistas e de longa pesquisa, das várias vidas de Serge. Da infância judia sob o domínio nazista, marcada pela estrela amarela no peito, ao horror da própria imagem, da feiúra no espelho. Do aprendizado da pintura, do breve estudo de arquitetura, ao pianista de tantos bares, clubes e boates. Da agonia no palco à demora do sucesso. Do reconhecimento pela crítica à celebração pelo público. De suas primeiras mulheres a Brigitte Bardot. Do orgulho contido ao orgulho exposto. Da angústia à aparição decisiva de Jane Birkin. Do medo à arrogância. Da exposição do eu profundo à proliferação dos outros eus. Da vida à morte.

 

Duplos, triplos, quádruplos. Múltiplo: é esse o Serge que Verlant desenha. O sujeito que criou algumas das mais impressionantes canções do século XX e que considerava a música popular uma “arte menor”. O compositor de incontáveis trilhas sonoras para o cinema e diretor de alguns filmes que receberam o descaso do público e arrancaram elogios de Truffaut e Godard. O homem emparedado, enclausurado num mar de lembranças, de objetos antigos, de álcool e cigarro. O homem no mundo.

 

O leitor percorre as 1050 páginas do livro com furor, economiza a leitura para que elas não se esgotem, acompanha o livro com os discos, um a um, com as canções, com as imagens —cds, dvds e YouTube estão aí para isso. Tenta, assim, adiar a chegada do 2 de abril de 1991 —dia que, diz a lenda, nenhum francês esquece, nem esquece onde estava quando soube da morte de Serge.

 

E esse leitor que se divisa com o fã encontra, página a página, a poesia crua, que talvez esteja entre os principais registros literários franceses do XX, e um personagem envolvente, capaz de variar o registro musical e gravar reggae e funk muito antes de eles virarem moda para além dos mundos em que nasceram. Ou de provocar insistentes turbulências e protestos pela misoginia exposta à luz do dia ou pela reinvenção —tradução?— do hino nacional francês e de uma relação tão peculiar quanto intensa entre o público e o privado.

 

Em Gainsbourg, as anedotas não têm fim, os eventos surpreendentes se sucedem, a maravilha —mundo de ponta cabeça— e a aflição do leitor diante dos bons e maus delírios de Serge prevalecem. Mas nada se compara à percepção da profundidade e da densidade de uma obra sem igual, do manejo do que ele supunha ser arte menor para construir uma interpretação do mundo em vertigem, dos rodopios, giros em falso, às vezes em êxtase, da modernidade.

 

Leia.

 

Não apenas para saber da vida de Serge Gainsbourg. Também para compreender a vida —com e sem mistificação.

 

 

Gilles Verlant. Gainsbourg. Paris: Albin Michel, 2000.

 

Uns dias no Brasil, de Adolfo Bioy Casares

 

Uns dias no Brasil (Diário de viagem) é breve, divertido e provocador.

 

É o diário da breve passagem do argentino Adolfo Bioy Casares pelo Brasil em 1960. Uns dias no Rio, outros em São Paulo e outros ainda numa Brasília recém-fundada.

 

Bioy, dos grandes —maiores— escritores latino-americanos do século XX, registrou boa parte de sua vida em diários, centenas de cadernos que foram apenas parcialmente publicados: Memórias (1994), Descanso de caminante (2001) e o impressionante Borges (2006), com suas quase duas mil páginas, são os poucos registros que vieram a público.

 

O relato da viagem de 1960 —cujo objetivo era a desconfiadíssima participação num congresso do Pen Club — já havia sido editado (1991), mas em caráter restrito e fora do comércio. Agora surge num delicado livro que recebe posfácio de Michel Lafon, amigo pessoal de Bioy e especialista em sua obra.

 

Diários, sabemos, reúnem dois universos, duas dinâmicas. De um lado, revelam uma presença pública de seu redator; de outro, invadem —com cuidado— a intimidade.

 

Não é diferente nesse caso. Bioy descreve de forma bem sucinta sua participação no evento e carrega na avaliação dos personagens que o cercam —poucos bons escritores, muitos burocratas e carreiristas da escrita. Questiona a qualidade de quase tudo que come e faz um arguto diagnóstico da nova capital brasileira: quase tudo que ele viu em Brasília, em 1960, foi depois percebido e proclamado repetidas vezes por estudiosos e críticos da arquitetura e da concepção urbanística e política da cidade.

 

Para o leitor, o livro funciona como um olho mágico que permite perscrutar o cotidiano de um homem que amava as rotinas, mas jamais rejeitava viagens, mesmo quando a programação era irreversivelmente entediante. E reforça a percepção da inteligência afiada e cartesiana do autor de relatos de engenho, forma incomum na ficção latino-americana.

 

Sem contar que é mais um livro de Bioy —cuja leitura vicia, cujo manejo da língua é quase incomparável, cuja elegância no texto e na vida é categórica.

 

 

Adolfo Bioy Casares. Unos días en Brasil (Diario de viaje). Buenos Aires: La Compañia de los Libros, 2010.

 

 

Paisagens da Crítica já publicou resenhas de outros cinco livros de Adolfo Bioy Casares.

 

Clique no título do livro para lê-las:

 

Diário da guerra do porco (2.12.2010);

Seis problemas para Don Isidro Parodi (3.7.2008);

Borges (9.4.2007);

Histórias fantásticas (10.12.2006);

A invenção de Morel (3.12.2005).

 

 

Grande Circo Taddei & A Rainha da Pomerânia, de Andrea Camilleri

 

Grande Circo Taddei e A Rainha da Pomerânia reúnem, juntos, dezesseis histórias curtas escritas por Andrea Camilleri. A maioria se passa durante o período do fascismo; uma ou outra o antecede. Todas, sem exceção, divertem e apresentam o cenário de relações canhestras, ora íntimas ora estranhas, com que o autor siciliano gosta de representar sua ilha de origem.

 

O leitor habitual de Camilleri reconhecerá com facilidade alguns personagens, cujos nomes variam de romance a romance, mas cujas atitudes e estilo se mantêm uniformes: nobres ligeiramente decadentes, burgueses oportunistas, mafiosos grandes e pequenos, moças à beira de ataques de nervos, jovens carreiristas, políticos ambíguos.

 

Na verdade, a ambiguidade caracteriza mais do que certos personagens: é a tônica de uma sociedade que vive sempre duas vidas. Na aparência, incontáveis regras —algumas (poucas) escritas e muitas estabelecidas silenciosa e tacitamente: estas, aliás, são as mais eficazes e longevas. Debaixo da tênue pele social, vigora uma imensa quantidade de formas de burla, de estratégias para redefinir os laços e posições sociais, para estabelecer lógicas de hierarquia e poder.

 

É assim que o prosaísmo dos relatos dá lugar à acidez com que o passado siciliano é representado —não à toa, o passado fascista, tão pródigo em retóricas épicas quanto em realidades grotescas, ganha destaque.

 

A verdade da vida social, expõe Camilleri, não corre nas longas reuniões no circolo local, nem nos gabinetes oficiais. Tampouco é tocada diretamente pelos policiais ou por todos aqueles que acreditam na efetividade das formas institucionais e formais. Nem é mostrada em italiano.

 

O mundo real —falado em siciliano ou na linguagem de olhares e silêncios tão característica da ilha— segue pelos bastidores, pelos acordos cifrados, pela madrugada e pelas portas dos fundos. A honradez dos supostamente honrados não resiste a um olhar através da fechadura ou ao observador atento às fugas noturnas de poderosos e seu deslizar entre uma cama e outra.

 

Pôncio Pilatos observou, há mais de dois mil anos, que a verdade morava num poço. Para os personagens dessas dezesseis histórias, ela mora nas sombras e nas conversas ao pé do ouvido. E, mesmo assim, só parte dela —relembra o leitor já acostumado ou novato nos livros de Camilleri. E apenas a parte menos importante é dada à vista. Talvez daí venha nossa vontade de rir, durante a leitura, e o desconforto de lembrar que não só na Sicília é assim.

 

 

Andrea Camilleri. Gran Circo Taddei e altre storie di Vigatà. Palermo: Sellerio Editore, 2011.

Andrea Camilleri. La Regina di Pomerania e altre storie di Vigatà. Palermo: Sellerio Editore, 2012.

 

 

 

Paisagens da Crítica comentou outros dezoito livros de Andrea Camilleri.

 

Clique no título dos livros para lê-las:

 

A pensão Eva (La pensione Eva), em 24.3.2006;

O calor de agosto (La vampa d’agosto), em 12.5.2006;

As asas da esfinge (Le ali della sfinge), em 22.3.2007;

A cor do sol (Il colore del sole), em 3.5.2007;

A pista de areia (La pista di sabbia), em 1.11.2007;

Maruzza Musumeci, em 3.12.2007;

O campo do oleiro (Il campo del vasaio), em 12.6.2008;

As ovelhas e o pastor (Le pecore e il pastore), 19.6.2008;

O tailleur cinza (Il tailleur grigio), em 24.06.2008;

O guarda-cancela (Il casellante), em 3.11.2008;

A idade da dúvida (L’età del dubbio), em 22.4.2009;

O guizo (Il sonaglio), em 2.5.2009;

Um sábado com os amigos (Un sabato, con gli amici), em 8.8.2009;

A caça ao tesouro (La caccia al tesoro), em 9.11.2010;

O sorriso de Angélica (Il sorriso di Angelica), em 17.11.2010;

A intermitência (La intermittenza), em 17.2.2011;

O jogo dos espelhos (Il giocco degli specchi), em 8.7.2012;

Uma lâmina de luz (Una lama di luce), em 8.7.2012.

 

Uma mesma noite, de Leopoldo Brizuela

 

Uma mesma noite pode ser considerado um exemplo perfeito dos rumos atuais da ficção argentina —e essa constatação embute um lado positivo e outro negativo.

 

A obra de Leopoldo Brizuela, ainda pouco conhecido no Brasil, conta duas histórias, distantes 34 anos uma da outra, mas assustadoramente semelhantes: em ambas, o narrador assiste à invasão da casa vizinha e ao alvoroço que a intromissão provoca no universo pequeno dos moradores da rua. Mais: percebe que as duas ocorrências mantêm, entre si, uma relação profunda e perversa. Mais ainda: elas não se resumem a fatos individuais; são traços de uma situação coletiva, de um conjunto de relações incertas e perigosas.

 

Na primeira vez que a casa vizinha foi invadida, em 76, a Argentina vivia a trágica ditadura, a pior de todas. Na segunda, 2010, os tempos, a princípio, deviam ser outros. No entanto, nem tudo do passado passou: resíduos de uma época de porões e sombras, de decisões e ações clandestinas continuam a circular pela cidade.

 

Os capítulos alternam os dois tempos e o leitor aguarda, em ritmo de suspense —que emula estratégias narrativas do policial—, o desfecho, quando sabe que as duas histórias inevitavelmente se encontrarão.

 

Escrito e desenvolvido de maneira hábil e inteligente, o livro incorpora outras vozes, trazidas pelo narrador, num esforço de variar a perspectiva e ampliar os horizontes da leitura que propõe acerca do passado e do presente, na tentativa de reinventar a memória.

 

Num dos casos —o do passado— a construção é bastante bem sucedida; as lembranças evocadas são incertas e temíveis, só se manifestam aos poucos e, muitas vezes, carecem de significados: cabe ao presente produzir sentidos, caracterizar a exceção do que foi vivido, a origem do trauma. O movimento de Brizuela permite, assim, a problematização da memória individual, a percepção de seus desvãos e sua profundidade. O narrador, que não por acaso é escritor, sabe da necessidade de relatar para compreender e dos limites de toda narrativa: “somos os relatos que nos contamos sobre nós mesmos. Mas também somos aquilo que não podemos expressar em nenhum relato”.

 

No outro caso, porém —o da leitura do presente—, o livro carece de densidade. Talvez seja a excessiva aproximação com o atual debate e os compromissos políticos, talvez seja a carência de distanciamento. Talvez —e essa é a pior hipótese— seja a disposição de visitar o passado para justificar o presente. A verdade é que todo o esforço crítico que a obra emprega para pensar e pesar o passado recente da Argentina desaparece quando se trata de representar o presente do kirchnerismo e de sua mitologia política — embora recém forjada, ele emerge do livro como realidade incontestável.

 

Brizuela e seu narrador não são os únicos a problematizar a memória individual e a aceitar acriticamente o discurso oficial. Hoje, boa parte da ficção argentina se volta aos anos 70 e 80 e reflete sobre o que, neles, parece incompreensível —não apenas a horrível ditadura, mas o apoio explícito ou silencioso de muitos.

 

Infelizmente, em muitos escritos do presente, a representação do passado acaba por legitimar o presente, um determinado presente —nem longinquamente unânime. Coloca-se, assim, a literatura, a história e o debate público e necessário sobre um tempo que não pode voltar a serviço da retórica política de alguns governantes. Então, o passado perde força, o presente assume a cena principal e o trabalho de memória se esvai e prossegue inacabado. Mais uma perda.

 

 

Leopoldo Brizuela. Una misma noche. Buenos Aires: Alfaguara, 2012.

 

 

Rostos na multidão, de Valeria Luiselli

 

Rostos na multidão é livro muito inteligente e só por isso já merece ser lido. A mexicana Valeria Luiselli o construiu com muitos fragmentos e algumas vozes para contar a história de uma tradutora e do autor que ela traduz.

 

A tradutora é a narradora principal e seu relato se divide em pelo menos dois tempos: um passado relativamente recente, vivido em Nova York, e o presente, na Cidade do México.

 

No passado, ela mora sozinha, ou quase. Desconfortável em seu apartamento —incomodada por muitas e miúdas coisas—, cede as chaves a amigos e anda por outras partes, dorme aqui e ali, vaga. Trabalha numa editora, cujo chefe a incumbiu de descobrir autores hispano-americanos ainda desconhecidos com potencial para se tornar célebres: ele quer um Roberto Bolaño para chamar de seu…

 

No presente, um marido e dois filhos não nomeados (“o médio” e “a bebê”) dividem a casa com ela —a casa, mais do que a vida— e acompanham, a média distância, seu esforço para escrever um livro, talvez o próprio que o leitor agora tem nas mãos.

 

De um passado mais passado que o da narradora, emerge outro personagem central, outra voz: a de um poeta mexicano que ela transpõe para o inglês. A partir da metade do livro, ou pouco depois, ele assume parte da narração e passa a falar sem a mediação da tradutora: adquire textura, densidade, profundidade.

 

Inevitável, a partir daí: as três vozes —duas da própria narradora, outra do poeta— se confundem, juntamente com suas trajetórias. A errância de ambos no passado os une, e a paralisia no presente (um morto, outra quase). Ele teve a experiência, mas não reconhece mais seu sentido; ela busca se aproximar do sentido, inventá-lo, para restaurar a experiência. Ambos se mantêm ligeiramente à deriva, habitam um mundo onde as fantasmagorias se impõem à realidade.

 

Tudo se combina nas evocações da memória transpostas para o relato feito livro, feito expiação e interpretação de si mesmo; relato em que toda fronteira pretende se dissolver —vida e ficção, indivíduo e coletivo, passado e presente, aventura e investigação, vigor e abandono.

 

Rostos na multidão, primeiro romance de Luiselli, demonstra domínio narrativo incomum para uma obra de estreia, arquitetura exata, desejável economia de recursos, solidez na construção de personagens e no desenvolvimento da trama, reflexão densa. Algo, no entanto, incomoda o leitor —este leitor aqui, pelo menos: a sensação de excessiva artificialidade, um distanciamento, uma frieza que dissoam da potência emocional das histórias que o livro conta.

 

Minha hipótese é que o que empolga o leitor é também o que o decepciona: o cerebralismo notável, a busca da perfeição no relato, o cálculo preciso da dosagem de informação e tensão a cada página evidenciam desmedidamente a estrutura narrativa, os andaimes que sustentaram a construção e que, obra completa, não precisam ser tão acintosos —e, quando são, acabam por se impor à história em si; podem até fascinar teóricos, mas tiram parte da força do relato.

 

Talvez por isso, ao acabar de ler Rostos na multidão, me vieram à cabeça os comentários que Bioy Casares, já maduro e consagrado, fazia a seu célebre A invenção de Morel. Bioy dizia que o livro lhe parecia lógico demais, calculado demais. Isso o incomodava, sugeria falta de vida. É exatamente essa “falta de vida”, ao lado da lógica em excesso e da previsibilidade que esta acarreta, que impede o primeiro romance de Luiselli de merecer plenamente os elogios rasgados de autores do porte de Rosa Monteiro e Enríque Vila-Matas, que a edição brasileira achou adequado reproduzir na capa e quarta capa. Celebração excessiva, bem sabemos, que, ao supervalorizar o livro, pode mais prejudicar do que ajudar sua recepção crítica.

 

De qualquer maneira, ainda assim estamos diante de uma obra incomum, de uma autora capaz de obter, no primeiro romance que publica, algo que muitos ficcionistas latino-americanos da atualidade lutam décadas para alcançar, e raramente conseguem: contar uma boa história e contá-la bem; revelar, digamos, inteligência literária. Nem de longe isso é pouco.

 

 

Valeria Luiselli. Rostos na multidão. Rio de Janeiro: Alfaguara, 2012 (original: 2011; tradução: Maria Alzira Brum Lemos).

 

 

A terceira manhã, de Edgardo Cozarinski

 

A terceira manhã tem um pressuposto borgeano: o instante que cifra uma vida inteira. Mas acaba por ser um aleph: o ponto mínimo que contém o máximo do mundo, ou quase.

 

O narrador do livro mais recente de Edgardo Cozarinski, aos treze anos de idade, aproveita uma viagem dos pais e passa uma noite fora de casa. Anda por Buenos Aires, entra num bar da região portuária, espera o amanhecer.

 

Então o tempo passa, os anos correm e aquela noite, tão distinta das demais, se perde um pouco na memória. Para ressurgir décadas depois, quando o narrador adulto revisita o passado no subterrâneo da consciência e, subitamente, o redescobre.

 

É o trabalho da memória, seus fluxos, sua errância. Mas não a memória que se quer construir, intencional, voluntária; é a memória que sobrevive na obscuridade e de repente —não mais que de repente— vem à razão. Por isso, o narrador pode constatar que sua “descida às sombras” o havia “conduzido inesperadamente à luz”

 

Ao esquecer e ao lembrar, ele se distancia e se aproxima do personagem-menino que, uma noite, foi. Rechaça, às vezes, o passado; outras horas, resigna-se a ele, a esse passado com que mantém  —não mantemos todos?— uma relação instável.

 

Só que Edgardo Cozarinski não limita sua evocação da memória e as constatações de seus desvãos ao espaço do indivíduo. É toda uma geração que corre paralelamente à trajetória do narrador. Uma geração de argentinos que perdeu muito, que perdeu de sonhos abstratos e ideais a pessoas próximas, reais e concretas.

 

A memória coletiva, afinal, funciona de maneira correlata à individual e o retorno ao passado implica —para cada um de nós e para as comunidades, as muitas comunidades, a que pertencemos— uma revisão, um balanço do que se foi, do que os outros foram, do que ficou e do que se perdeu.

 

Felizmente, ao contrário da tendência atual da ficção argentina de se resumir ao lamento dos terríveis anos 1970 e à celebração amarga da luta dos que resistiram à pérfida ditadura militar, Cozarinski leva a discussão mais longe e avalia de forma crítica os abismos onde tantos se perderam —na voz de um personagem, perderam-se por que “desprezavam o passado” e se supunham senhores do futuro.

 

No jogo entre o enredo individual e a trama coletiva de um país que visitou, em menos de um século, o Olimpo e o Hades, Edgardo Cozarinski escreve um livro extraordinário. Extraordinário pela concisão, pela contundência, pela profundidade mascarada de simplicidade. Extraordinário porque não é fácil olhar o passado e não se envolver por sua engenhosa invenção de memória. Extraordinário porque deriva de Borges, o maior escritor latino-americano que já houve, e consegue transpô-lo com brilho para um mundo que não lhe pertencia.

 

 

Edgardo Cozarinski. La terceira mañana. Buenos Aires: Tusquets, 2011.

 

O silêncio da onda, de Gianrico Carofiglio

 

O silêncio da onda conta histórias de pais e filhos —histórias de homens que mudam, se afastam, se aproximam. E escapam, a duras penas, dos clichês que rondam as relações familiares descosturadas.

 

Os capítulos do livro do barês Gianrico Carofiglio se alternam entre dois relatos e dois narradores: uma voz em terceira pessoa conta a trajetória de Roberto, policial afastado de suas funções; outra voz, em primeira pessoa, desenha o mundo íntimo de Giacomo, menino quieto e isolado.

 

Roberto caminha por Roma, tentando decifrar a cidade e expurgar seu profundo desassossego. Durante anos, esteve infiltrado no mundo de grandes traficantes internacionais de droga e hoje vive à deriva, sob efeito de remédios e das longas sessões psiquiátricas.

 

Giacomo, onze anos de idade, relata seus sonhos com um cão que o acolhe e orienta e com Ginevra, colega de escola que o encanta.

 

Roberto e Giacomo só se encontrarão no final do livro, quando ambos terão uma chance de recuperar o que foi perdido no passado. Antes disso, relembram os dias passados com seus pais e se ressentem da ausência deles no presente.

 

A memória —no caso de Roberto, errática; no de Giacomo, limitada— os consola e atormenta. O passado, como Carofiglio já descreveu no título de outro livro, é uma terra estrangeira. O próprio interior de cada um dos protagonistas é distante demais, parece inacessível: Roberto e Giacomo se sentem outros, são outros.

 

Num momento heterodoxo da terapia, Roberto resume toda a tensão: “O meu trabalho era ser outro. E de fato não é ruim ser outro de vez em quando: faz com que nos sintamos livres. O problema surge quanto se deve ser outro na maior parte do tempo. O problema surge quando é preciso ser outro para se sentir você mesmo. E quando parece estranho não ser outro.”

 

O estranhamento, sabemos, é tanto pior quando marcado pela familiaridade: é condição inicial da inquietude. Por isso, a odisseia de Roberto e Giacomo implica alterar simultaneamente a sensação de si, transformar-se por fora e por dentro, reconstruir a vida sem pais ou filhos por perto. Eles têm —o narrador é contundente— que pedir perdão a si mesmos, o perdão sempre mais difícil.

 

Já faz anos que Gianrico Carofiglio é um dos autores mais significativos da literatura italiana dentro e fora do seu país. Sua ficção aguda retoma uma tradição literária que cruza do norte ao sul da Itália e unifica o que a política e o Estado nunca conseguiram aproximar: o esforço de compreender as fronteiras tênues do humano, a instabilidade de toda identidade pessoal e coletiva, a angústia e a errância através dos tempos —os mesmos dilemas que encontramos no toscano Antonio Tabucchi ou no siciliano Elio Vittorini, para ficar em apenas dois exemplos. Será pedir muito que alguma editora perceba isso e o traduza para o português?

 

 

Gianrico Carofiglio. Il silenzio dell’onda. Milão: Rizzoli, 2011.

 

 

Paisagens da Crítica já publicou resenhas de outros cinco livros de Gianrico Carofiglio.

 

Clique no título dos livros para lê-las:

 

As perfeições provisórias (1.11.2010);

Testemunho inconsciente, De olhos fechados, Dúvidas da razão (24.11.2010);

O passado é uma terra estrangeira (30.3.2011).

 

 

O céu dos suicidas, de Ricardo Lísias

 

O céu dos suicidas mostra uma ficção da vertigem. Tudo é excesso e contenção. Tudo é nervo que, se não for criteriosamente camuflado, fica exposto.

 

O narrador do livro de Ricardo Lísias coleciona. Já teve selos e tampinhas de garrafa; agora se envolve com objetos diversos e, sobretudo, procura colecionar antepassados e passados.

 

Tão grande quanto sua obsessão é a angústia que o cerca, ou maior. Do mundo, restam poucas marcas que poderiam confortá-lo, e nenhum delas de fato o faz. Nem a atenção do leitor, chamado a participar do livro e da trajetória exata e errante do narrador, basta para que ele consiga compreender a morte do amigo ou o lugar —mísero e grandioso— que pode assumir nas instáveis relações com quem o cerca.

 

Já faz tempo que Lísias é dos melhores ficcionistas brasileiros: O céu dos suicidas confirma. Nos contos ou romances, o autor desenvolve passo a passo o percurso de uma literatura tensionada, angustiante, capaz de lidar com impasses e dores irreversíveis. Algo de tragédia cerca seus personagens e os áporos de que tentam escapar: às vezes, um capuz; às vezes, uma coleção.

 

Também o desespero é peça do jogo, que favorece mais a indefinição do que as saídas complacentes ou redentoras: assim é a ficção, talvez, porque assim é o mundo, e Lísias não rejeita a identificação pouco mimética, mas muito profunda, complexa. Ficção da vertigem, portanto, porque essencialmente política.

 

E, na política, as ambiguidades —como as de seus narradores— tomam o centro da representação. Só que na ficção —diferentemente da política, e por isso aquela é superior— a razão e os meios não podem prevalecer: explicita-se o conflito irremediável, a aflição sem fim.

 

Também é na ficção, e não na política, que o arrependimento se torna tema principal, mesmo se injustificado, e o silêncio é opressão e expressão.

 

Cabe ao leitor acompanhar as hesitações do narrador, a eloquência de seus gestos vagos e imperfeitos, o rápido desvelamento da insanidade. Para notar, ao final desse livro tão preciso e agudo, que a ficção ajuda a compreender o que está fora dela.

 

 

Ricardo Lísias. O céu dos suicidas. Rio de Janeiro: Alfaguara, 2012.

 

 

Paisagens da Crítica já publicou resenhas de outros cinco livros de Ricardo Lísias.

 

Clique no título dos livros para lê-las:

 

Duas praças (27.10.2006)

Anna O. e outras novelas (9.6.2007)