Uma mesma noite, de Leopoldo Brizuela

 

Uma mesma noite pode ser considerado um exemplo perfeito dos rumos atuais da ficção argentina —e essa constatação embute um lado positivo e outro negativo.

 

A obra de Leopoldo Brizuela, ainda pouco conhecido no Brasil, conta duas histórias, distantes 34 anos uma da outra, mas assustadoramente semelhantes: em ambas, o narrador assiste à invasão da casa vizinha e ao alvoroço que a intromissão provoca no universo pequeno dos moradores da rua. Mais: percebe que as duas ocorrências mantêm, entre si, uma relação profunda e perversa. Mais ainda: elas não se resumem a fatos individuais; são traços de uma situação coletiva, de um conjunto de relações incertas e perigosas.

 

Na primeira vez que a casa vizinha foi invadida, em 76, a Argentina vivia a trágica ditadura, a pior de todas. Na segunda, 2010, os tempos, a princípio, deviam ser outros. No entanto, nem tudo do passado passou: resíduos de uma época de porões e sombras, de decisões e ações clandestinas continuam a circular pela cidade.

 

Os capítulos alternam os dois tempos e o leitor aguarda, em ritmo de suspense —que emula estratégias narrativas do policial—, o desfecho, quando sabe que as duas histórias inevitavelmente se encontrarão.

 

Escrito e desenvolvido de maneira hábil e inteligente, o livro incorpora outras vozes, trazidas pelo narrador, num esforço de variar a perspectiva e ampliar os horizontes da leitura que propõe acerca do passado e do presente, na tentativa de reinventar a memória.

 

Num dos casos —o do passado— a construção é bastante bem sucedida; as lembranças evocadas são incertas e temíveis, só se manifestam aos poucos e, muitas vezes, carecem de significados: cabe ao presente produzir sentidos, caracterizar a exceção do que foi vivido, a origem do trauma. O movimento de Brizuela permite, assim, a problematização da memória individual, a percepção de seus desvãos e sua profundidade. O narrador, que não por acaso é escritor, sabe da necessidade de relatar para compreender e dos limites de toda narrativa: “somos os relatos que nos contamos sobre nós mesmos. Mas também somos aquilo que não podemos expressar em nenhum relato”.

 

No outro caso, porém —o da leitura do presente—, o livro carece de densidade. Talvez seja a excessiva aproximação com o atual debate e os compromissos políticos, talvez seja a carência de distanciamento. Talvez —e essa é a pior hipótese— seja a disposição de visitar o passado para justificar o presente. A verdade é que todo o esforço crítico que a obra emprega para pensar e pesar o passado recente da Argentina desaparece quando se trata de representar o presente do kirchnerismo e de sua mitologia política — embora recém forjada, ele emerge do livro como realidade incontestável.

 

Brizuela e seu narrador não são os únicos a problematizar a memória individual e a aceitar acriticamente o discurso oficial. Hoje, boa parte da ficção argentina se volta aos anos 70 e 80 e reflete sobre o que, neles, parece incompreensível —não apenas a horrível ditadura, mas o apoio explícito ou silencioso de muitos.

 

Infelizmente, em muitos escritos do presente, a representação do passado acaba por legitimar o presente, um determinado presente —nem longinquamente unânime. Coloca-se, assim, a literatura, a história e o debate público e necessário sobre um tempo que não pode voltar a serviço da retórica política de alguns governantes. Então, o passado perde força, o presente assume a cena principal e o trabalho de memória se esvai e prossegue inacabado. Mais uma perda.

 

 

Leopoldo Brizuela. Una misma noche. Buenos Aires: Alfaguara, 2012.

 

 

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