Rostos na multidão, de Valeria Luiselli

 

Rostos na multidão é livro muito inteligente e só por isso já merece ser lido. A mexicana Valeria Luiselli o construiu com muitos fragmentos e algumas vozes para contar a história de uma tradutora e do autor que ela traduz.

 

A tradutora é a narradora principal e seu relato se divide em pelo menos dois tempos: um passado relativamente recente, vivido em Nova York, e o presente, na Cidade do México.

 

No passado, ela mora sozinha, ou quase. Desconfortável em seu apartamento —incomodada por muitas e miúdas coisas—, cede as chaves a amigos e anda por outras partes, dorme aqui e ali, vaga. Trabalha numa editora, cujo chefe a incumbiu de descobrir autores hispano-americanos ainda desconhecidos com potencial para se tornar célebres: ele quer um Roberto Bolaño para chamar de seu…

 

No presente, um marido e dois filhos não nomeados (“o médio” e “a bebê”) dividem a casa com ela —a casa, mais do que a vida— e acompanham, a média distância, seu esforço para escrever um livro, talvez o próprio que o leitor agora tem nas mãos.

 

De um passado mais passado que o da narradora, emerge outro personagem central, outra voz: a de um poeta mexicano que ela transpõe para o inglês. A partir da metade do livro, ou pouco depois, ele assume parte da narração e passa a falar sem a mediação da tradutora: adquire textura, densidade, profundidade.

 

Inevitável, a partir daí: as três vozes —duas da própria narradora, outra do poeta— se confundem, juntamente com suas trajetórias. A errância de ambos no passado os une, e a paralisia no presente (um morto, outra quase). Ele teve a experiência, mas não reconhece mais seu sentido; ela busca se aproximar do sentido, inventá-lo, para restaurar a experiência. Ambos se mantêm ligeiramente à deriva, habitam um mundo onde as fantasmagorias se impõem à realidade.

 

Tudo se combina nas evocações da memória transpostas para o relato feito livro, feito expiação e interpretação de si mesmo; relato em que toda fronteira pretende se dissolver —vida e ficção, indivíduo e coletivo, passado e presente, aventura e investigação, vigor e abandono.

 

Rostos na multidão, primeiro romance de Luiselli, demonstra domínio narrativo incomum para uma obra de estreia, arquitetura exata, desejável economia de recursos, solidez na construção de personagens e no desenvolvimento da trama, reflexão densa. Algo, no entanto, incomoda o leitor —este leitor aqui, pelo menos: a sensação de excessiva artificialidade, um distanciamento, uma frieza que dissoam da potência emocional das histórias que o livro conta.

 

Minha hipótese é que o que empolga o leitor é também o que o decepciona: o cerebralismo notável, a busca da perfeição no relato, o cálculo preciso da dosagem de informação e tensão a cada página evidenciam desmedidamente a estrutura narrativa, os andaimes que sustentaram a construção e que, obra completa, não precisam ser tão acintosos —e, quando são, acabam por se impor à história em si; podem até fascinar teóricos, mas tiram parte da força do relato.

 

Talvez por isso, ao acabar de ler Rostos na multidão, me vieram à cabeça os comentários que Bioy Casares, já maduro e consagrado, fazia a seu célebre A invenção de Morel. Bioy dizia que o livro lhe parecia lógico demais, calculado demais. Isso o incomodava, sugeria falta de vida. É exatamente essa “falta de vida”, ao lado da lógica em excesso e da previsibilidade que esta acarreta, que impede o primeiro romance de Luiselli de merecer plenamente os elogios rasgados de autores do porte de Rosa Monteiro e Enríque Vila-Matas, que a edição brasileira achou adequado reproduzir na capa e quarta capa. Celebração excessiva, bem sabemos, que, ao supervalorizar o livro, pode mais prejudicar do que ajudar sua recepção crítica.

 

De qualquer maneira, ainda assim estamos diante de uma obra incomum, de uma autora capaz de obter, no primeiro romance que publica, algo que muitos ficcionistas latino-americanos da atualidade lutam décadas para alcançar, e raramente conseguem: contar uma boa história e contá-la bem; revelar, digamos, inteligência literária. Nem de longe isso é pouco.

 

 

Valeria Luiselli. Rostos na multidão. Rio de Janeiro: Alfaguara, 2012 (original: 2011; tradução: Maria Alzira Brum Lemos).

 

 

4 pensamentos sobre “Rostos na multidão, de Valeria Luiselli

  1. eu tenho curiosidade de conhecer um livro de uma mexicana. gosto de variar países nos livros que leio para conhecer novos pensamentos e culturas. beijos, pedrita

  2. De autoras mexicanas, li só “Como água para chocolate”, da Laura Esquivel, que foi adaptado para o cinema, um filme também lindo, assim como o livro. Bacana que estão surgindo novos escritores de qualidade na América Latina! Pena que nem sempre eles cheguem até nós. Fica aí mais um ponto para seu blog, por nos apresentar esses ilustres desconhecidos. Resta apenas a curiosidade: onde você arranja tempo para ler tantos livros? hehe. Abraços!

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