A terceira manhã, de Edgardo Cozarinski

 

A terceira manhã tem um pressuposto borgeano: o instante que cifra uma vida inteira. Mas acaba por ser um aleph: o ponto mínimo que contém o máximo do mundo, ou quase.

 

O narrador do livro mais recente de Edgardo Cozarinski, aos treze anos de idade, aproveita uma viagem dos pais e passa uma noite fora de casa. Anda por Buenos Aires, entra num bar da região portuária, espera o amanhecer.

 

Então o tempo passa, os anos correm e aquela noite, tão distinta das demais, se perde um pouco na memória. Para ressurgir décadas depois, quando o narrador adulto revisita o passado no subterrâneo da consciência e, subitamente, o redescobre.

 

É o trabalho da memória, seus fluxos, sua errância. Mas não a memória que se quer construir, intencional, voluntária; é a memória que sobrevive na obscuridade e de repente —não mais que de repente— vem à razão. Por isso, o narrador pode constatar que sua “descida às sombras” o havia “conduzido inesperadamente à luz”

 

Ao esquecer e ao lembrar, ele se distancia e se aproxima do personagem-menino que, uma noite, foi. Rechaça, às vezes, o passado; outras horas, resigna-se a ele, a esse passado com que mantém  —não mantemos todos?— uma relação instável.

 

Só que Edgardo Cozarinski não limita sua evocação da memória e as constatações de seus desvãos ao espaço do indivíduo. É toda uma geração que corre paralelamente à trajetória do narrador. Uma geração de argentinos que perdeu muito, que perdeu de sonhos abstratos e ideais a pessoas próximas, reais e concretas.

 

A memória coletiva, afinal, funciona de maneira correlata à individual e o retorno ao passado implica —para cada um de nós e para as comunidades, as muitas comunidades, a que pertencemos— uma revisão, um balanço do que se foi, do que os outros foram, do que ficou e do que se perdeu.

 

Felizmente, ao contrário da tendência atual da ficção argentina de se resumir ao lamento dos terríveis anos 1970 e à celebração amarga da luta dos que resistiram à pérfida ditadura militar, Cozarinski leva a discussão mais longe e avalia de forma crítica os abismos onde tantos se perderam —na voz de um personagem, perderam-se por que “desprezavam o passado” e se supunham senhores do futuro.

 

No jogo entre o enredo individual e a trama coletiva de um país que visitou, em menos de um século, o Olimpo e o Hades, Edgardo Cozarinski escreve um livro extraordinário. Extraordinário pela concisão, pela contundência, pela profundidade mascarada de simplicidade. Extraordinário porque não é fácil olhar o passado e não se envolver por sua engenhosa invenção de memória. Extraordinário porque deriva de Borges, o maior escritor latino-americano que já houve, e consegue transpô-lo com brilho para um mundo que não lhe pertencia.

 

 

Edgardo Cozarinski. La terceira mañana. Buenos Aires: Tusquets, 2011.

 

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