O silêncio da onda, de Gianrico Carofiglio

 

O silêncio da onda conta histórias de pais e filhos —histórias de homens que mudam, se afastam, se aproximam. E escapam, a duras penas, dos clichês que rondam as relações familiares descosturadas.

 

Os capítulos do livro do barês Gianrico Carofiglio se alternam entre dois relatos e dois narradores: uma voz em terceira pessoa conta a trajetória de Roberto, policial afastado de suas funções; outra voz, em primeira pessoa, desenha o mundo íntimo de Giacomo, menino quieto e isolado.

 

Roberto caminha por Roma, tentando decifrar a cidade e expurgar seu profundo desassossego. Durante anos, esteve infiltrado no mundo de grandes traficantes internacionais de droga e hoje vive à deriva, sob efeito de remédios e das longas sessões psiquiátricas.

 

Giacomo, onze anos de idade, relata seus sonhos com um cão que o acolhe e orienta e com Ginevra, colega de escola que o encanta.

 

Roberto e Giacomo só se encontrarão no final do livro, quando ambos terão uma chance de recuperar o que foi perdido no passado. Antes disso, relembram os dias passados com seus pais e se ressentem da ausência deles no presente.

 

A memória —no caso de Roberto, errática; no de Giacomo, limitada— os consola e atormenta. O passado, como Carofiglio já descreveu no título de outro livro, é uma terra estrangeira. O próprio interior de cada um dos protagonistas é distante demais, parece inacessível: Roberto e Giacomo se sentem outros, são outros.

 

Num momento heterodoxo da terapia, Roberto resume toda a tensão: “O meu trabalho era ser outro. E de fato não é ruim ser outro de vez em quando: faz com que nos sintamos livres. O problema surge quanto se deve ser outro na maior parte do tempo. O problema surge quando é preciso ser outro para se sentir você mesmo. E quando parece estranho não ser outro.”

 

O estranhamento, sabemos, é tanto pior quando marcado pela familiaridade: é condição inicial da inquietude. Por isso, a odisseia de Roberto e Giacomo implica alterar simultaneamente a sensação de si, transformar-se por fora e por dentro, reconstruir a vida sem pais ou filhos por perto. Eles têm —o narrador é contundente— que pedir perdão a si mesmos, o perdão sempre mais difícil.

 

Já faz anos que Gianrico Carofiglio é um dos autores mais significativos da literatura italiana dentro e fora do seu país. Sua ficção aguda retoma uma tradição literária que cruza do norte ao sul da Itália e unifica o que a política e o Estado nunca conseguiram aproximar: o esforço de compreender as fronteiras tênues do humano, a instabilidade de toda identidade pessoal e coletiva, a angústia e a errância através dos tempos —os mesmos dilemas que encontramos no toscano Antonio Tabucchi ou no siciliano Elio Vittorini, para ficar em apenas dois exemplos. Será pedir muito que alguma editora perceba isso e o traduza para o português?

 

 

Gianrico Carofiglio. Il silenzio dell’onda. Milão: Rizzoli, 2011.

 

 

Paisagens da Crítica já publicou resenhas de outros cinco livros de Gianrico Carofiglio.

 

Clique no título dos livros para lê-las:

 

As perfeições provisórias (1.11.2010);

Testemunho inconsciente, De olhos fechados, Dúvidas da razão (24.11.2010);

O passado é uma terra estrangeira (30.3.2011).

 

 

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