O céu dos suicidas, de Ricardo Lísias

 

O céu dos suicidas mostra uma ficção da vertigem. Tudo é excesso e contenção. Tudo é nervo que, se não for criteriosamente camuflado, fica exposto.

 

O narrador do livro de Ricardo Lísias coleciona. Já teve selos e tampinhas de garrafa; agora se envolve com objetos diversos e, sobretudo, procura colecionar antepassados e passados.

 

Tão grande quanto sua obsessão é a angústia que o cerca, ou maior. Do mundo, restam poucas marcas que poderiam confortá-lo, e nenhum delas de fato o faz. Nem a atenção do leitor, chamado a participar do livro e da trajetória exata e errante do narrador, basta para que ele consiga compreender a morte do amigo ou o lugar —mísero e grandioso— que pode assumir nas instáveis relações com quem o cerca.

 

Já faz tempo que Lísias é dos melhores ficcionistas brasileiros: O céu dos suicidas confirma. Nos contos ou romances, o autor desenvolve passo a passo o percurso de uma literatura tensionada, angustiante, capaz de lidar com impasses e dores irreversíveis. Algo de tragédia cerca seus personagens e os áporos de que tentam escapar: às vezes, um capuz; às vezes, uma coleção.

 

Também o desespero é peça do jogo, que favorece mais a indefinição do que as saídas complacentes ou redentoras: assim é a ficção, talvez, porque assim é o mundo, e Lísias não rejeita a identificação pouco mimética, mas muito profunda, complexa. Ficção da vertigem, portanto, porque essencialmente política.

 

E, na política, as ambiguidades —como as de seus narradores— tomam o centro da representação. Só que na ficção —diferentemente da política, e por isso aquela é superior— a razão e os meios não podem prevalecer: explicita-se o conflito irremediável, a aflição sem fim.

 

Também é na ficção, e não na política, que o arrependimento se torna tema principal, mesmo se injustificado, e o silêncio é opressão e expressão.

 

Cabe ao leitor acompanhar as hesitações do narrador, a eloquência de seus gestos vagos e imperfeitos, o rápido desvelamento da insanidade. Para notar, ao final desse livro tão preciso e agudo, que a ficção ajuda a compreender o que está fora dela.

 

 

Ricardo Lísias. O céu dos suicidas. Rio de Janeiro: Alfaguara, 2012.

 

 

Paisagens da Crítica já publicou resenhas de outros cinco livros de Ricardo Lísias.

 

Clique no título dos livros para lê-las:

 

Duas praças (27.10.2006)

Anna O. e outras novelas (9.6.2007)

 

 

4 pensamentos sobre “O céu dos suicidas, de Ricardo Lísias

  1. nunca li nada desse autor e fiquei muito curiosa. nem li em detalhes pra o livro me pegar de surpresa. eu acabo de falar de livro tb no meu blog, terminei de ler a queda do camus. beijos, pedrita

  2. Também nunca li nada do autor. Vai para a listinha! Seu texto me lembrou aquele filme, “Uma vida iluminada”, em que o protagonista vai atrás de seu passado que ele coleciona.

    “Para notar, ao final desse livro tão preciso e agudo, que a ficção ajuda a compreender o que está fora dela”. Ótimo final, e acho que a afirmação pode se estender para outras obras além desta.

    Abraços

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