A vendedora de fósforos, de Adriana Lunardi

 

A vendedora de fósforos traz, logo no início, uma cena prosaica, mas decisiva: a personagem —que também é narradora— arruma estantes, luta contra traças. Luta contra o tempo.

 

Poucas páginas depois, duas frases resumem o livro de Adriana Lunardi: “Tudo se passa atrás dos meus olhos”, “o eu é a única coisa móvel em um discurso”. É o olhar à deriva, olhar que oscila; é a mobilidade simultânea do pensamento, da compreensão. É o estranhamento, que mais do que tema ou metáfora, surge como categoria epistemológica.

 

Assim e aos poucos se monta uma trama que procura as fronteiras da vida adulta, da maturidade, do anseio pela voz e pela expressão. O irmão da narradora não fala na primeira pessoa e ela mesma fala em nome da irmã, pela irmã: escreve as memórias alheias, restaura o outro, interpreta a família e a si mesma no jogo hesitante do tempo que passa, agregando aqui, afastando ali, reconhecendo os quase indiscerníveis limites entre as gentes.

 

Toda história de uma relação, afinal, é a história das perspectivas e de sua variação no tempo —tempo, não custa lembrar, com suas ambiguidades e desvãos, paradoxalmente exato e errático, sempre labiríntico.

 

Por isso, tanta solidão dos personagens, tanto isolamento: o pai, cuja fala tem que ser traduzida pelos filhos; a mãe, que vive em habitual indiferença e cujas alegrias são “íntimas demais para serem entendidas”. Descomunicam-se.

 

Resta escrever uma história capaz de ampliar a percepção alheia e de si, de facilitar a individuação dos olhares. Resta encontrar, depois, o lugar em que as vozes possam se reunir: lá onde os livros duplicam o mundo e a ficção circula entre a verdade e a mentira, entre a própria invenção —que inclui a coleta de textos alheios, copier comme autrefois— e as leituras, inúmeras, ao seu redor.

 

Ao falar dos olhares construídos pelo tempo (e através dele), dos tempos construídos pelos olhares (e através deles), A vendedora de fósforos não revela apenas uma luta contra traças: mostra o vigor da narração de Adriana Lunardi, seu domínio técnico cada vez mais completo e a intensidade da ficção —inclusive da ficção-vida.

 

Adriana Lunardi. A vendedora de fósforos. Rio de Janeiro: Rocco, 2011.

Paisagens da crítica já publicou resenha de outro livro de Adriana Lunardi.

Clique no título do livro para lê-lo:

Corpo estranho (03.08.2007)

 

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