Antonio Tabucchi

 

Domingo, 25 de março de 2012: morreu Antonio Tabucchi.

 

Quem foi Tabucchi? Um dos maiores escritores italianos e de todo o mundo na segunda metade do século XX.

 

Além disso, era o principal estudioso da obra de Fernando Pessoa, que também traduziu para o italiano.

 

O mundo literário é curioso. É repleto de celebridades instantâneas e descartáveis, infladas por um crítica novidadeira e por movimentos de política cultural às vezes nebulosos. No meio de tanta fumaça, alguns escritores sólidos e consistentes ficam meio esquecidos.

 

Tabucchi tinha muito prestígio na Itália e em Portugal, recebeu prêmios importantes na França. Aqui no Brasil, embora vários de seus livros tenham sido traduzidos, era pouco lido.

 

Desde sua primeira obra de ficção, Piazza Italia, de 1973, alguns temas cortam sua obra. O principal deles mostra pessoas que buscam outras pessoas e, dessa forma, tentam encontrar a si mesmas. Tentam romper o que Tabucchi definia como a marca mais destacada do século XX: o desassossego, a inquietude em que vivemos.

 

Alguns de seus livros são vertiginosos. Noturno indiano, de 1987, é um deles. A cabeça perdida de Damasceno Monteiro, de 97, é outro. Gosto especialmente de Réquiem, de 92, e de É sempre tarde demais, de 2001.

 

Mas seu maior sucesso é um livro impressionante: Afirma Pereira, de 94. Narra a trajetória de um jornalista cultural, já meio velhusco, prisioneiro de uma rotina tão implacável quanto sua passividade. A mulher morta e a saúde frágil ocupam boa parte do tempo dele. O passado importa mais que o presente —e o presente em questão é o do salazarismo, ditadura terrível que submeteu Portugal por quase quarenta anos. De uma hora para outra, porém, Pereira rompe sua passividade e age decisivamente.

 

Adaptado para o cinema, Marcello Mastroianni fez o papel principal. Aqui, por um desses motivos inexplicáveis, o filme saiu com o título de “Páginas da Revolução”.

 

Afirma Pereira, além de ser a obra mais conhecida de Tabucchi, é uma espécie de síntese de suas preocupações políticas e literárias.

 

No ano passado, Tabucchi viria ao Brasil para participar da Flip, o evento literário da cidade de Parati, no estado do Rio. Desistiu em protesto contra a decisão brasileira de dar abrigo ao italiano Cesare Battisti. Ou seja, ficamos com o terrorista, perdemos o professor, escritor, intelectual Tabucchi.

 

Agora Tabucchi morreu. Livrou-se do desassossego. Nós, entre inquietos e inconformados, prosseguimos lendo seus livros. É o mínimo consolo.

 

2 pensamentos sobre “Antonio Tabucchi

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