O passado não passa

 

O final de semana, aqui em casa, foi de arrumações.

O quarto de minha filha, que era um quarto de criança, virou quarto de adolescente. Os livros infantis cederam lugar aos juvenis e aos mangás, que ela adora. Saíram brinquedos, roupas e um rebanho de bichos de pelúcia. Dinossauros e pollys, que povoaram dias e dias de brincadeira no chão, receberam nosso último olhar, agradecido.

No todo, quatro sacos grandes, abarrotados de objetos, agora esperam perto da porta da rua para seguir seu rumo e buscar outras crianças.

É surpreendente olhar o quarto depois da transformação. Embora os móveis sejam os mesmos, a nova distribuição sugere um espaço adulto.

Mais palpável ainda, embora menos concreta, é a sensação da passagem irreversível dos dias. Lia —é esse o nome dela— fará treze anos daqui a três meses. É uma menina nos gostos e nos gestos, e também uma moça. No umbral da adolescência, concilia vários tempos, várias idades e vidas. Despediu-se de tudo com menos hesitação do que eu. Segue a vida, com mais futuro que passado.

Por um instante, olhando seu envolvimento nas arrumações —ela, que reclama de qualquer atividade doméstica— lembrei da frase de William Faulkner: “o passado nunca passa”.

Pensei se Faulkner não estava errado; que o passado conseguia, sim, ultrapassar as barreiras que inventamos e partir.

Então me empolguei, ataquei meus armários e me desfiz de 60% das roupas que tinha. Malhas de meu primeiro passeio ao exterior, Buenos Aires em 89. Duas camisas compradas na primeira viagem a Paris, vinte anos atrás. Calças, casacos, camisetas, sapatos. Três malas grandes de roupas, também perto da porta, a caminho de outros corpos.

Satisfeito, aliviado, voltei para o quarto de Lia, que nessa altura acabava seu trabalho. Então a vi organizando suas orcas de brinquedo, quase vinte, que vão ficar. Vi os desenhos, firmes e de traço infantil, que ela colocara no mural.

Respirei um pouco mais forte, o olho encheu de água. E entendi que Faulkner estava certo: o passado nunca passa —em alguns casos, felizmente.

 

5 pensamentos sobre “O passado não passa

  1. Lindo post… mas como tantos autores disseram, inclusive o Veríssimo, o menino é pai do homem… E se a citação é verdadeira, tenho certeza de que a Lia tem um futuro longo e brilhante pela frente…

    Abraço,

    Dennis

Deixe uma resposta

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s