Máscaras, de Leonardo Padura Fuentes

 

Máscaras revelou uma mágica que só a leitura faz: nos levar de volta a um livro e a um autor que antes nos desagradaram e alterar radicalmente a impressão.

 

Três anos atrás, mais ou menos, eu li os livros de Leonardo Padura Fuentes publicados no Brasil. Saí com a certeza de que se tratava de um autor que dominava bem as matrizes e estratégias do gênero policial, tinha texto fluido e ágil, e nada além disso. Um bom entretenimento, agradável, mas descartável. Traduzi minha opinião na resenha de um deles, publicada aqui no blog.

 

Eis que agora, em função de um trabalho que assumi, fui instado a reler todos os Padura traduzidos e um ou outro que ainda não receberam versão nacional. E tudo se modificou.

 

Comecei a releitura por Máscaras, de 1997, o terceiro volume da tetralogia “Quatro estações”, protagonizada pelo investigador Mario Conde —os demais volumes da série são Passado perfeito (1991), Ventos de quaresma (1994) e Paisagens de outono (de 1998, não publicado no Brasil).

 

Máscaras propõe uma trama complexa em que figurões do regime cubano estão envolvidos num jogo de perseguições políticas, sexuais e dramas familiares profundos. Todos se travestem —se mascaram—, literal ou metaforicamente, num movimento ininterrupto de variações e instabilidades.

 

Padura percorre, por meio da ação de seu detetive, os abismos de uma Havana que já foi bela, das mais belas das Américas, e depois se afundou na deterioração e nas relações e nos vínculos clandestinos. Também a história dos últimos quarenta ou cinquenta anos cubanos ultrapassa a função cenográfica que, a princípio, parece ter e se torna personagem decisiva do enredo.

 

Não cabe aqui discutir a dimensão diretamente política do livro —sempre secundária em relação ao exercício muito mais transfigurador da ficção—, nem a posição ambígua de Padura diante do regime. Cabe ressaltar a construção cuidadosa do universo íntimo de Mario Conde e seus amigos unidos em laços profundos e definitivos, o trabalho de assimilação da língua falada no texto escrito, a atualidade de uma narrativa policial que dialoga com as regras e os vícios do gênero, mas não se submete a eles.

 

Mágica é a leitura —e as revisitações, releituras de fato, que fazemos aos livros. Magia não de vara de condão ou correlato, mas a que mostra que nossa posição de leitor não é fixa, nosso tempo não é uno. Somos leitores da mesma forma que somos humanos: oscilantes, dotados de perspectivas provisórias, errantes.

 

Por tudo isso, ao reler Máscaras, não apenas descobri um Padura que eu não tinha enxergado nas leituras anteriores; redescobri, sobretudo, o motivo de, há mais de quarenta anos, eu ter escolhido a leitura como profissão.

 

 

Leonardo Padura Fuentes. Máscaras. São Paulo: Companhia das Letras, 2000 (original: 1997; tradução: Rosa Freire D’Aguiar)

 

 

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11 pensamentos sobre “Máscaras, de Leonardo Padura Fuentes

  1. Oi, Julio

    Belo texto. Como o eu é móvel, leituras do passado que nos eram caras podem se tornar indiferentes e vice-versa. Há um livro de um poeta paranaense já falecido que se chama Procissão de eus – é isso que nós somos.
    Abraço
    msn

  2. Olá, professor, tudo bem?

    Segui sua indicação em aula (e repetida depois no outro blog – aliás, obrigado pela resposta – pois tinha me esquecido do nome do autor) e resolvi ler o “Paisaje de otoño”. Terminei o livro essa semana e gostei bastante, principalmente do que o senhor chamou de universo íntimo de Mario Conde.

    Sobre a trama,confesso que, num primeiro momento, torci um pouco o nariz com aquele buda de ouro à la Piratas do Caribe (consideração esta injustíssima, pois o livro é anterior aos filmes), mas depois achei interessante como o autor procura mostrar a importância e influência do passado no presente, por mais longínquo que aquele seja.

    Com certeza procurarei os demais livros do autor, em especial os protagonizados por Mario Conde.

    De fato, é fantástico quando ocorrem essas redescobertas de autores/livros já conhecidos, mas que passamos a enxergá-los de outra forma ou, então, percebendo suas novas facetas. Um dos maiores prazeres que a literatura pode nos fornecer, com certeza!

    No mais, obrigado por mais uma ótima indicação,

    Rafael

    • Rafael,
      tudo bem?
      Bom que gostou.
      A relação passado/presente é eixo central de quase todos os livros de Padura.
      E a releitura, sempre necessária.
      Abraços,
      Júlio

      Guilherme,
      obrigado.
      O exercício do texto, da escrita, é um dos prazeres maiores do blog.
      E não se preocupe: se releitura é esquisitice, estamos bem acompanhados -Borges, Calvino…
      Abraços,
      Júlio

  3. Prof. Júlio,

    seu texto, independentemente do livro que analisa, é delicioso. Eu o leio só para aprender o bom português, inicialmente, depois é que me dedico a saber sobre a obra.
    Sempre fui dado a releituras, desde Monteiro Lobato, lá atrás, e sempre fui motivo de brincadeiras por isso, como se dado a certas esquisitices. Seu texto me redime, definitivamente.
    Abraços,
    Guilherme

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