Honra teu pai, de Gay Talese

 

Honra teu pai é inesquecível. Provoca, mobiliza, faz rir, desconsola, impregna o olhar pelo texto fluido, preciso, agudo. Sobretudo angustia.

 

Afinal, certas pessoas têm a sorte de viver integralmente seu tempo, de se sentir e estar plenamente acomodadas aos valores e princípios de uma época — a sua época. Essas pessoas, em geral, quando envelhecem, se sentem reconfortadas, satisfeitas da vida inteira. Em seguida, morrem de velhice, beirando os cem anos, e deixam um sorriso clichê nos lábios.

 

Outros, porém, nascem, vivem e morrem num desses desvãos do tempo. Aprendem desde cedo alguns valores extemporâneos e, por um motivo ou outro, atravessam a vida de modo anacrônico, tentando impor à realidade o que não cabe mais nela.

 

Todos nós conhecemos gente dos dois tipos. Na verdade, quase todos nós não somos só uma coisa nem outra. Oscilamos entre o apego ao que já não existe mais e as regras do presente sem mistificação. Assim sobrevivemos.

 

Nos últimos dias aproveitei todos os meus horários livres para ler Honra teu pai, livro de Gay Talese. Em linhas gerais, é a biografia de Bill Bonanno, herdeiro de uma das principais famílias mafiosas de Nova York.

 

Se me perguntarem quantos livros li sobre a Máfia e mafiosos, nem sei dizer. Por questões de trabalho, calculo que já percorri algumas dezenas de milhares de páginas repletas de relatos brutais, histórias cruéis, documentos, ficções: representações mais ou menos verossímeis acerca do funcionamento do crime organizado de origem siciliana.

 

Nunca, porém, uma trajetória me incomodou tanto quanto a de Bill Bonanno. Porque Bonanno foi exatamente um desses personagens que jamais conseguiram se situar no próprio tempo ou puderam resistiram à condenação que o passado lhes impunha.

 

O pai de Bill foi Joseph Bonanno, siciliano de Castellamare e o capo que mais tempo reinou em Nova York. Da década de 1930 até meados dos anos 60, “Joe Bananas”, como era chamado pela imprensa, liderou uma das principais famílias mafiosas. Bill nasceu em 32, teve infância e adolescência tumultuadas, mas não terríveis, e quase poderia ter se transformado numa pessoa comum.

 

Não pôde. Sua vida ocorria em função da do pai, a quem devia suceder. E assumiu a liderança do clã numa época conflagrada, de guerra na Máfia.

 

Gay Talese aproximou-se de Bill na metade da década de 60, se tornou seu amigo para toda a vida, conversaram interminavelmente. A primeira edição do livro, que virou sucesso instantâneo, saiu em 71, quando Bill estava preso. Durante as entrevistas, Talese prometia ao mafioso que lhe daria voz, escapando aos relatos tantas vezes imaginosos com que a imprensa e os órgãos de governo tratam a Máfia. Cumpriu. A edição atual, primeira em português, mostra que o livro mantém seu viço, que a reportagem prossegue instigante, e ainda recebe o complemento de um epílogo que narra o que aconteceu depois de 71 e até a morte de Bill, em 2008.

 

Hoje pensamos nos anos 60 como época de guerrilhas na América Latina, guerra no Vietnã, mundo de ponta cabeça: mais direitos civis, mais informações e cabeças em giro, redefinição e indefinição de papeis sociais.

 

Acontece que, enquanto se descarregava napalm sobre vietcongues e rajadas de balas contra guerrilheiros, enquanto negros, jovens e mulheres definiam seu novo lugar, o tempo das grandes famílias mafiosas se encerrava. A violenta repressão do FBI aproveitava as lutas internas da Máfia de Nova York e desmantelava quadrilhas, abrindo espaço a bandidos mais complexos e discretos, embora não menos brutais e perversos: estes com que convivemos atualmente.

 

Os valores da tradição herdada dos antepassados sicilianos de Bill não se enquadravam mais no mundo aparentemente asséptico de Nova York. O diagnóstico que Talese faz do período é simultaneamente vertiginoso e cínico. O que há de mais fabuloso no livro, porém, é a forma como Bill vai se dando conta do anacronismo de sua posição. Ele se forma e consciente se deforma porque sua consciência não impede que ele cumpra o que dele se espera. Vive, por isso, uma tragédia prevista e anunciada. Sabe-se condenado a destino terrível e mesmo assim caminha direta e algo caricaturalmente para ele.

 

O leitor não consegue ficar indiferente. Angustia-se, apesar de saber que Bill foi um bandido, apesar de desaprovar os valores que o moviam.

 

É que angústia é sentimento insidioso, infiltra-se nas brechas, faz pensar em tudo que nos constrange e nos move. Faz pensar em pessoas próximas ou em nós mesmos, quando não conseguimos romper o círculo mágico do passado e passamos a viver à deriva. O horror, diria Conrad.

 

O horror, dizemos a cada dia em que nos sentimos apanhados pelo redemoinho do presente.

 

 

Gay Talese. Honra teu pai. São Paulo: Companhia das Letras, 2011 (original: 1971; tradução: Donaldson M. Garschagen)

 

 

8 pensamentos sobre “Honra teu pai, de Gay Talese

    • Pedrita,
      tudo bem?
      Leia, sim.
      Darei uma olhada.
      Beijos,
      Júlio

      Enaldops,
      obrigado pelo comentário.
      O livro é excelente.
      Abraços,
      Júlio

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  2. Olá, Júlio, queria te parabenizar pela tradução do “História abreviada da literatura portátil”. Na verdade, o livro é bem fraquinho, mas ali podemos ver onde tudo começou, o ponto de partida do grande Vila-Matas, o pré “O Mal de Montano”. Isso é o suficiente pra comemorar a publicação dele e ainda por cima com sua ótima tradução. Agora é esperar pela edição do “Dublinesca” com a presença luxuosa do V-M no Brasil (já confirmada pela Cosac).

    A princípio, o tema do “Honra teu pai” não me despertou interesse, mas tua resenha (como todas as que li por aqui “ao longo dos tempos”) me fez querer ler o livro. Só uma observação: você diz que a edição atual é a primeira em português, mas ele já foi publicado pela Expressão e Cultura em 1972 com o título de “Os honrados mafiosos”.

    Grande abraço e continue trabalhando muito. Os leitores agadecem.

    Nico

    • Fernando,
      obrigado pelos comentários e pelas leituras.
      De fato, ‘História abreviada…’, embora não seja uma das principais obras de Vila Matas, é um livro importante para compreendermos o funcionamento de sua escritura.
      E muito obrigado pela correção, também. Não sabia que o livro já havia sido publicado aqui. A nova edição traz uma diferença importante: um epílogo, de 2009, atualizando as informações sobre a família Bonanno e relatando alguns desdobramentos da redação e publicação do livro.
      Abraços,
      Júlio

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