Vargas Llosa, Nobel de Literatura 2010

Mario Vargas Llosa, escritor peruano, foi premiado com o Nobel de Literatura.

A Academia Sueca, que o preteria há mais de duas décadas, justificou o prêmio, afirmando que a ficção de Vargas Llosa se impôs “por sua cartografia de estruturas de poder e suas imagens vigorosas sobre a resistência, revolta e derrota individual.”

Uma explicação extraliterária, de óbvia entonação política. No fundo, uma explicação inócua. Nenhuma ficção vale por mapear estruturas de poder e explicitar resistências.

Ficção é imaginação. Ocasionalmente ela pode propor saídas para o mundo, para a vida real. Mas sempre tem que narrar o que poderia ter sido, o que poderia ser, e não o que foi ou é. Aristóteles fez a diferenciação há vinte e tantos séculos e ela continua válida. O compromisso do ficcionista é diferente do compromisso do historiador.

Nem por isso a ficção conta mentiras. Suas verdades são outras e o próprio Vargas Llosa já usou exatamente essa expressão para designar o trabalho do escritor: verdade das mentiras.

Quando precisou dizer verdades da vida vivida, ele disse. Liderou, por exemplo, a primeira manifestação contra o regime cubano, no fim dos anos 60. Vargas Llosa havia apoiado a revolução e os primeiros tempos da Cuba revolucionária. Não suportou quando viu os intelectuais amordaçados e falou, criticou; outros se calaram e continuaram a endossar a truculência do regime de Fidel.

Vargas Llosa falou sobre a vida real e chegou até a se candidatar a presidente do Peru. Perdeu a eleição para o futuro ditador Alberto Fujimori. Durante a campanha, foi rechaçado por alguns devido a seus escritos políticos e por outros, devido à sua ficção. Parte importante da esquerda peruana apoiou Fujimori, pois Vargas Llosa era, diziam, liberal. Rejeitaram um liberal, ganharam um ditador.

Mas o principal mérito de Vargas Llosa foi mesmo sua ficção. Entre tantos livros, Pantaleão e as visitadoras, Tia Julia e o escrevinhador, Conversa na Catedral, O paraíso na outra esquina. Diálogos que se misturavam, histórias à la Faulkner que se conectavam subterraneamente. Cartografia, sim, mas do romance.

Poucas premiações foram tão justas quanto essa. Não importa que os motivos alegados para dar a Vargas Llosa o Nobel de Literatura sejam extraliterários. Ele tem todos os méritos literários para levá-lo.

Paisagens da Crítica publicou duas resenhas sobre livros de Vargas Llosa: Cartas a um jovem escritor e Travessuras da menina má. Clique nos links para lê-los.

 

E clique neste outro link para ler entrevista recente com Vargas Llosa, feita por Emilio Fraia.

 





15 pensamentos sobre “Vargas Llosa, Nobel de Literatura 2010

  1. Olá Julio,

    Apareci por aqui para te agradecer. Assim que soube do Nobel pensei em você. Em 2007, fui sua aluna e lá estava o Vargas Llosa na lista de livros para resenhar. Não me lembro exatamente da sua “propaganda”, mas lembro que da lista, “A cidade e os cachorros” era o seu preferido e eu o escolhi. Desde aquele trabalho, me apaixonei pelo autor e já li mais uns 7 livros dele. Concordo que esse prêmio é mais do que merecido! Já estou esperando ansiosamente por “O sonho do celta”! Obrigada por tê-lo apresentado a mim!

    Beijos,
    Raquel

    • Raquel,
      tudo bem?
      Fico feliz, muito feliz.
      Leia e releia Vargas Llosa, ficção e crítica. Sempre vale a pena.
      Beijos,
      Júlio

      Marcos,
      tudo bem?
      A inflexão do prêmio é quase sempre política. Uma pena, mas também o motivo, ao menos em parte de seu impacto.
      Borges e Lezama Lima – para mim, os únicos latino-americanos que, juntamente com Paz e Vargas Llosa, mereceriam o prêmio.
      Abraços,
      Júlio

  2. Olá Júlio,

    Também gostei do Prêmio Nobel para Vargas Llosa, realmente muito justo. Pena mesmo que a Academia só visualize o engajamento como elemento qualitativo para os escritores. Falham. Falham como falharam ao deixar Borges morrer sem ganhar o tão merecido prêmio.

    Abraços,
    Marcos.

    • Rubén,
      tudo bem?

      Não há motivo para se desculpar. A discordância é sempre lícita, profícua e inevitável.

      E seu comentário me fez buscar o artigo da Laura, querida amiga e leitora maravilhosa, na Folha. Não tinha lido porque normalmente não leio a Folha.

      O argumento dela, no entanto, não invalidou o significado do prêmio dado a Vargas Llosa; ela desqualificou a ficção recente do autor.

      Já faz algum tempo, aliás, que temos análises discordantes em relação aos romances de Vargas Llosa. Quando ‘Travessuras da menina má’ foi publicado no Brasil, chegamos a publicar resenhas opostas na revista EntreLivros: ela apontava diversos problemas no livro, eu anotava traços importantes.

      Diferenças de interpretação à parte, continuo achando que Vargas Llosa está em forma. A estratégia da pesquisa como fundadora da escrita e a capacidade de incorporar os experimentos estéticos dos primeiros livros sem deixar que eles se imponham à fluidez narrativa são, para mim, feitos que poucos conseguem.

      O que sempre rechaço – porque escapa à leitura literária – é que se avalie a obra de alguém em função de suas opções políticas. Houve um tempo em que isso predominava na América Latina. Na época talvez fosse inevitável; hoje felizmente passou. Leio, por exemplo, García Márquez – para usar o contraponto estético, político e pessoal óbvio a Vargas Llosa – sem pensar no seu endosso no mínimo equívoco ao regime cubano, algo que nem Saramago tolerou. E fico um pouco inconformado ao ver que muitos críticos que insistem que a ficção de Vargas Llosa se banalizou dos anos 80 para cá são em geral bastante complacentes com o vazio literário que se apossou de García Márquez desde o excelente ‘O amor nos tempos do cólera’. Não é o caso de Laura, obviamente, cujo rigor de leitura não tem parâmetros ideológicos. Mas é o de muitos críticos que povoam a imprensa brasileira e francesa – para ficarmos nos exemplos evidentes.

      Portanto, repito: nenhum motivo para desculpas. Ao contrário: sou eu que lhe devo agradecer pela indicação do texto da Laura e pela ocasião da conversa. É o reconhecimento da diferença – em termos políticos, do dissenso – que permite que continuemos a superar os maniqueísmos e o privilégio da ideologia sobre a cultura, tão comuns nos anos 60-70.

      Abraços,
      Júlio

  3. Olá Júlio,

    Concordo com você quando diz que Borges, como eu assinalara, e também Lezama, como assinalou, mereceriam a laureação, mas devo discordar quanto a serem estes – juntamente com Paz e Llosa – os únicos latino-americanos em condições de receber o Prêmio Nobel.

    Sou suspeito, mas acho mais do que justa a laureação de Pablo Neruda – apesar do engajamento. Digo apesar do engajamento não porque acredite no aspecto como um erro que o desqualificaria, mas porque Neruda sempre foi muito mais do que um poeta politicamente ativo como a Academia o encarou.

    A qualidade dele acabou sendo reconhecida, como a de Llosa, apesar dos motivos equivocados. A Academia errou feio com Borges, mas também erraria feio, de modo inverso, se perseguisse o engajamento e o preterido fosse o chileno. Acredito que falta exatamente este equilíbrio crítico aos acadêmicos do Nobel.

    Sei que a narrativa ficcional é mais próxima de sua área de atuação, entretanto não poderia me furtar de lembrá-lo da importância do poeta Neruda: lírico-amoroso, surrealista, político, clássico, metafísico, memorialista e sempre, sempre diverso.

    Abraços,
    Marcos.

    • Marcos,
      tudo bem?

      Meu comentário tinha mesmo um tom de provocação. Só que o alvo da brincadeira não era Neruda, e sim García Márquez – acho que ele tem dois livros excelentes, alguns bons e um volume grande de obras esquecíveis.

      Gosto de um Neruda algo específico, o de ‘Residencia en la tierra’. Os demais não me agradam, e não pela politização da obra, mas por seu excesso, pela repetição, que tendem a diluir a força dos escritos.

      E aproveito a resposta ao comentário para esclarecer e fazer justiça: há outro Nobel de literatura para a América Latina bastante merecido e hoje praticamente esquecido: o guatemalteco Miguel Ángel Asturias. É um caso curioso. Creio que ele foi celebrado, nos anos 60, por questões políticas e foi esquecido quando essas mesmas questões políticas saíram de moda. No entanto, a leitura, hoje, de sua obra impressiona. Recentemente voltei a ele, por conta de uma orientanda que fez uma bela pesquisa sobre a trilogia bananeira, e fiquei de fato espantado com a qualidade de seu texto. Fica a sugestão.

      Gabriela Mistral, o outro Nobel literário latino-americano, está também esquecida e acho que podemos deixar assim. rs

      Brincadeiras à parte, obviamente respeito Neruda.

      Abraços,
      Júlio

  4. Olá Júlio,

    Acho García Márquez bom, mas concordo que o critério para escolhê-lo para um prêmio tão importante é questionável. Já ouvi falar de Miguel Ángel Asturias e vou procurar ler algo dele já que ainda não travei contato com a sua obra.

    “Confesso que”, lembrando a autobiografia de Neruda, também nunca li Gabriela Mistral e não posso tecer considerações sobre a obra dela. Até estou pensando em comprar o volume “Antologia en verso y prosa”, lançada recentemente pela Alfaguara e encontrada com facilidade na Martins Fontes.

    Sei que o comentário não foi ofensivo, mas como bom nerudiano engajado, não podia ficar quieto sem sair em defesa do poeta (rs).

    Abraços,
    Marcos.

    • Marcos,
      inevitável defendermos nossos afetos literários. rs
      Vá atrás de Asturias, sim. Dos melhores escritores que já tivemos.
      Abraços,
      Júlio

  5. Oi Júlio,

    Impossível ler algo sobre o Nobel e não vir aqui ler o que escreveu sobre o assunto. Sinceramente ainda tinha esperanças em relação ao Philip Roth (novamente) do qual tenho devorado os livros… Mas concordo com o merecimento do prêmio à Llosa e com à crítica aos critérios de premiação (novamente). Cada dia me desaponto mais e mais com esta politização da Literatura, onde premia-se mais a “militância” de um autor do que os seus escritos. Porém, poderia ser pior.. Ainda lembro de Le Clézio…

    Abraços,

    Dennis.

    • Dennis,
      tudo bem?
      Desculpe-me pela demora na liberação do comentário. Por algum motivo que desconheço ele foi parar na caixa de spam e só o vi hoje.
      Quem sabe ainda chegue o dia de Roth? Torçamos.
      A politização marca o Nobel de Literatura e muitas vezes leva à premiação de autores medíocres. Infelizmente.
      Abraços,
      Júlio

  6. Olá, Julio
    Espero não ter chegado muito atrasado ao tópico do Vargas Llosa.
    Gostaria só de fazer menção ao texto do professor Pedro Meira Monteiro (http://penavadia.blogspot.com/), publicado nesse blogue que dei o endereço, que fala sobre a apresentação de Vargas Llosa em Princeton. Temos muitos exemplos de homens execráveis que produziram grande ficção: Céline, Pound, etc. Nesse sentido, a fala preconceituosa de Vargas Llosa não atinge sua ficção, mas não deixa de ser perturbadora a incompreensão e a intransigência que ele demonstra com relação a Derrida e Foucault – especialmente para nós, acadêmicos, que transitamos por essas balizas.
    Enfim, só uma leve contribuição.
    PS: Uma alegria encontrar teu blog (já nos encontramos por ABRALIC e JALLA, lembra?). Grande abraço

    • Kelvin,
      tudo bem?
      É claro que me lembro de você. Os dois simpósios de que participamos juntos foram muito agradáveis e suas intervenções, sempre interessantes.
      Obrigado pelo link e pelo comentário.
      As opções teóricas que fazemos muitas vezes expressam incompreensões, mas também são inevitáveis – sobretudo quando se trata de uma obra, ficcional e crítica, que atravessa décadas e precisa dialogar ininterruptamente com outras referências e correntes.
      Contribua sempre que quiser e puder – o princípio do blog é exatamente este: romper os limites, cada vez mais estreitos, da academia.
      Abraços,
      Júlio

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