Bienal do Livro

Minha primeira Bienal do Livro foi um sonho. Não sei bem quando foi, 72, talvez 74. Menino de oito ou dez anos, lia o tempo todo e adorava livros — as coisas não mudaram de lá para cá.

Num sábado, como tantos outros, fui com meu pai almoçar na casa de minha avó e minha tia, tremenda leitora, me falou do evento. Dizia das montanhas de livros, das sucessivas estantes. Quis ir.

Andei horas, não sei quantas, pelos corredores do prédio da Bienal, no Ibirapuera, a uma caminhada de casa. Não lembro se comprei algum livro — devo ter comprado —, mas mexi em centenas deles e algumas cenas nunca mais saíram da memória.

Daí em diante, menino, moço ou vetusto senhor, fui a tantas quanto pude. Voltava com sacolas e sacolas de livros, aproveitava o “desconto de 10%” e, principalmente, os estandes de livros estrangeiros. Metade de meus livros cubanos, por exemplo, comprei lá. Conheci Lezama Lima lá e nunca mais o larguei.

Quando minha filha nasceu e cresceu um pouco, quis levá-la a uma bienal. Era na Imigrantes, longe demais, grande demais. Ficamos prensados nos corredores, quase nos perdemos um do outro, não víamos ou ouvíamos nada em meio ao barulho insuportável. Os livros estrangeiros resumiam-se ao óbvio, a quantidade sem critérios massacrava o visitante. Tentei comprar uns livrinhos de dinossauro para ela, ninguém nos deu atenção no estande, fomos embora.

Foi minha última Bienal, faz uns seis anos, e tive certeza de que tudo estava errado. Torci para que o erro fosse meu, que a memória prevalecesse à realidade e ao presente.

Hoje abri o jornal, passei os olhos pelo encarte sobre o evento e li o bonito texto de Ignacio Loyola Brandão. Ele lamenta o prevalecimento do espetáculo e do isolamento. Defende que a Bienal não se resuma a um prédio e a um lugar, que aproxime as pessoas dos livros, fazendo com que eles se tornem palpáveis, quotidianos. Quer que a Bienal ocupe a cidade, calçadas e cantos.

É isso. Parece mesmo a única saída para que ela volte a fazer sentido — e, pelo visto, não só para mim.

Não, acho que não irei à Bienal desse ano, de novo. Tampouco levarei minha filha. Mas quero muito ir à próxima, outra, com mala, cuia e ânimo.

16 pensamentos sobre “Bienal do Livro

  1. uma chamada na folha ontem sobre a flip dizia q o evento teve muita fala ranzinza, polêmicas e até literatura. mas pelo o q eu me lembro da flip, acho q nunca teve tanto espaço na mídia. uma pena q o espetáculo dê mídia e a cultura não. eu não tinha hábito de ir na bienal. trabalhei em algumas e é um bom evento para aqueles que estão longe dos livros. as crianças de escolas vão lá, participam de brincadeiras. mas não é um evento para amantes de livros. beijos, pedrita

    • Pedrita,
      tudo bem?
      Acho que devia ser bom para todo mundo, não só para os grandes editores (muitos dos pequenos abandonaram o evento já há alguns anos).
      Beijos,
      Júlio

  2. Olá Júlio,

    Não nego que a Bienal sofra problemas sérios como a quantidade em detrimento da qualidade, mas vivemos em uma época de conglomerados e eles também imperam no mercado editorial.
    Sempre que vou na Bienal procuro fazê-lo durante a semana, pois o final de semana é realmente impraticável pela lotação, porém ainda existem momentos que fazem a Bienal valer a pena.
    Na última edição do evento, em 2008, fiquei três horas na fila para conseguir um autógrafo do Ziraldo. Chegando a minha vez, queria apenas o que todo fã humilde quer, a assinatura no livro e um sorriso do autor, porém recebi muito mais.
    Ziraldo e um amigo que o acompanhava acharam interessante que o livro que eu levava não era o seu lançamento, mas uma obra relativamente antiga (“O menino quadradinho”, meu livro favorito dele) e quando falei para ele que eu era professor, começou a falar comigo sobre a língua, seus usos e a educação no nosso país por quase dez minutos. Nunca vou me esquecer e acho este o grande trunfo da Bienal: o contato.
    Ele pode ter diminuído consideravelmente com o passar do tempo, entretanto não acabou, o contato ainda existe.

    Abraços,
    Marcos.

    P.S.: Não sei se vou nesta Bienal por motivos de saúde que me afastaram até do trabalho – estou me sentido como aqueles jogadores cortados na véspera do Copa do Mundo.

    • Marcos,
      tudo bem?
      É exatamente nessa linha que o Loyola argumenta: mais eventos, menores e mais dispersos aumentariam a possibilidade de contato e atenderiam mais aos interesses da leitura e dos leitores.
      Espero que se recupere logo – para a Bienal e para o resto.
      Abraços,
      Júlio

  3. Olá Júlio,

    Como está?

    Seu comentário sobre a Bienal me lembrou uma coluna na Folha de S. Paulo, alguns meses atrás, sobre a Virada Cultural, comentando sobre a carência de eventos culturais que uma cidade como São Paulo sofre. Quando acontecem, as pessoas querem usufruir de maneira violenta desses eventos, como se fossem os últimos eventos de suas vidas.

    Acredito que o mesmo ocorra nas Bienais: sempre cheias, com pessoas se degladiando para folhear o último best seller e aproveitas os minúsculos descontos. Realmente vale pelas editoras estrangeiras, que diminuiram em matéria de qualidade, e pelos encontros… mas só.

    Eventos como esse só confirmam o quanto somos carentes nesta área. Uma pena

    Abraços,
    Christian

    P.S. Não sei se estou equivocado, mas não me lembro de ter lido um comentário seu sobre o Roberto Bolaño, que tem sido tão aclamado pela crítica. Li algumas obras dele, não achei tão interessante, mas terminei de ler o 2666 e achei muito bom.

    • Christian,
      tudo bem?
      Obrigado por seu comentário.
      Concordo plenamente: carecemos de espaços e eventos culturais. Os poucos disponíveis estão saturados e mereceriam ser reestruturados.
      É verdade: nunca comentei aqui qualquer livro de Bolaño. Li quase todos, até por dever de ofício (trabalho com ficção hispano-americana), mas nunca escrevi sobre eles. Dias desses me redimo. rs
      Abraços,
      Júlio

  4. Concordo com que o já foi dito, a carência de eventos culturais transforma os poucos que sobrevivem em espetáculo.
    O conceito da Bienal é bacana, mas ambientes culturais devem ser abrangentes.
    Com esse perfil só temos a Virada Cultural, que acontece ao mesmo tempo em várias espaços, mas ainda é pouco.
    Precisamos de mais opções para aliviar esses eventos.
    Bjos.

    • Naiara,
      tudo bem?
      Há alguns espaços que, em sua atividade contínua, criam ocasiões de debate cultural. A Casa das Rosas, por exemplo.
      Mas são raros. Torçamos para que surjam outros, regulares ou eventuais.
      Beijos,
      Júlio

      Eduardo,
      tudo bem?
      Obrigado pelo roteiro da Bienal e pelos alertas.
      O Sesc é, de fato, uma das poucas instituições que oferecem regularmente atividades abertas, de bom nível e muitas vezes gratuitas.
      Abraços,
      Júlio

  5. Livros/São Paulo/experiência pessoal/crítica/Bienal/Família

    Fui à Bienal do Livro 2010, levar a minha filha domingo pela manhã cedo…

    Planejado um roteiro básico com uma pesquisa prévia na internet das ruas, locais e os horários do que a minha filha adora ver. Marquei no mapa e fui fazer uma exploração com a família…

    Chegamos 9:20h no estacionamento sugerido pelo site da Bienal, aguardamos o microônibus nos apanhar e levar até lá. Na inocência, achei que seria deixado dentro do local e defronte a entrada/bilheteria, mas ficamos defronte da avenida principal, sendo que um marronzinho da CET no local avisava ao motorista que alí ele não devia parar e que devia ir para outro local. O motorista parou às 10:00h onde ele havia planejado e, segundo ele parado no dia anterior, e mesmo assim o funcionário da CET ficou de bate e boca com o motorista…Desrespeito ao cidadão e visitante do evento…!

    Descia do veículo com a família e percebi que o motorista não avisou qual era o local que deveríamos ao sair da Bienal ficar para apanhar o retorno do microônibus para voltarmos ao estacionamento, questionei o rapaz da CET que indicou a Rua ao lado do Anhembi (ao sair descobri que o marronzinho estava errado pois os seguranças na saída do Anhembi confirmaram o local. Aliás o microônibus que prestou serviço ao Estacionamento UNIPARE COM e ESTACIONAMENTO LTDA CNPJ 04.338.167/0001-18, viajou com algumas pessoas adicionais, inclusive uma em pé…

    Faltou alguém coordenar com fila da entrada das pessoas ao microônibus. No estacionamento não havia um profissional coordenando e controlando. Ao deixar a Bienal e voltar ao local onde estava meu carro, eu dividi a corrida de um táxi que passava com um outro pai de família que gentilmente ofereceu essa oportunidade, pois tinha acabado de passar pela mesma experiência. O frio que fazia do lado de fora estava tão intenso quanto a temperatura do pavilhão de exposição da Bienal Livro 2010!

    A qualidade do serviço deixa a desejar: a logística de chegada e saída no maior centro de eventos da América Latina.

    A nossa sorte é que portávamos convites e nem precisamos aguardar na fila da bilheteria, e fomos diretamente para as catracas livre de impedimentos!

    Recarregar as baterias: Sabemos que não é possível caminhar com as crianças sem que eles se cansem em algum momento e infelizmente não existe local adequado para uma eventual parada no interior do pavilhão da BIENAL DO LIVRO e os pouquíssimos bancos próximos aos banheiros não são suficientes dimensionados ao público pagante e expositores. Quem buscar um mínimo de conforto fuja de lá. Nem dá para comer e lanchar dentro (restaurantes..). Incrível é que com o frio que faz em Agosto, eu vi vários carrinhos de ambulantes de sorvete no interior da Bienal…. Engraçado que esses carrinhos disputam o espaço de circulação com os visitantes….

    Higiene: Banheiros…, bem.. Caminhando com as crianças, se você tiver pressa talvez seja melhor usar os corredores transversais de menor movimento para cortar caminho e acelerar. Se precisar pendurar a sua sacola com livros, aviso que não existe um gancho defronte aos mictórios; e o pequeno apoio de pedra que existe no local é pequeno demais 10×15 cm. Os 2 banheiros masculinos 2 lados diametralmente opostos do pavilhão!!

    Conclusão: Qualquer um que um dia já tenha ido até a Disney sabe que na terra do Tio San, mesmo em grandes aglomerações, os norte-americanos sabem organizar muito bem os eventos e prestar serviços impecáveis, oferecendo uma experiência ímpar ao visitante. Porém se o leitor dá um enorme valor ao conforto recomendo-o que vá com a filha para folhear, conhecer e ler as novidades numa livraria ou megastore, tomar um capuccino, de certo você será melhor atendido. Se você desejar conhecer e “apreciar” a visita na Bienal 2010, prepare bem o seu espírito… Você exercitará suas virtudes de paciência, tentará avistar as capas dos livros disputando-os de forma gentil com outras pessoas que estarão se apertando mutuamente ou passando defronte ao exemplar. O único momento que valeu toda essa maratona foi a oportunidade da minha família ver e ouvir a escritora Ana Maria Machado e ouvir a contação de história da autora que nos divertiu muito. Evento bem organizado pelo SESC-SP. Parabéns ao SESC.

  6. Sim!!!

    Espero que todas as pessoas um dia tenham acesso a tudo isso! A Bienal é mais que um evento.. é um movimento cultural fantástico.

    Espero poder repassar aos meus filhos e contagiar a todos com este espírito de amor pela leitura!

    bjs

    • Ana Célia e Alberto,
      obrigado pelos comentários.
      É exatamente isso: criar ou retomar espaços, movimentar culturalmente. E o que fazer para isso.
      Abraços,
      Júlio

  7. Tive, em outras edições, a felicidade de participar de cursos destinados aos professores (para que você tenha uma ideia, a palestra da professora Maria Helena Capelato, num domingo pela manhã, lotou o auditório). Porém, esses cursos não são mais oferecidos. Perdemos a chance de trocar ideias, experiências, de ter contato com nossos colegas das Universidades.

  8. Minha segunda Bienal, e não consegui comprar um livro, ou eram promoções inócuas ou livros desinteressantes, quando eu não os tinha.

    Mas eu que nem estava interessadoem ir acabei me divertindo muito em duas mesas, que me chamaram atenção num e-mail e me fizeram ir até lá.

    Mário Sérgio Cortella e Luiz Felipe Pondé discutiram a política como ferramenta de transformação do mundo, com a menção a um livro bastante provocativo do Pondé, que seria de ensaios contra um mundo melhor, e toda essa ideia de que o mundo evolui, melhora e busca uma realidade que seria “boa”.

    Agora, a diversão de fato ficou por conta do debate entre Ruy Castro com sua síndrome de Fazzio, querendo saber todos os mínimos detalhes dos personagens de suas biografias, “contra” Carlos Heitor Cony, ficcionista divertido e irreverente que começou o diálogo citando (falsa ou erradamente) Groucho Marx dizendo que entre uma história e uma lenda ele fica com a lenda. Não satisfeito ele repetiu a citação até que o Ruy corrigisse dizendo o verdadeiro criador da frase. Os limites entre realidade (ainda por cima chamaram de História, no título da mesa) e ficção foram bastante explorados numa discussão bem humorada. Até pensei em citar o Guinzburg com seu queijo e seus vermes que talvez complicasse mais ainda essa ideia de que História é o que aconteceu, mas de qualquer jeito, valeu.

    • Áquila,
      tudo bem?
      Acho que esses debates paralelos acabam por fazer mais sentido para o público do que a exibição e a vendados livros. Tomara proliferem.
      Abraços,
      Júlio

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