István Jancsó

Hoje morreu o historiador e professor István Jancsó.

István era professor no curso de história da Usp e, nos últimos anos, estava vinculado ao Ieb — Instituto de Estudos Brasileiros.

Durante 12 anos fomos colegas. Tivemos raras conversas nesse período.

De István lembro duas passagens, mas elas são decisivas.

Em fevereiro de 1999 eu acabara de ingressar no departamento de história. Numa reunião, Fui apresentado formalmente aos demais professores, que obviamente me ignoraram. István se levantou de sua cadeira, com a dificuldade de locomoção que tinha, veio até mim e disse: “Sei que é sempre difícil começar a trabalhar aqui. Se precisar de alguma coisa, me procure.”

No dia 11 de setembro de 2001, outra reunião ocorria e o emaranhado habitual de questões burocráticas tomava conta da cena. A porta se abriu, István colocou o rosto na sala e avisou: “Um atentado terrorista atingiu Nova York. O World Trade Center está caindo. Na secretaria há uma televisão ligada, mostrando tudo.”

Depois que ele saiu, a reunião prosseguiu do ponto em que ele a interrompera, como se o mundo lá fora não existisse. Eu disfarcei um pouco, saí e fui para a secretaria, ver o que estava acontecendo. Quando cheguei lá sozinho, ele me olhou rapidamente e comentou: “Não sei o que é mais espantoso: o que está acontecendo em Nova York ou o fato de ninguém por aqui se interessar por isso.”

Se ele não fosse um pesquisador e professor reconhecido, essas duas cenas bastariam para que o respeitasse e admirasse sempre.

Hoje à noite tenho que dar aula. Talvez alguém achasse que, em virtude de sua morte, as aulas no curso de história da Usp deveriam ser suspensas. Eu acho que não.

Não consigo supor homenagem maior a esse colega que mal conheci do que dar aula e manter aberto, sempre, o espaço de diálogo, reflexão e discussão.


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22 pensamentos sobre “István Jancsó

  1. De István, a primeira imagem que me vem à mente é curiosa: ele, sentado em uma mesa da extinta cantina do prédio de Geografia e História, invariavelmente com uma lata de refrigente à frente. Invariavelmente sozinho.

    Desde 2007, ano em que ingressei, como aluno, no curso de História, sentia vontade de puxar uma cadeira, saudar “boa tarde” e conversar sobre algo.

    Não porque o elogiavam, nem porque seus textos eram fantásticos (eu só descobriria essas coisas depois, muito depois). Mas porque ele sempre me pareceu uma pessoa muito sábia e simples.

    Em 2007, sua atitude de intermediar o conflito entre estudantes e reitoria fez com que eu soubesse, enfim, o nome daquele velhinho que passava longos minutos sentados, pensando. Disse, à época e posteriormente, em entrevista à Revista de História da Biblioteca Nacional, que aqueles eram seus alunos, não podia abandoná-los (o que também não significava defender todas as suas posições).

    Desde então, meu respeito (e admiração) pelo professor István só cresceu. Não por motivos ideológicos, obviamente, mas porque reconheci, ali, um exemplo do que eu imaginava ser um bom professor. Ele reconheceu que existia a possibilidade de agir (na realidade) e procurou abrir espaços para a conversa, o debate.

    Não sei como terminar esse comentário. Ele acaba aqui, meio sem fim.

  2. prezado julio,

    fui orientanda do István no mestrado, tive o privilégio de conviver com ele durante alguns anos e , portanto, a sorte de ter vivido muitas situações que tornaram o István absolutamente a essência do que a palavra mestre pode significar….muito além do que reza a lógica do mundo acadêmico…com o István aprendi generosidade, respeito, solidariedade, superação, combate, crítica, poesia, literatura, inquitação diante do mundo…uma lição completa de viver a vida sem perder a coêrencia, sem perder-se de si mesmo.

  3. Muito boa a sua homenagem, Julio.

    Conheci o István em 2001, qdo fui calouro no departamento. Ele era o único professor que parecia se preocupar com a “nossa chegada”. Enquanto outros professores reclamavam das coisas que já deveríamos saber antes de entrar na faculdade, ele se propunha a nos mostrar e ensina-las.

    Tive um único trabalho que ele corrigiu, sentado do meu lado. Naquele dia, toda a insegurança que eu tinha se deveria / conseguiria prosseguir no curso foi embora.

  4. Júlio, como sou novo na USP nunca tive o prazer de ter aulas com ele, mas só pelas duas razões que deu já são mais do que suficientes. O seu comentário foi emocionante. Abraços

  5. Bombei Brasil Colonial II no meu primeiro semestre, o que acabou se mostrando uma benção.

    Pude, então, fazer o curso, três anos depois, com o melhor professor que tive nesta graduação, Istvan.
    só me arrependo, agora mais do que nunca, de não ter ido pessoalmente receber meu trabalho final.

  6. Caro prof. Júlio,

    Fui orientando do prof. István de Iniciação Científica até o meio do ano passado.

    Acho que nesse período eu realmente pude entender o que é a história, e o quão interessante o seu estudo pode ser. Um pouco mais do que isso, até. Não conheci nenhum professor no departamento que tivesse a mesma capacidade de lidar com pessoas, ou que tivesse o mesmo interesse pelos alunos e pelo mundo à sua volta. De certa forma, isso sempre foi o que achei mais fascinante nele.

    Abraço,
    Kei

  7. O István era o avô do departamento. Fiz o meu primeiro e o segundo semestre com ele. Nunca vi um prof naquele departamento atender um por um dos teus alunos pra dar retorno de trabalho e oferecer além de livros emprestados café/chá e bolachas. E ainda por cima passar o vídeo do projeto da Brasiliana, sua menina dos olhos. Ele é incrível e encorajava os alunos a baterem à sua porta para pedirem ajuda, tirarem dúvidas ou simplesmente bater um papo. Era óbvio que o que ele mais amou nessa vida foi ser útil, dar aula. Quando fui visitá-lo no hospital semana passada ele falou que saindo de lá pretendia voltar a dar aula no departamento, gostassem ou não. Sou muito, muito grata à ele por num momento de dúvida me encorajar a ficar na história e acreditar que eu tinha potencial (se ele estava certo, eu não sei :p, mas é sempre bom ouvir isso de alguém no primeiro semestre). E meu Deus, que vida ele teve: cheia de princípios e objetivos, mas nunca perdendo o bom humor e a paixão pelo fumo de corda e uma cervejinha. Dá-lhe István, que fez a vida do jeito dele.
    Vou sentir saudades e foi uma honra ter aula com ele.

    PS: Estou na tua turma à noite. Faltei à aula para ir ao velório/ cremação. Estive lá quando ele precisou também.

  8. É mais ou menos isso que disse o Caio… sempre sozinho, invariavelmente com um cigarro na mão, nas mesinhas da lanchonete.

    Fiz “Brasil Colonial II” com ele, e só tenho boas lembranças de um professor rigoroso e afetuoso, preocupado, atento, sério. Indicava boas leituras e incentivava todos os interesses.

    E não era mesmo de falar muito, mas todas as vezes em que eu passava ele sustentava o olhar, esperando que eu olhasse de volta, pra me cumprimentar com um sorriso largo.

    Me dei conta hoje de que uma grade parte da sensação de familiaridade que eu tenho com o departamento de história está relacionada a essa figura. Vou sentir falta.

  9. Também fui aluno do István no meu primeiro semestre. Lembro que tinha muita vontade de sentar com ele naquelas mesinhas para bater um papo, até que um dia venci aquela timidez de calouro e fui puxar assunto usando uns comentários pra lá de banais sobre a obra do Caio Prado Jr. (autor que estávamos estudando naquela época). Quem já fez isso alguma vez certamente se recorda da atenção que o professor tinha nesse tipo de conversa. Cinco minutos depois ele já estava discorrendo animadamente, sempre com aquele sorriso gostoso de se ver, sobre política, poesia e vida.

    Por pura imaturidade, intelectual e emocional, escolhi outro professor para cursar Brasil Colonial II, uma das poucas coisas que eu realmente me arrependo nesta vida. Quem dera poder sentar novamente com ele para ouvir sobre suas viagens loucas ou sobre o grande Guimarães Rosa que ele tanto amava.

    Como escreveu Egberto Penido:

    “sentados aqui longe da vida
    e de seu sorriso, sobre o que
    conversamos?”

  10. Seminário Garantindo a Permanência da Memória, Fazenda Pinhal, São Carlos, SP, 19,20 e 21.10.2007.

    Tive a oportunidade de conhecer o mestre István Jancsó na apresentação de sua palestra “Do Mosaico Luso-Americano à Nação Brasileira: memória e projeto de futuro”.
    A convite de Francisco de Sá Neto, Diretor Presidente da Associação Pró Casa Pinhal, eu também me apresentei como palestrante com o tema “a musealização da história industrial da Votorantim”. O evento visava a troca de experiências e comunicações entre os centros de memória industriais e universitários, atraíndo um público bastante diversificado, que incluía pessoas da comunidade e estudantes universitários de diversas áreas do conhecimento(ciências da informação e arquivística, ciências sociais, história, educação, turismo, arquitetura e urbanismo. A colaboração e o esforço conjunto possibilitou a fusão entre a teoria e a prática de todos gerando muito aprendizado principalmente na fala de István, exemplo de humildade, generosidade e pura doação de conhecimento.
    Após a palestra falei para o István que as próximas palestras deveriam ser apresentadas pelo menos por um estudante e não somente por profisionais renomados que tinham como um dos principais objetivos exibir os seus extensos currículos e experiências, pois isso não servia de inspiração para os jovens que participavam do seminário (na minha opinião as pessoas mais importantes do evento).
    Foi a palavrinha mágica eu falar: “inspiração para jovens universitários” para que István gastasse comigo nada mais do que DEZ HORASdiscursando sobre a importância dos seu jovens universitários( sobre vocês que neste blog o homenagearam). DEZ HORAS que eu nunca mais vou esquecer na minha vida. Parabéns alunos e orientandos do mestre István, vocês foram uma grande fonte de inspiração e uma das razões de viver desse “ser humano”!

  11. Infelizmente só tomei conhecimento do passamento do Professor István Jancsó no dia de hoje (através do programa Pesquisa FAPESP da rádio Eldorado). Concluí minha graduação em 2002, embora frequente a biblioteca da FFLCH sempre que posso e faça um ou outro curso, tomo contato as notícias da FFLCH-USP de forma mais lenta…

    Fui aluno do István no segundo semestre de 1997, em Brasil Colonial II. O que guardo de sua pessoa são a honestidade intelectual, o rigor empírico e conceitual , enorme vontade de ensinar. Como foi dito anteriormente sua extraordinária afabilidade no trato com os alunos (e colegas) foi sua assinatura no espaço um tanto indiferente do departamento de História.

    Lembro de uma tarde de 1997, quando aconteceu um debate entre candidatos a reitor no Anfiteatro de Geografia e ele conclamando a turma de Colonial II a assistir e participar do evento. Dispensou a turma um pouco mais cedo. Modéstia à parte fui um dos poucos da sala a comparecer no debate dos reitoráveis. O evento foi meio morno e o quórum um tanto reduzido. Ele conseguiu me identificar entre o pessoal espalhado entre a arquibancada e mandou um sorriso. Na semana seguinte deu um pito amoroso na turma, indignado com o pouco interesse do corpo discente num momento tão importante para a Universidade, indagando como reagiriam se esta fosse privatizada, o que fariam a respeito da mensalidade, caso esta fosse imposta e por aí vai…

    Dentro do currículo da 7a. série está a temática da crise do sistema colonial, as conjurações e o processo de emancipação e formação do Estado brasileiro, temas que ele dedicou a pesquisar vários anos de sua vida. Enquanto pesquiso e preparo aulas e atividades, sua presença e marcas como mestre serão constantes, no educador que luto para continuar a ser. Aí István Jancso permanece vivo.

  12. Olá,

    Fui vizinho de István durante os últimos dez anos, quase todo dia o encontrava chegando da faculdade ou no caminho contrário.

    Tive oportunidade de conversar com ele algumas vezes que com certeza mostraram como era uma pessoa que ia além quando o assunto é sabedoria e serenidade. Sempre muito carinhoso com a família e a empregada doméstica, já me senti muito culpado em brigar com meus pais, sabendo que muitas vezes era possível escutar tudo na casa ao lado.

    Lamento sua morte pois com certeza István era uma pessoa que merecia viver mais e mostrar ao mundo como as coisas funcionam. Quando uma pessoa como ele falece, sabemos que o mundo sempre vai ficar um pouquinho mais burro.

    Que descanse em paz, meu caro vizinho.

  13. Por deste gostaria de saber qual a nacionalidade do Senhor Professor István Jancsó. Era estrangeiro radicado no Brasil? Onde nasceu e qual a origem de sua trajetória como cidadão, professor e historiador?
    Saudações!
    Ademir – Jaraguá do Sul – SC – Historiador Regional

    • Ademir,
      tudo bem?
      István era húngaro. Creio que você pode conseguir mais informações de sua trajetória pela rede.
      Abraços,
      Júlio

  14. Eu tive aula com o professor István no segundo semestre de 2000. Eu era uma menina, que acabava de terminar o colegial e nem conhecia a complexidade do mundo direito.
    Desde que eu o conheci,comecei admirá-lo pelas suas atitudes, pelo conhecimento, pela educação, pela dedicação e pelo carinho que ele sentia por todos, ou seja, ele não fazia distinções.
    Eu gostava tanto do professor, que muitas vezes, eu desejava que ele fosse o meu avô, apesar de nunca ter conhecido os meus avós de sangue.
    Naquele semestre, o professor pediu para gente fazer a resenha de três livros de historiadores clássicos, uma monografia e a prova. Eu estava muito ansiosa e com medo de não conseguir a conclusão dos trabalhos. Neste momento, eu fui falar com o professor e ele me disse com um sorriso no rosto: ” No final, dá tudo certo”.
    Eu lembro desta frase, nos momentos de agonia, até hoje.
    Em breve, a gente completa um ano sem o querido professor e a saudade permanece, porém eu tenho certeza que ele está num lugar melhor.

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