La bodega, de Noah Gordon

La bodega é daqueles romanções que você lê em três ou quatro horas e demora o mesmo tempo para esquecer. Mas que tem seu lugar nas livrarias, nas listas dos mais vendidos e, por que não?, em alguma tarde modorrenta.

 

Ganhei o livro no meu aniversário, em maio, e o coloquei na imensa pilha de livros “a ler”. Alguns entram nela e não saem mais. Outros saem, tempos depois, diretamente para a estante, após uma breve passada d’olhos. Achei sinceramente que seria este o destino de La bodega.

 

Ok, gosto de vinhos e penso neles mais ou menos a metade do meu tempo (na outra metade, comida). Ok, já havia lido outro livro do autor, Noah Gordon, e me divertira muito: O físico – estapafúrdia tradução brasileira de The Physicien. Mas lera O físico como parte de minha formação como judeu honorário, e não por questões literárias.

 

Eis, porém, que estava exausto num sábado de meio de feriado, quando fui olhar a pilha para escolher algo que ler. Bati o olho em La bodega, enchi uma taça de vinho e fui para a poltrona. Quase desisti a terceira frase, inconformado com uma metáfora baldia de gosto duvidoso. Mas resolvi insistir. Li umas cem páginas e fui jantar. No dia seguinte, home alone, li o resto.

 

O vinho mesmo demora a aparecer. Gordon se preocupa em montar o painel histórico das lutas e guerras políticas da Espanha do último quarto do século XIX e investigar a vida quotidiana dos camponeses. Detalha mais do que seria necessário e lança as iscas que – o leitor sabe – depois fisgarão peixes narrativos.

 

Porque esses romanções são quebra-cabeças: todas as peças devem se encaixar e nenhuma pista pode ficar sem elucidação. Sabe aquela observação passageira sobre a personagem x? Pode ter certeza de que terá desdobramento. Sabe aquele detalhe do vestuário do personagem y? Ele vai, claro, ter alguma importância daqui a, digamos, cento e doze páginas.

 

Mais divertido do que a história – previsível no conjunto e no desfecho – é perceber o engenho do autor. Não há grandes jogos de linguagem, mas há uma fórmula quase exata, treinada por Noah Gordon durante décadas e aplicada com precisão. O leitor não escapa de sua rede.

 

Quando finalmente se fala de vinho – lá pelo último terço do livro – as poucas informações técnicas são simples, mas divertidas. Gordon narra o aparecimento terrível da philoxera nos vinhedos europeus e sua expansão. Do trabalho cuidadoso de corte e da atenção para chegar a um vinho decente. Cruza isso com amores perdidos e reencontrados, com momentos de tensão milimetricamente calculados, com a transformação e auto-reinvenção do protagonista.

 

Tudo clichê? Claro. Dos vinhos à história, da ambientação à construção dos personagens, do desenvolvimento narrativo ao arremate da história.

 

Mas vá você tentar escrever uma história dessas, em que tudo fica no lugar exato e nada se dispersa. Não vai conseguir, e ponto. Porque até receitas que parecem simples precisam ser desenvolvidas com cuidado, com atenção. E as de Noah Gordon nem são assim tão óbvias.

 

Já estou esquecendo os nomes dos personagens e o enrosco político em que se metem. Lembro-me quase apenas da proporção que o protagonista usou na elaboração de seu vinho. Mas também disso esquecerei em breve.

 

Não esquecerei, porém, que Noah Gordon é um tremendo escritor de romanções e ganha uma merecida fortuna com isso.

 

Noah Gordon. La bodega. Rio de Janeiro: Rocco, 2008

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17 pensamentos sobre “La bodega, de Noah Gordon

  1. nunca li nada desse autor e acho que não penso em ler. acho que sempre esqueço hehe. nos últimos anos eu adquiri um certo número de livros. agora mesmo e esse agora já é meio velho pq há um mês e meio leio as aventuras do sr. pickwick do dickens, daquela coleção da abril de capa vermelha que comprei em um sebo por R$ 2,00. então fui comprando livros, poucos em livrarias, vários em sebos. descobri infelizmente que na dermatologista e na minha clínica geral homeopata há um ótimo sebo no térreo do prédio e voltava carregada de lá. foi bom pq esse ano eu e minha irmã estamos em franca crise, não compramos nem queijos mais refinados, então há uma caixa mágica na sala de livros a ler. empresto vários a ela e ela faz o mesmo. eu trouxe na última visita uns 10 livros da casa dela. vários que podem ser lidos em uma tarde. nenhum desse autor que mencionou. e estou assim preenchendo o meu tempo sem gastar um tostão nesses tempos bicudos. afe, dava um livro esse comentário. sorry. beijos, pedrita

    • Pedrita,
      tudo bem?
      O livro de Noah Gordon não é, evidentemente, um grande livro. Mas tem horas em que a gente lê para se entreter. Daí vale a pena.
      Abraços,
      Júlio

  2. fico feliz que as resenhas estão de volta……terminei de ler o Só para fumantes e ainda achei num sebo de Lima um outro do Julio Ramón Ribeyro( um romance Geniecillos Dominicales). Que autor sensacional……e ainda segui suas indicações e encontrei um livro do Enrique Congrains( No una sino muchas muertes) que está na fila…..obrigado pelas dicas.Abraços

    • Nelson,
      tudo bem?
      Boas novas e boas leituras. Ótimo, siga em frente.
      Abraços,
      Júlio

      Caio,
      tudo bem?
      Buenos Aires é uma cidade maravilhosa e as livrarias, idem. Faz muitos anos que não vou lá e me ressinto disso. Mas em breve voltarei.
      Ficção, quem sabe um dia?
      Abraços,
      Júlio

  3. Não senti muita vontade de ler o livro de Gordon no momento. Quem sabe outra hora – há momentos e momentos. Sin embargo, seu texto ficou diferente. Bem solto, mais literário que acadêmico – sendo que cada forma de escrita tem seu momento e seu valor. Comentários esparsos à parte, deixo registrado que gostaria de ler algo ficcional escrito por você. Aposto alto que deve ser bom.

    Visitei Buenos Aires no fim da semana passada. Escreveria um livro sobre isso, mas aqui somente gostaria de dizer que lembrei muito das aulas de América I (o primeiro porteño que conheci chamava-se Facundo) e comprei meu primeiro livro do Borges. Passei pela calle Domingo Faustino Sarmiento (que é paralela à calle Tte. Juan Domingo Perón) e comi empanadas. Vi que é difícil se comunicar com eles, porque, mais do que na Espanha, talvez, lá o espanhol é REALMENTE um português mal falado. Mas me virei melhor do que esperava e treinei minha pronúncia. Comprei alguns outros (muitos, até) livros e recomendo um cartunista (a Folha de SP publica tirinhas dele periodicamente) chamado Liniers, de quem comprei um livro – descobri por lá que ele era Argentino. Visitei San Telmo, mas não fui a La Boca. Fotografei a estátua nova de Mafalda, mas não vi o Quino (afinal, ele não mora mais na calle Chile).

    Ok, percebeste que a “lembrança” de América I foi só pretexto para um depoimento sobre a viagem. Listo.

  4. Oi Júlio,

    Sempre vejo o blog mas nunca comento, nem quando o meu noivo escreveu duas resenhas. Mas não posso deixar de aproveitar esta resenha de um “romanção” para perguntar sobre um autor de romanções do qual gosto muito, mas que adoraria saber como a “crítica séria” o vê. Chama-se Bernard Cornwell e é especializado em romances históricos com temática inglesa. Sabe alguma coisa sobre ele?

    Beijos,

    Lili.

    • Liliane,
      tudo bem?
      Obrigado por seu comentário e sua leitura.
      Mas, me desculpe, ficarei devendo esta a você: nunca li nada de Bernard Cornwell.
      Beijos,
      Júlio

  5. Li e adorei. Creio que tenhas idealizado um livro que falasse sobre vinhos, e talvez, por isso, a decepção. Li por ler. E amei a história de vida dos personagens, e daquela comunidade. Enfim… do que seria o vermelho se todos amassem o azul?
    Até mais,
    Karina

    • Karina,
      tudo bem?
      Bom que gostou.
      O livro é de leitura leve e agradável, envolvente.
      Minhas restrições foram de caráter literário.
      Mas é mesmo essa diversidade de leituras que faz as coisas valerem a pena.
      Abraços,
      Júlio

  6. Interessante! eu adorei o livro de noah gordon por seu caráter humanitário.
    uma oportunidade para sentir com a cabeça e pensar com o coração

  7. Olá caro amigo, esse seu post é bem antigo, então não sei se lerás este comentário. A tradução “O físico” não tem nada de estapafúrdia, na minha opinião. Se procurares no Houaiss, físico também significa médico. Mantiveram a palavra na mesma raiz provavelmente para manter um ar mais medieval ao próprio título, utilizando uma palavra arcaica. Além disso, “O médico” soaria muito feio, e mudar o título para outra frase, neste caso sim seria uma tradução estapafúrdia.
    Um abraço!

    • Claudio,
      tudo bem?
      Obrigado por seu comentário e sua observação.
      Sim, sei que “físico” está dicionarizado também como médico. E gostaria que a opção de tradução do título tivesse derivado da preocupação que você aponta. Mas ainda acho que, mesmo feio, “O médico” seria melhor opção, sobretudo se considerarmos o vasto e diversificado público leitor da obra.
      Abraços,
      Júlio

  8. Eu simplismente me apaixonei por ele. Não só quero ler seus livros como quero te-los. Para que um dia, em uma tarde chuvosa possa voltar a magia e o encanto de seus capitulos sem sair dos fatos historicos, que me fizeram tantas vezes durante a leitura pisquisar e me encantar com a veracidade dos fatos.
    Acabei hoje, a poucas horas de ler Xamã (esse é do meu filho), li anteriormente O Fisico (emprestado), já estamos procurando outro de sua autoria acho que o proximo a ler será O Rabino. Não importa a ordem o que importa e entrar na historia e sentir um enorme prazer na leitura de sua obra.
    Márbia

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