Outra vida, de Rodrigo Lacerda

Outra vida revela vida inteligente na problemática ficção brasileira da atualidade.

O romance de Rodrigo Lacerda recorta duas horas da vida de um casal que, acompanhado da filha, viaja de volta para uma cidade pequena do litoral, origem de ambos. Ele busca alívio e fuga da cidade grande, onde se envolveu num caso de fraude em licitação pública. Ela rejeita o destino pequeno que lhe coube e repudia o retorno. A filha dorme ou brinca, alheia, pelo menos na aparência, aos dilemas dos pais.

A trama se concentra nas horas de espera da partida do ônibus. Mas há mais espera em jogo. A mulher teme a chegada iminente do amante, que prometeu revelar o caso e impedir sua viagem. O marido espera a redenção de uma vida entre amigos e parentes. A filha apenas espera.

Se a narrativa investe nas dimensões pessoais, o pano de fundo é um Brasil corrupto, em que o pior corrupto é o que se arrepende – caso do marido. Mais atual, impossível. E igualmente genérico, como indica a ausência de nomes dos personagens, só referidos pela relação de parentesco ou pela posição que ocupam: o chefe, o deputado.

O drama nacional, porém, por mais que chame a atenção do leitor, não concorre com a intimidade de marido e mulher. As duas horas de rodoviária são o aleph de suas vidas pregressas, o exorcismo silencioso das brigas que tiveram e das que calaram. O descompasso de expectativas e o excesso de ressentimentos. A sensação recíproca de aprisionamento e as diferentes alternativas de liberdade que um e outro sondam. As miúdas mesquinharias que se acumulam no quotidiano.

Evidentemente nenhum dos personagens conseguiria, por si só, realizar os volteios auto-analíticos que o romance oferece. São medíocres em sua capacidade de lidar consigo e com o redor. Mas o que pode soar como inverossimilhança na construção psicológica de ambos é, na verdade, o ponto forte do livro: a constituição de um narrador de tamanha onisciência que afoga os personagens que perscruta e oferece a ficção como alternativa superior à realidade.

Ao eleger a ficção como seu tema – mais do que o painel político ou as relações pessoais e sociais – Rodrigo Lacerda amplia, de maneira arguta, o significado do título, que deixa de se referir à vida sonhada e irrealizada por ambos e passa a demonstrar a outra vida que todos temos se ficcionalizarmos o dia-a-dia. Nosso retrato no negativo, mais cru e duro, concreto e completo.

E a vida ficcional do marido e da mulher se desdobra na hora em que a personagem silenciosa da filha se solta do círculo mágico da alienação e passa a mediar o funcionamento do trio. Alinhava-se então o desfecho conflituoso e racional de uma vida, a real, que foi só desassossego. Não importa que um e outro se apeguem, na hora de embarcar, a outros clichês ou a soluções incompletas. Foram liberados das angústias anteriores pela faca fina da ficção e podem pleitear dias melhores – que dificilmente virão.

Rodrigo Lacerda. Outra vida. Rio de Janeiro: Objetiva, 2009

Anúncios

6 pensamentos sobre “Outra vida, de Rodrigo Lacerda

  1. eba!! adoro esses posts. antes de ler. ontem peguei vários livros emprestados da minha irmã. fiz uma festa por lá. mas ainda estou no ótimo as aventuras do sr. pickwick do dickens e ainda vou levar um tempo pra finalizar. ah, li só o primeiro parágrafo pq fiquei com vontade de ler essa obra. nunca li nada desse autor. vou colocá-lo na minha lista de desejos pra não esquecer. beijos, pedrita

  2. Oi Júlio, tdo bem!!! Adorei o site…
    Eu li o livro “Outra Vida”… fiquei com algumas duvidas e curiosidades …
    Durante o livro a expressão que constitui o título é citada várias vezes, será que isso não indicaria que, para cada personagem, tem um significado diferente…?!!
    O sumiço da menina , culminando com a briga dele com ela (a pai e a mãe), seria o clímax da narrativa???

    Gostaria que fizesse algum comentário sobre essas possibilidades!!!

    Obigada, bjss: Alyne

    • Alyne,
      tudo bem?
      Obrigado!
      Concordo: há muitas outras vidas neste Outra vida. Todas, de alguma maneira, marcadas pela intolerância e pela precariedade.
      E também concordo: o sumiço da menina é o clímax da história: precipita o que até então estava custosamente contido.
      Beijos,
      Júlio

  3. Júlio,

    cheguei aqui pela indicação calorosa da Fátima, no blog dela Boa Baltazar!.

    Percorrendo seus posts, gostei muito. E parei aqui, na resenha do romance do Rodrigo, a quem eu admiro a pessoa e a literatura. Outra vida é um grande romance. É trabalho de quem sabe fazer e tem amor pelo o que faz.

    Eu indico a você e aos seus leitores o romance juvenil do Rodrigo, que foi premiado, muito justamente, com o Jabuti desse ano. É o livro “O fazedor de velhos”. Lindo, tocante, feito para quem tem de 10 a 100 anos.

    Em fevereiro, escrevi uma crítica sobre ele. Não tão profissional como as suas (rsrs), mas escrita com o que de mais emocionante a literatura me toca. Podem acessar no link: http://canastradecontos.blogspot.com/2009/02/resenha-o-fazedor-de-velhos.html.

    Vou listar seu blog nos “cantinhos para visitar” do meu Canastra de Contos.

    Abs e sucesso!

    • Ana,
      tudo bem?
      Obrigado pela leituras e pela indicação. Tenho o livro de R. Lacerda aqui em casa, mas, no carrossel quotidiano, ainda não consegui lê-lo.
      Lerei com prazer sua resenha.
      Abraços,
      Júlio

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s