podcast: Evo em greve

 

No link abaixo, comentário em podcast na Rádio Metrópole de Salvador sobre política e greve de fome.

 

O comentário foi ao ar na segunda-feira, dia 20 de abril.

 

http://www.radiometropole.com.br/objetos/audios/20-04-09_comentario_julio_pimentel.mp3

 

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2 pensamentos sobre “podcast: Evo em greve

  1. Olá, Júlio.

    Este comentário sobre o governo boliviano me faz lembrar outro, anterior, referente à cordialidade de gestos políticos (o do presidente Lula se não me engano) numa situação diplomática. E, enquanto aquele outro, de crivo antropológico, com argúcia terminava por revelar como que o ponto cego (um subconsciente, talvez?) do patrimonialismo de cada dia em gestos políticos nossos, este agora, inversamente, parte de fatos políticos para ressaltar o exercício do que, de público, emagrece tanto que se reduz a pele e osso particulares, sem tutano e sem sustança. Mas a preocupação, em ambos os podcasts, ao meu perceber tem o mesmo pressuposto, buarquiano (faoriano também?): o de investigar a incompetência da América Católica em necessitar de risíveis tiranos (velosiano também? soy loco por ti América).

    Aquele outro podcast eu adorei; este um me intrigou. Política como espaço de dissenso e negociação, em vez de chantagem. O golpismo cruzenho e demais forças “coletivas” que alimentam a cada vez mais cevada oposição a Evo representam, então, a antinomia da magreza individualizante do “cocalero” particularista? (Magreza esta com muito pouca sustança público-nacional?) No caldeirão das terras baixas e dos altiplanos, pode-se espacializar o que de fato é público e o que de fato é privado? Quais os matizes entre todos esses aromas e temperos? A crítica gastronômica será que não requer categorias de interpretação políticas hauridas do que é (ou deveria ser, ou poderia ser) especificamente “democracia” (além de “pecado”…) ao sul do Equador? Será que a dinâmica dos conflitos “políticos” de nosotros não baralha os espaços da “urbe” cruzenho-separatista entre a impossibilidade (porque inexistência) do que seja pólis em águas titicacas e rurais (entre as quais o racismo cruzenho é “isla”, a se “aislar”)? O esgarçamento da luta de classes (ou étnica? ou etno-social? ou o quê?) em contexto neoliberal de suposta “pós-industrialização” ao que pode parecer, vem deslocando as possibilidades populares da Confederação dos Operários da Bolívia (COB) em direção aos supostos “particularismos” indígenas de “cocaleros” e demais grupos (ou classes? ou etnias?) indígenas em lutas (individualizantes? ou metonímicas?) contra o privatismo transnacional das águas (alegóricas?), apoiadas pelos “brancos” e suas cruzadas cruzenhas; se for assim, os “espaços de negociação e dissenso” cruzenho-cruzadistas contra o Eixo do Mal (Morales, Chávez, Ahmadinejad e demais Personificações) representariam Parlamentos e Meios de Comunicação que se poderiam enfrentar de estômago cheio de nutrientes, posto que de Plasil?

    Juro que o parágrafo acima são de fatos questões, e não má retórica (é mal escrito, concordo, mas é dúvidas mesmo, juro).

    De todo modo, pressupostos liberais em política, quando não integrados com a dinâmica sócio-econômica subjacente, talvez sirvam (quer dizer, acho que não servem não, não muito) ao Ocidente; mas acho que não servem aos Orientes. Quer dizer: Ocidente? Oriente? Acho que é tudo borgianamente baralhado, e não apenas no Cone Sul; meu deus! que-fazer com as categorias de pensamento em contexto barroco de claro-escuro! Abaixo Samuel Huntington e sua trupe, que sem querer fez meu pensamento de fantoche.

    Pra resumir: tentei contrapor teu podcast com artigos que li nos números 20 e 19 do Le Monde Diplomatique sobre a Bolievo, tudo isso numa má-digestão que se pode notar. Acho que vou fazer dieta…

    Política, antropologia, literatura, gastronomia, história… quanta densidade por estas paisagens! Fico com vertigens (ainda bem que bem nutrido… ainda que não possa digerir tanta gostosura).

    E ficaria mais, pra filar a sobremesa, se neste primeiro de maio não tivesse três turmas de prova pra corrigir (cada qual com quarenta alunos).

    Então, maleducadamente, me levanto da mesa, cachorro-magro, mas deixo o meu abraço cordial.

    Fernando

    • Fernando,
      tudo bem?
      Obrigado por seu comentário.
      Primeiro, um esclarecimento. Caracterizei Evo como cocalero porque esse foi seu trajeto. Antes do ingresso na política institucional nacional, nunca havia se aproximado de questões indígenas; concentrara sua ações nas reivindicações do movimento cocalero.
      De resto, concordo e discordo.
      Acho que nas terras baixas e no altiplano – principalmente no que concerne às questões indígenas – pode-se, sim, e deve-se diferenciar o que é público do que é privado. Só assim evitamos, por exemplo, reinventar antinomias étnico-culturais e podemos tomar a questão indígena como aquilo que ela efetivamente é: político-social. Manuel González Prada (e, depois, Mariátegui) já falou isso para o Peru no início do XX (e o caso boliviano não é, nesse sentido, diferente) e ainda hoje sua orientação não foi totalmente compreendida. É essa politização da ação e da retórica que, inclusive, permite falar em “índio boliviano” – categoria social, pois étnica ou culturalmente o termo é uma abstração e um erro histórico.
      Isso não significa, evidentemente, endossar políticas pérfidas de governos ou de localidades. Apenas apontar que aqueles que poderiam renovar apenas repetem e reproduzem os vícios da política latino-americana. Que o suposto novo é velho de muito tempo.
      É duro, afinal, olhar para quem se diz renovador e ver que é o mesmo de sempre. Ainda mais (e esse é um desabafo de quem trabalha há quase trinta anos com história latino-americana) quando vem embalado numa retórica gasta e de difícil sustentação histórica, com ou sem o endosso da velha esquerda francesa binária e maniqueísta, que, embora não confesse, continua a ver a América Latina como espaço do exótico e a negar a ela, indiretamente, o direito à renovação das bandeiras políticas.
      Minha fome, por trás do comentário, é de um reconhecimento da política e do debate como um lugar em que não há anjos ou demônios – nem o Eixo do Mal, nem o Grande Satã. Sem espertas artimanhas de um lado ou de outro.
      Daí dá até para digerir com gosto.
      Abraços e boa sorte com as provas…
      Júlio

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