Luisito, de Susanna Tamaro

 

Luisito nem é um grande livro, mas confirma a incrível capacidade da literatura italiana de produzir personagens femininas inesquecíveis.

 

O livro de Susanna Tamaro é breve e sua estrutura, praticamente de conto. No entanto, Anselma, a protagonista, envolve pouco a pouco o leitor, transfere suas aflições, emociona e desconforta.

 

Certamente foi a obra fabulosa de Natalia Ginzburg, maior ficcionista italiana do XX, que criou essa legião de mulheres que impressionam. Mulheres que Natalia esculpia com detalhes agônicos e que viviam em espaços restritos – na geografia e nas emoções. Mulheres que se esqueciam de si até o dia em que se davam conta de que a vida correra, se aproximava do fim e ainda lhes faltava agir.  

 

Tamaro não é Natalia – ninguém é – mas apresenta uma Anselma meio esquecida pelos filhos, viúva de um homem que por poucos anos a iludiu e, durante muitos, a decepcionou. Anselma, que prefere mesmo ter os filhos (com respectivos cônjuges, e os netos) à distância, uma vez que não há conversa, não há conexão possível com eles – “clones”, pensa, do pai.

 

Anselma, que perdeu a melhor amiga, a inesquecível companheira da infância e da juventude, vítima de câncer. E que se ressente de ter se afastado dela após o casamento. Anselma.

 

Eis que um dia, ela encontra um papagaio abandonado no lixo. Leva para casa, o batiza como Luisito, e sua vida muda. Afeto, percebe, pode vir com penas, bico pontudo, algumas palavras repetidas e um contínuo krak, krak. Daí o subtítulo do livro: uma história de amor.

 

Apenas uma semana de convívio com Luisito a transforma. Faz Anselma rever o passado, contar para si mesma as armadilhas em que caiu, pensar quão intensa foi sua relação com a antiga amiga, buscar pessoas queridas há tanto tempo afastadas.

 

O mundo pérfido, porém, a espreita e o desfecho do amor e da vivacidade que ela reinventa através de Luisito pode não ser bom. Não importa. Protagonista típica de uma das melhores literaturas do XX – infelizmente pouco conhecida nesse Brasil francófilo –, Anselma concentra uma vida inteira, mas de setenta anos, no imenso moinho das recordações. Ama Luisito também porque isso significa voltar a amar, poder amar.

 

E o leitor fica a se olhar, e a olhar os outros, no espelho da vida de Anselma, no seu mundo tão pequeno, ampliado por uma ave. Ampliado por ela mesma.

 

Susanna Tamaro. Luisito. Rio de Janeiro: Rocco, 2009

 

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14 pensamentos sobre “Luisito, de Susanna Tamaro

  1. Oi Júlio,

    Acho que li um livro desta autora em inglês. “Follow Your Heart” se não me falha o título. Será a mesma?

    Será a mesma?

    Abraços,

    Dennis.

    • Dennis,
      tudo bem?
      É dela, sim.
      Está traduzido no Brasil, pela Rocco, com o título Vá aonde seu coração mandar.
      Abraços,
      Júlio

  2. Júlio,

    Só podia ser a mesma. Foi um dos livros que li durante o meu segundo”exílio”. Gostei muito do livro, que é sentimental, sem cair nas armadilhas do sentimentalismo. Ficou também impresso na mente toda aquela reflexão à respeito do espirito de 68. Ótimo livro. Assim que puder, vou comprar tanto o “Luisito” quanto “Vá aonde seu coração mandar”.

    Engraçado a sua menção à nossa francofilia. Têm momentos em que penso não sermos nem isto, tal é a aversão aos livros que impera no Brasil (como você bem lembrou no podcast sobre os verdadeiros heróis).
    Mas em todo caso acho uma pena quando falo por exemplo de Camilleri ( que comecei a ler nas suas aulas de Cultura e hoje já li tudo o que foi publicado em português) e as pessoas fazem cara de espanto pela estranheza do nome.

    Mas não resta outra coisa a fazer contra esta situação do que ler, e defender sempre a leitura.

    Abraços,

    Dennis.

    • Dennis,
      claro que as dificuldades são maiores.
      E tem muitas faces, que vão de problemas no ensino da leitura aos preços abusivos dos livros. Passam, por exemplo, pela ausência de políticas de estímulo à leitura que partam de proposta ampla, previamente discutida e elaborada, e sejam aplicadas sistematicamente. O Otaviano de Fiore, secretário de leitura (ou algo assim), tentou isso no governo passado, mas seu projeto foi abortado quando houve mudança de turma na presidência. Hoje, temos iniciativas isoladas e carecemos de um plano global. Uma tristeza.
      Ao comentar a francofilia me referia principalmente ao universo acadêmico na área de humanidades, que contamina nossos suplementos culturais e, em vários casos, as políticas editoriais.
      A literatura italiana, embora tenha sido uma das mais influentes do século XX, é pouco lida, divulgada e estudada por aqui; a publicação de seus autores, mesmo os centrais, é incomum. Confesso que só me dei conta disso quando morei, brevemente, na Itália. Aquilo, para mim, foi uma revelação. Mesmo autores que já conhecia, como Vittorini ou Verga, ganharam outra espessura.
      No caso de Camilleri, creio que haja, além disso, alguma dose de preconceito: contra o livro que é sucesso de vendas, contra a narrativa policial.
      Aliás, falando em Camilleri e aproveitando a ocasião para um marketing rápido), dois livros novos dele estão a caminho de minha casa. Assim que os ler, comento.
      Abraços!

  3. Júlio,

    Conheço o trabalho do Otaviano de Fiore por um país mais letrado. Acima de qualquer ideologia, esta “Hidra de Lerna”, como você bem definiu, deveria ser combatida por todos nós. Mas pelo que vejo, existem outros interesses, mais comprometidos em alimentar ainda mais este monstro.

    Realmente, a francofilia impera o meio acadêmico. Para se ter noção retirando-se os autores de língua portuguesa, francesa e uns gatos pingados representando Albion (Burke, Hobsbawm e Perry Anderson), os únicos contatos com outros textos foram com os alemães em alguns textos de Marx, Hegel e Kant trabalhados em Teoria da História com o Jorge Grespan e o texto “Sinais” do Carlo Ginzburg, que você usou nas aulas de Cultura. Este texto me fez ler alguns livros deste autor por minha conta.

    Como você mesmo defende, o consenso não é o campo ideal para o florescimento da reflexão. Por isto, ao cultuarmos a academia francesa, empobrecemos tanto o debate, não só historiográfico, mas na academia em geral. Por isto agradeço muito por ter aberto os meus olhos.

    Abriu os meus olhos para a literatura italiana também, da qual me tornei grande admirador. Comecei com Camilleri, mas depois fui para Sciascia (Como me emocionei ao ler “O mar cor de vinho”, depois para os poemas e peças Pirandello, a Comédia). Enfim, mergulhei neste mundo e vi o quanto me limitava antes. Agradeço também por me mostrar isto sem que eu tivesse de ir à Itália, viagem com a qual ainda não posso arcar.

    E por fim, fico feliz e ao mesmo tempo com muita inveja, ao saber que mais livros do Camilleri estão chegando, e que ainda terei de esperar um pouco para lê-los. Com toda certeza, os comentários serão um ótimo aperitivo.

    Abraços,

    Dennis.

  4. júlio, bom dia, terminei de ler reparação do ian mcewan e comentei no meu blog. e claro, mencionei o seu, já que quem me apresentou as obras do ian mcewan foi vc. beijos, pedrita

  5. Olá Júlio,

    Foi uma feliz coincidência ter acessado seu blog. Excelentes resenhas.
    Num futuro bem próximo, pretendo realizar mestrado em literatura e tenho pensado em um projeto sobre ‘personagens femininas na escrita feminina’ (algo assim).
    É bem verdade que gostaria de falar da questão identitária e de buscar uma personagem que tenha a necessidade da busca, de saber-se…
    Pensei em Tamaro, que não sei se é o caso, mas vi há muitos anos o filme “Vá aonde seu coração mandar” e pensando em um romance, lembrei-me dessa autora apaixonante.
    Estou meio perdida. Não estudo italiano.
    Será que poderia me ajudar com alguns textos críticos que embasem esta personagem, como a avó da jovem que escreve à sua neta uma carta na obra de Tamaro?
    Qualquer ajuda será muito bem recebida.
    Agradeço. Celeste rp.comun@bol.com.br

    • Celeste,
      tudo bem?
      Obrigado por seus comentários.
      Mas infelizmente não conheço estudos críticos sobre o livro de Tamaro. De qualquer forma, estou à disposição.
      Abraços,
      Júlio

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