O filho da mãe, de Bernardo Carvalho

 

O filho da mãe se passa na Rússia do final do XIX ou do XX? Ou num conhecido consultório vienense da virada do século? Ou no Brasil de hoje?

 

Porque o novo livro de Bernardo Carvalho conta histórias de guerras. Registros da barbárie – que é contemporânea e, cada vez mais, parece atemporal.

 

Porque fala de perdas e recorre a uma dicção que explícita e intencionalmente retoma o padrão narrativo dos grandes romances oitocentistas russos, Dostoiévski à frente.

 

Mas O filho da mãe também investe vigorosamente na discussão freudiana. Mães e filhos trocam suas angústias e contam suas perdas. Acumulam impasses e vivem a marginalidade de relações que, carentes de paternidade, se traduzem numa espécie de homoerotismo ininterrupto, quase inevitável.

 

Daí o leitor ser forçado a reconhecer que o debate psicanalítico é tão importante, por trás do livro, quanto o literário. E que o desejo de afirmação de novos enunciadores de discursos e de práticas cotidianas ultrapassa, em muito, o panorama russo e atinja os ares brasileiros, ou ocidentais.

 

Na verdade, Bernardo Carvalho combina todos esses elementos e os funde numa narrativa vigorosa. Escreve algumas páginas extraordinárias, que se equiparam aos melhores momentos de seus melhores livros (Nove noites, Mongólia). A confissão de Anna, entre as páginas 88 e 89, por exemplo, é concisa, seca, intensa, forte, amarga, triste, decisiva. O leitor procura adjetivos para caracterizá-la enquanto se envolve e ri – pelo prazer da leitura.

 

Carvalho também varia continuamente a perspectiva do narrador, junto com o tipo de discurso empregado, adequando o registro a cada trama. Constrói os personagens com densidade e coloca em paralelo mães simultaneamente fracas e fortes e filhos que vivem à deriva. Todos vulneráveis – explica o narrador e mostra um mundo em que amor e sexo, guerra e humilhação se associam para intensificar a tragédia de todos: russos de qualquer século, brasileiros. Sempre há alguém prestes a nos atacar.

 

A oscilação entre tempos e lugares, porém, enfrenta uma barreira no livro. O olhar sobre São Petersburgo, cidade-chave da trama, é artificial. Aparentemente, uma artificialidade intencional e calculada, expressa no espanto de um narrador que já devia conhecer aquelas paragens, nas descrições detalhadas de lugares e na proliferação de nomes. Mas esse tom falseado limita a entonação dramática que Carvalho aplica ao desenvolvimento das histórias e sugere – à semelhança de seu último livro, O sol se põe em São Paulo – que o gosto da brincadeira literária quer se impor ao trabalho narrativo. Que o diálogo intertextual é mais importante do que a história em si.

 

O artificialismo na relação com a cidade atrapalha, por exemplo, o desfecho, que pode decepcionar o leitor mais interessado na história do que na discussão teórica ou no diálogo entre autores. Mas não chega, claro,

a corroer o livro. Bernardo Carvalho, um de nossos principais escritores na atualidade, demonstra a força de seu texto e seu rigoroso domínio técnico. Faz de O filho da mãe, ainda em março, um dos prováveis melhores livros do ano. E uma leitura indispensável.

 

 

Bernardo Carvalho. O filho da mãe. São Paulo: Companhia das Letras, 2009

 

Paisagens da Crítica publicou comentário, no endereço antigo do blog, sobre outro livro de Bernardo Carvalho, O sol se põe em São Paulo (3 de abril de 2007): http://paisagensdacritica.zip.net/arch2007-04-01_2007-04-07.html

 

7 pensamentos sobre “O filho da mãe, de Bernardo Carvalho

  1. eu queria ler ‘o filho da mãe’, mas estou receosa porque todo mundo adorou ‘o sol se põe em são paulo’ e eu não gostei. você leu ‘o sol…’? qual você achou melhor?

  2. Julio, apenas para ajudá-lo a entender melhor em que condições Bernardo Carvalho escreveu este romance.

    Trechos da entrevista no Jornal do Brasil por Juliana Krapp.

    “…Logo em um de seus primeiros dias em São Petersburgo, Bernardo Carvalho sofreu uma tentativa de assalto na Avenida Niévski, a principal da cidade (tanto que leva o nome do príncipe russo que venceu os teutônicos no século 13, e cuja história foi recontada por Sergei Eisenstein no cinema). Três homens o cercaram, abriram sua mochila e tentaram furtar seu computador – salvo graças à correntinha do chaveiro, que o prendia à bolsa. Dias depois, numa cafeteria, foi alertado pela garçonete, num inglês primário: era melhor mudar de mesa; o homem sentado ao lado estaria apenas esperando o momento ideal para o bote.

    No apartamento que alugou na mesma avenida, com a lâmpada da porta em curto, o escritor concentrava-se em não ceder ao próprio pavor. Depois das 20h, era o único habitante do prédio comercial, e nos momentos de maior pânico, elucubrava: os assaltantes haveriam de aparecer de novo; desta vez, quem sabe, a sua porta.

    – Fiquei paranoico – define o autor, que narrou o sufoco no blog do projeto, . – Mas aí pensei o seguinte: tenho que passar um mês aqui, então preciso me controlar. Decidi que não deixaria de fazer mais nada devido ao meu pânico.

    E não deixou mesmo. Continuou visitando o restaurante indiano no fim da rua escura; permaneceu à caça das histórias que queria, na tentativa de descobrir como funciona a cidade, que desbravava a pé, ou então fazendo um ou outro trajeto em corriqueiras lotações.

    O risco onipresente, porém, tem papel central em O filho da mãe. Os dois protagonistas, por exemplo, se conhecem exatamente num furto (em que um deles é o assaltante). A vítima, um soldado que acaba por desertar, empreende uma perseguição obsessiva ao criminoso. Até que se apaixonam.

    Da mesma forma, está no romance o descaso, a indiferença diante da violência iminente. Quando gritou por ajuda na Avenida Niévski, Carvalho não teve nenhum retorno. Em O filho da mãe, a negligência exala mesmo quando as relações envolvem laços de sangue – e cede espaço para a xenofobia, a homofobia e a atuação traiçoeira de skinheads, policiais corruptos e vigaristas em geral.

    – São Petersburgo é uma cidade deixada no passado. As fachadas são bonitas, mas, por dentro, está tudo caindo aos pedaços – descreve Carvalho. – É o lugar de uma ambiguidade absurda: foi planejada para a visibilidade, mas tudo se passa na surdina. A própria cultura é alternativa, acontece nos subterrâneos, escondida.

    Não é à toa que a trama principal de O filho da mãe se situa no ano de 2003, quando a cidade foi reformada, com mão-de-obra do Cáucaso, para as comemorações de seu tricentenário.

    Elogio à ficção

    Para reconstruir literariamente o universo decadente de São Petersburgo, tão importante quanto a viagem foi, para o escritor, a descoberta de um dos principais autores russos do realismo socialista: Vassili Grossman, que escreveu Vida e destino, um tijolo de mais de mil páginas que só veio à tona na década de 80.

    – O Grossman era algo como o escritor oficial da Rússia, pois era muito respeitado pelo modelo stalinista. Era judeu e jornalista, cobriu a batalha de Stalingrado, viu a virada dos russos, viajou com eles até Berlim. Foi talvez o primeiro jornalista a visitar um campo de concentração na Polônia, e ficou muito abalado com isso – conta Carvalho. – Vida e destino acabou proibido pela KGB, e Grossman morreu na miséria. Eu nunca havia ouvido falar sobre ele até que, um dia, em São Petersburgo, fui ao teatro e fiquei sabendo que o estavam encenando. Não vi o espetáculo, mas o nome ficou na minha cabeça.

    Quando viajou para uma feira de livros no Chile, meses depois, Carvalho se deparou com Vida e destino logo no primeiro estande. Começou a lê-lo, e o impacto foi inevitável:

    – É um livro cheio de uma certa pieguice, de um sentimentalismo heroico e, ao mesmo tempo, muito trágico. Achei um negócio sensacional. Embora O filho da mãe não tenha nada a ver com ele, acho que fui contaminado: o escrevi sob a égide de Vida e destino.

    Foi, assim, uma experiência bastante diversa da que o levou ao romance anterior, O sol se põe em São Paulo – finalista como Melhor Livro do Ano do Prêmio São Paulo de Literatura e terceiro lugar no Prêmio Portugal Telecom, ambos no ano passado. Nele, Carvalho quis elaborar um elogio à ficção, quase que como um manifesto.

    – Com Mongólia e o Nove noites, meus romances de maior sucesso, e que foram concebidos simultaneamente, as pessoas passaram a me identificar com uma fórmula – conta. – O que fez os livros venderem foi a ideia de que havia uma história real ali, mesmo que eu vivesse batendo na tecla de que se tratava de ficção. Não queria ficar preso a esse rótulo, e daí surgiu O sol se põe em São Paulo, quase que como um manifesto, uma fuga da camisa de força. Eu estava em crise quando o escrevi.

    Já em O filho da mãe, embora ainda haja, de fato, um elogio à ficção, havia a necessidade de atender aos critérios do projeto. Um estímulo a mais, diz Carvalho.

    – Escrever sob encomenda, como neste caso, tem um peso, é algo construído a despeito de sua vontade. Mas gosto disso. Funciona como uma reportagem, pois serve como pretexto para entrar em contato com outros mundos e personagens, com os quais não teria contato se não fosse por essa via – diz. – A encomenda faz descobrir coisas em seu próprio universo literário. Sendo diferente, o livro reproduz tudo o que sempre quis. E o que sempre quis foi fazer literatura…”

  3. Júlio,
    Eu concordo com você quanto ao O Sol se põe em São Paulo, mesmo não tendo lido Mongólia nem Nove Noites. Ele me decepcionou. Talvez porque eu fui influenciada pelas expectativas alheias. Achei bem pertinentes todas as perguntas que você fez no início do texto.
    Abraço,

    • Crica,
      tudo bem?
      De um grande autor, como Bernardo Carvalho, espera-se mais.
      Incomodou-me, no livro, sobretudo o artificialismo da escrita.
      Abraços,
      Júlio

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