O encontro, de Anne Enright

 

O encontro provoca desconforto. Incomoda. Aflige e angustia. Principalmente porque mostra tudo que a morte ilumina. E nos faz lembrar o que normalmente preferimos esquecer: que a indesejada das gentes revela o passado e o presente – além de negar o direito ao futuro.

 

É isso, pelo menos, que Veronica, personagem principal e narradora do livro de Anne Enright, descobre ao saber da morte do irmão mais próximo e mais querido, Liam. Obrigada a recolher o cadáver do irmão suicida em Londres, Veronica sai da Irlanda e entra na história da família.

 

Nas idas e voltas entre os países vizinhos, ela reconhece as histerias de cada um dos (muitos) irmãos e irmãs, as imperfeições dos pais e a mediocridade de seu próprio casamento. Reavalia os ritos tenebrosos que toda família é capaz de engendrar e perpetuar, quase sempre de forma acrítica e sem notar os desvãos em que seus membros são lançados.

 

O espelho de Veronica é Ada, sua avó morta, cujo passado é visitado e reinventado. Tudo o que fez Ada até que se casasse e a relação ambígua com um ex-namorado se prestam para que Veronica enxergue o momento em que sua imensa família entrou no labirinto. A hora em que começou uma rotina que expelia os corpos estranhos, detestava os diferentes, celebrava baldiamente vínculos que, no fundo, eram frágeis e ignoravam as histerias de quase todos. Uma família que desconhecia a si mesma e ignorava quem vinha de fora.

 

Todos conhecemos uma família ou história assim; daí o incômodo, o desconforto e a aflição. Porque a angústia de que Enright fala não é a desesperada, que desemboca em gestos caricaturais. É a angústia palpável, vivida, do sofrimento que sabemos poder superar – por isso ela é tão profunda, tão pior. Sabemos que ficaremos irremediavelmente marcados por ela. Que a tristeza se tornará um estado não expresso em todos os momentos, mas nem por isso encerrado. Que ela vira o fio que nos conduz, o chão que pisamos.

 

A necessidade de reviver a avó, para Veronica, é, apesar das aparências, um pouco de esperança. Afinal, se vivemos as vidas alheias é porque acreditamos em simetrias. Se sondamos as alternativas abertas aos outros é porque queremos ter novas possibilidades: sair do abismo, apostar em mudanças que nos redimam do passado e do presente e tragam a chance de algum futuro.

 

E futuro se divisa, em todo o romance, com o anseio para escapar da solidão – aquela que a família acredita que não existe porque só se refere a si mesma, histericamente, sem perceber que é uma abstração, expressa num nome ou em dois ou três símbolos falidos, bem longe da realidade. A solidão que vem quando nos damos conta de que perdemos o amor possível, que só restaram amores deficientes ou burocráticos e vivemos isolados em meio a toda gente.

 

Solidão que vem quando nos damos conta de que a única coisa que absolutamente não esquecemos é o que mais queríamos apagar. Solidão, tema central de O encontro, essa história de desencontros.

 

Anne Enright. O encontro. Rio de Janeiro: Objetiva, 2008 (original: 2007; tradução: José Rubens Siqueira)

 

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8 pensamentos sobre “O encontro, de Anne Enright

  1. Oi Júlio,

    Não é estranho, é europeu, com folhas secas e avermelhadas dos plátanos.

    Mas se quiser, podemos nacionalizar o blog com umas fotos de patos selvagens da amazônia. Que tal? Avise-me e providenciarei.

    abraços

    Val

  2. Val,

    não acho estranho por ser europeu, mas por ser meio clichê.

    Obrigado pela oferta: pode providenciar. Por favor. Claro. Óbvio. Melhor que patos em fotos, só nos pratos. Mas isso não dá para oferecer virtualmente.

    E eu me empenharei para conseguir colocar a foto amazônica no blog.

    Obrigado & beijos,
    Júlio

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