O Livro Amarelo do Terminal, de Vanessa Barbara

 

O Livro Amarelo do Terminal inverte o célebre ditado. Há males que vêm para bem – sabemos. E há bens que vêm para mal – aprendemos.

 

O bem que veio para mal, no caso, é o projeto gráfico do livro. Ele é quase todo impresso sobre papel amarelo, de baixíssima gramatura, com tipos pequenos dispostos em espaço duplo. A parte histórica sugere carbono roxo sobre papel branco. Intervenções no mesmo padrão-carbono, ou mimeógrafo, preenchem e diversificam o visual, junto com outros elementos gráficos salpicados aqui e ali.

 

O projeto sem dúvida é criativo e tenta ampliar os significados do texto. Peca, porém, pelo excesso. No lugar de auxiliar, polui. A boa intenção acaba por atrapalhar a leitura.

 

E é uma pena, porque o livro de Vanessa Barbara é muito bom. Não precisava do apoio que o design tenta dar e que acaba por nublar o texto fluido e divertido que mostra a pesquisa da autora sobre o caos instaurado na Rodoviária do Tietê. Porque O Livro Amarelo se dispõe a mapear o maior terminal de ônibus de São Paulo e, para tanto, segue os caminhos de suas gentes e coisas.

 

Vanessa Barbara é boa jornalista. Escreve na Piauí e, mais recentemente, no Estado. Também escreveu um bom romance em parceria com Emilio Fraia. Sobretudo sabe combinar leveza e densidade. Na origem, fez O Livro Amarelo como monografia acadêmica. Sem nada do enfado que a academia oferece. Vanessa é sutil. Seu texto mistura registros variados: passa do relato de observação à análise psicológica, da sátira ao lirismo que alguns personagens inspiram, da crítica política ao desvendamento da intimidade.

 

A organização do livro é também engenhosa: associa temas e espaços, percorre itinerários (nos vários sentidos), perscruta o lugar e, de algum jeito cifrado, pergunta: o Terminal tem alma? Para responder, nostalgicamente, que sua única alma é mutante na aparência.

 

Não, não precisava sobrecarregar o visual do livro. Bastava expor a escrita aguda do tempo presente. Porque O Livro Amarelo trouxe de volta a crônica, atualizando-a numa época em que a supúnhamos quase morta e sepultada – com raras e honrosas exceções.

 

Ao subir e descer nos níveis da Rodoviária, Vanessa B. também associa tempos: o passado-tão-presente da construção e das transformações da Rodoviária ao presente-tão-antigo do movimento atual. De ambos ao futuro incerto e, não paradoxalmente, previsível, em que seus personagens estão fadados à repetição das mesmas cenas, presos no mesmo labirinto de corredores que tentou fixá-la e foi rompido pela boa escrita e, diria Cabral, por sua agulha do instante.

 

 

Vanessa Barbara. O Livro Amarelo do Terminal. São Paulo: Cosac Naify, 2008

 

Paisagens da Crítica já comentou o romance de Vanessa Barbara (em parceria com Emilio Fraia), O verão do Chibo (28 de julho de 2008).

 

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Um pensamento sobre “O Livro Amarelo do Terminal, de Vanessa Barbara

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