Nobel 2008

 

E Le Clézio ganhou o Nobel de Literatura 2008.

 

Dizer o quê?

 

A escolha do prêmio deste ano já estava comprometida há semanas, desde que um dos representantes da academia sueca espinafrou a literatura norte-americana.

 

Disse que era pouco inventiva. Disse que não surpreendia. Disse que era auto-centrada e “não participava do grande diálogo da literatura mundial”.

 

Sei lá o que isso significa. Ainda mais num ano em que Philip Roth e Joyce Carol Oates estavam muito bem cotados.

 

Ninguém entendeu porque o clássico silêncio escandinavo foi rompido. E com bobagem da grossa.

 

Agora deu para entender. Inventividade, surpresa e capacidade de diálogo, para a academia sueca, é o que se faz na literatura francesa de hoje. Ah, bom.

 

Jean-Marie Gustave Le Clézio, justifica a academia sueca, é um escritor “nômade e cosmopolita”. Ele sabe andar pelo mundo e fala do mundo todo. Fala de lugares pobres e do meio-ambiente. Então é isso: a ficção tem que tratar dessas coisas para dialogar e ser inventiva.

 

Porque os impasses nas relações humanas de que fala Joyce Carol Oates só ocorrem nos Estados Unidos. A velhice – tema profundo dos últimos romances de Philip Roth – é também um tema exclusivamente norte-americano. Não vale para mais ninguém.

 

Mas, entre nós, não troco uma página de Roth pela obra inteira de Le Clézio.

 

A bem da verdade, não troco quase nada pela ficção previsível, diluída e esperta de Le Clézio.

 

Pois é, a academia sueca fez mais uma das suas. Não foi a primeira vez.

 

No passado, premiou escritores como Gabriela Mistral e Pablo Neruda,Toni Morrison e Dario Fo. Em outros anos, revelou autores que ninguém lia e, quando leu, não entendeu porque tinham sido premiados. Em 2007, para perplexidade de quase o mundo inteiro, desencavou Doris Lessing.

 

Ignorou – para ficar num só exemplo, suficientemente eloqüente – Borges.

 

Agora celebra Le Clézio e ignora Roth. Ok.

 

Dizer o quê?

17 pensamentos sobre “Nobel 2008

  1. Querido amigo,
    Em Fantasma sai de cena, de Philip Roth , lê-se:

    “Antigamente as pessoas sérias usavam a literatura para pensar. Esse tempo passou. […] A literatura foi expulsa como influência sobre a percepção da vida. Hoje em dia, a maneira mais comum de utilizar a literatura […] é tão avessa aos objetivos da literatura criativa e às compensações que ela proporciona ao leitor de mente aberta, que seria melhor se a literatura não tivesse mais nenhuma utilidade pública.”

    Diante de tanta lucidez, acredito que fica explicado por que os acadêmicos suecos desprezam o autor.

    Beijo
    do Percy.

  2. eu e minha irmã começamos a ler os autores que ganharam Prêmio Nobel. já nos criticaram por isso, mas eu particularmente e acho que ela tb não lemos só os autores nobel. nós sim achamos que se eles foram premiados devemos ao menos conhecê-los. mas toda premiação está longe de ser unânime e ter lógica. pode acertar uma ou outra vez, mas cometer equívocos um apunhado delas. tanto que alguns já disseram que as premiações em alguns momentos foram políticas. então foi mais uma questão mundial que pautou do que a literatura. imperdoavelmente eu nunca li roth. vou tentar diminuir essa falta. uma questão que vc comentou no seu texto me assombrou. dizer que uma literatura de um país é na sua totalidade isso ou aquilo é assustadoramente preconceituoso. afinal, um país tem inúmeros autores e generalizá-los por país é abominável. beijos, pedrita

  3. Pedrita,
    eu achei abominável…
    Claro que já houve prêmios merecidos, merecidíssimos: Faulkner, Hemingway, Naipaul e vários outros.
    E esquecimentos estapafúrdios: Proust, Joyce e uma longa lista.
    Em meu comentário, destaquei duas coisas que considerei – para usar sua adequada palavra – abomináveis.
    A declaração prévia, preconceituosa e ignorante. E a escolha em si. Uma coisa combina com a outra, numa espécie de justificativa antecipada.
    Resta agora guardar a torcida por Roth, Vargas Llosa e alguns outros para o ano que vem…
    Beijos,
    Júlio

  4. olá júlio, ainda bem que podemos ter o paisagem da crítica….fazer o que se a grande imprensa( diga-se estadão e folha de são paulo) trata o ganhador do nobel de maneira distanciada e dissimulada, como se ele fosse mais um grande escritor a ganhar o prêmio. Concordo plenamente com suas críticas.Aliás faz um tempo que se privilegia a mensagem no lugar da invenção. Bem será que devemos, nos dias de hoje levar a academia sueca, tão a sério assim……..abraços nelson

  5. Olá Júlio,

    Cito novamente Erico Veríssmo, que em uma entrevista à Clarice Lispector, disse que “boa parte da crítica não gostava de seus romances por serem populares demais. Os romances que me deram fama foram Clarissa e Olhai os Lírios do Campo, que de fato eram medíocres em sua construção de trama e personagens. Porém, mesmo depois da publicação d’O Tempo e o Vento, muitos ainda continuam atacando, pois ficam presos a velhas opiniões.”

    É conhecido o estereotipo dos críticos de literatura, sempre presos aos seus círculos de idéias. Desconsideram tudo o que não lhes é diretamente agradável, dando aos que não concordam a impressão de que o meio literário é sempre fechado dentro de si. Ainda bem que você, por meio deste blog, vai contra esta situação, e nos presenteia com a qualidade de suas críticas, impressões e apontamentos, não só da literatura, mas da história e mesmo do cotidiano.

    As declarações de Horace Engdahl foram lamentáveis, de tão evidente, isto chega a ser um lugar comum, Mas é sintomática deste academicismo hermético, engessado, intolerante ao que lhe é estranho, e por isto mesmo, incapaz de qualquer renovação.
    Voltando à entrevista citada, Clarice pergunta a Erico se ele trocaria o seu público por uma crítica favorável. A resposta é definitiva: não.

    Um grande abraço,

    Dennis.

  6. Uau, nunca li um post seu que fosse tão revoltado. Saudades professor. Deixa eu contar um causo: entrei no mestrado esse ano por causa de Sebald, indicação sua de leitura. Beijos.

  7. Nelson,
    obrigado pelo comentário.
    Você tem razão. Como escreveu o Daniel Piza no Estado de hoje, ao comentar Indignation, o novo livro de Roth: “se os velhinhos da academia sueca preferem o chatonildo do Le Clézio, azar deles.” Verdade.
    Abraços,
    Júlio

  8. Dennis,
    obrigado pelo comentário.
    Mas há gente interessante por aí, fazendo crítica e evitando a mesmice acadêmica.
    Outro grande problema – notável na imprensa – é que muitos dos críticos repetem os releases das editoras ou as matérias das agências internacionais. O que saiu sobre o Nobel desse ano é exemplar. Duvido que a maioria de quem comentou a premiação tenha lido Le Clézio. Até pela impressionante semelhança entre os comentários daqui e dali.
    Em resumo: é preciso ler. E, para isso, leitores – como Veríssimo, o pai, tinha.
    Abraços,
    Júlio

  9. Elis,
    obrigado pelo comentário.
    Revoltado? Não sei.
    Talvez indignado, cansado.
    Normalmente falo mais nesse tom do que escrevo.
    Acho que, no caso, o comentário assumiu essa entonação por ter sido contaminado por outros textos de crítica, de uma outra área, que tenho escrito.
    Ou simplesmente porque fiquei chocado mesmo com o resultado, embora fosse previsível…
    Parabéns pelo início do mestrado. E boa sorte. Se precisar de conversas de um não-especialista em Sebald, mande sinais.
    Abraços,
    Júlio

  10. Prof.,
    Que delícia – no melhor sentido do termo – de comentário. Pude vê-lo em minha frente, usando aquela sua mais fina ironia, que de tão sofisticada poucos entendem mas muitos riem, afinal outros estão rindo. Justamente pelo tom ora chamado de revolta tornou-se tão seu e, por isso, tão bom.
    As mediocridades das agências premiadoras, da literatura ao oscar, e me desculpe se nivelei por baixo, precisam ser lidas por nós, mortais, com muito cuidado e muito mais nas mensagens contidas nas entrelinhas.
    Não há de se levar a sério no quesito literário, mas sempre considerando o político no seu aspecto duvidoso, infelizmente.
    É verdade que houve um tempo em que se fazia literatura para pensar, assim como é verdade que há quem ainda o faça, mas não se pode esquecer que a literatura se completa em que lê, não em quem premia. Desta forma, estamos vingados.
    Um grande abraço e parabéns pela luta árdua pelas boas letras.
    Cláudia

  11. A Academia nao pode agradar a todos. Uma coisa boa para mim na escolha de Le Clézio foi eu ficar a conhecer um autor de que nunca tinha ouvido falar. Agora vou comprar um dos seus livros e vou ler. Pode ser que nao goste, mas uma mudanca faz bem. Do Roth gosto, mas também nao é o meu autor preferido. O papa da Literatura Alema, Marcel Reich-Ranicki, quer que o Roth ganhe desde há anos.
    Eu, como portuguesa, gostava que ganhasse o Antunes, mas como o Saramago ganhou há dez anos, tao depressa nao ganha um portugues.
    Acredite, cada um de nós quer um outro autor. Diz que o Neruda nao merecia o Nobel, pois olhe que ele é apreciado por muita gente. Da Mistral nunca li nada. O Dario Fo foi para mim uma surpresa. Da Lessing gosto. Borges & Co. também nao é o meu mundo.
    Para terminar digo-lhe o nome do Nobel bem merecido: THOMAS MANN!
    Tive conhecimento do seu blogue através da Pedrita.

  12. Cláudia,
    obrigado por seu comentário.
    A despeito das limitações dos prêmios, acho-os importantes. Já fiz parte de várias comissões julgadoras de prêmios literários e continuarei a fazer, sempre que for interessante. A questão é, sempre, de critérios – daí minha crítica a essa escolha.
    Mas você tem razão: a leitura – e não só a alegria – é a prova dos nove.
    Abraços,
    Júlio

  13. Teresa,
    obrigado por seu comentário.
    Como comentei acima, acho os prêmios muito importantes, a despeito de suas limitações e da incapacidade de contentar a todos os leitores.
    Minha restrição à escolha de Le Clézio hoje, ou de Neruda e Mistral antes, não se referia à possibilidade de que outros leiam seus livros e gostem deles. Tomara que isso ocorra. É leitura a mais, e isso sempre é bom.
    Ocorre que o Nobel, para além do gosto, se dispõe a julgar a trajetória literária de um autor, a constância de sua obra e, claro, a capacidade de domínio técnico. Esta é a proposta do prêmio. Não enxerguei esse julgamento na presente escolha, nem nas infelizes declarações prévias do secretário da academia sueca. Em outras palavras, não falava de gosto, mas de qualidade literária.
    Creio que há autores que são dignificados pelo prêmio e outros que o dignificam. Le Clézio está na primeira categoria. Mann, que você cita, Faulkner, Hemingway, Camus (para ficar em poucos) estão na outra. Foi pelo nome e merecimento deles que o Nobel adquiriu a legitimidade – a mesma que deve ser sempre posta em questão.
    Mas há um lado muito importante e interessante em tudo isso: a discussão que provoca e, em conseqüência, a possibilidade de mais e mais leituras.
    Tomara que um dos autores lidos seja seu Lobo Antunes, que admiro. E, para falarmos de preferências, deixo a minha na literatura portuguesa das últimas décadas: José Cardoso Pires.
    Abraços,
    Júlio

  14. Oi Júlio,

    É verdade, existem muitos críticos competentes. Que fazem de seu ofício, um exercício de reflexão própria e que leva outros não apenas a se interessar por um ou outro livro, mas também dar uma nova profundidade a suas leituras. Mas estes casos infelizmente, são uma minoria dentro de um mundo de tanta superficilidade.
    Quanto ao fato de a imprenssa apenas emular as impressões de alguns orgãos internacionais ( também percebi a repetição de impressões ), penso que faz parte da grande preguiça que tomou conta não só do meio literário, mas do acadêmico. Questionamentos, reflexões, críticas, são sempre tachadas de arbitrairiedade e revanchismo.
    Por isto é necessário levantar a voz quando este tipo de situação abominável acontece. Calar-se, ou relativizar sobre as declarações da academia sueca e a premiação de Le Clézio é colaborar com esta epidemia de submissão ao senso comum.
    Porém, a verdade é que o leitor não se deixa enganar. A prova é a repercursão que este artigo teve junto aos leitores deste blog. Mais do que revolta ou mesmo ironia, o que li foi mais um sentimento de cansaço diante de toda esta situação, onde o episódio do Nobel é um dentre tantos sintomas.
    Só espero que não se canse de jogar luz a estes problemas todos e ,como eu disse acima, de dar uma nova profundidade à nossas leituras atráves do estimulo à reflexão.

    Desculpe pelo segundo comentário longuissimo,

    Dennis.

  15. Dennis,
    obrigado também por este.
    Não precisa se desculpar, ora.
    Seus comentários são sempre bons – além de gentis.
    De fato, me impressionou a quantidade de comentários. Bom sinal mesmo. Tomara que continue!
    Abraços,
    Júlio

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