Janela indiscreta e outras histórias, de Cornell Woolrich

Janela indiscreta e outras histórias conta casos de obsessão. Às vezes, de um detetive; outras vezes, de um assassino. Pessoas que rodeiam o crime para cometê-lo ou para puni-lo.

 

A mais famosa das cinco narrativas do livro de Cornell Woolrich, claro, é a do título, que virou filme de Alfred Hitchcock. E não deixa de ser surpreendente ver a versão escrita da história. O clima é denso; os passos da investigação, temerários – como no filme. Nada, porém, supera a preocupante obsessão do narrador, que no cinema foi interpretado por James Stewart.

 

O crime que ele acredita ter ocorrido de fato ocorreu. Sua decifração – inclusive a improvável localização do cadáver – é correta. Mas seu jeito de voyeur, por ele próprio questionado, e sua disposição de se intrometer e de fabular (várias vezes sugerida por seus interlocutores) prevalecem à investigação. É um homem atormentado.

 

Atormentados também são os personagens das outras histórias, sempre em busca de algo que desconhecem – ou de que têm um conhecimento precário. A mulher atrás do bilhete premiado de “Post-mortem” ou seu tortuoso segundo marido. O relojoeiro-assassino de “Três horas”. Sumiço Williams, “um doutor semi-profissional do álibi”, em “Homicídio trocado”. O ansioso Paine, de “Impulso”.

 

Todos estão à beira de um ataque de nervos, e isso os leva a cometer erros graves. Erros que podem alterar o curso do crime, para o bem ou para o mal. Alguém diria: é a intromissão do acaso, aquele inevitável acaso de que Nietzsche e Mallarmé falaram, o acaso que supera a intencionalidade. É, é ele mesmo.

 

Só que há outra intercorrência em cada um dos crimes: a da precariedade da lógica que tenta construir ou desmontar as armadilhas. Ela é insuficiente, imperfeita. E mais uma: a realidade, tantas vezes elidida ou mistificada nas histórias policiais, dá o ar da graça e constrange aqueles que preferiam anestesiá-la para que tudo se desenrolasse num laboratório isolado, policial ou delinqüente.

 

 Woolrich, à sua maneira, assume os princípios do policial americano. Não os ambienta no submundo sórdido que os personagens de Dashiell Hammett ou Raymond Chandler visitavam. Nem cria investigadores que andam no fio da navalha, tão semelhantes aos investigados. Mas expõe a prolixidade do real.

 

A sordidez, segundo Woolrich, está dentro das pessoas e é filtrada – para o bem ou para o mal – pela obsessão de cada um. Por isso, seus relatos assustam tanto. Mesmo que “Janela indiscreta”, o conto, seja inferior à “Janela indiscreta”, o filme. Mesmo que você não tenha muita simpatia pela narrativa criminosa americana. Mesmo que nem goste de policiais. Não tem jeito: os personagens de Woolrich incomodam.

 

Cornell Woolrich. Janela indiscreta e outras histórias. São Paulo: Companhia das Letras, 2008 (original: 1942; tradução: Rubens Figueiredo)

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