O conto da ilha desconhecida, de José Saramago

O conto da ilha desconhecida, já diz o nome, é um conto em forma de livro.

 

O leitor percebe, de saída, a mão de José Saramago, a mão das preocupações sociais repetidas, a das denúncias do isolamento do poder, a da conclamação à ação dos homens. A mão que foi incisiva em Levantado do chão e no Memorial do Convento. A mão ácida e desconsolada de O Evangelho segundo Jesus Cristo e do Ensaio sobre a cegueira.

 

Também é fácil notar o fluxo de sentenças separadas por vírgulas, a combinar diálogos, entrecortar intervenções do narrador e dos personagens. A voz e a dicção migrantes de Saramago, já há algum tempo a serviço de inquietações mais filosóficas do que literárias.

 

Certo é que não se encontra, nesse conto, o vigor dos romances. O autor do vertiginoso O ano da morte de Ricardo Reis tenta adequar sua estratégia narrativa à forma breve, mas, sedento de transmitir uma mensagem, acaba por deixar as linhas de construção muito aparentes.

 

O conto, como todo conto, combina duas histórias. A primeira, explícita, de um sujeito que pede um barco ao rei para buscar uma ilha desconhecida. A segunda, do precário conhecimento de si mesmo que todos os personagens revelam. A primeira segue linear: da pressão sobre o rei à obtenção do barco e ao contato com a mulher que pode acompanhá-lo na viagem. A segunda é instável e depende de tudo que dizem ao homem para dissuadi-lo da empreitada, para convencê-lo de que, nos dias atuais, não há mais ilhas desconhecidas.Teimoso, o homem persiste e, em cima de um barco e ao lado de uma mulher, dispõe-se a navegar pelo mar ainda mais tenebroso do que o dos antepassados.

 

É tão forte, porém, a presença da narrativa subterrânea (a segunda: aquela que só deveria vir à tona no fim, e olhe lá) que a aparente (isto é, a primeira) sucumbe, presa da irrealidade do desejo do homem. Fragilidade estrutural? Não: Saramago pretende exatamente isso, que o leitor não demore a entender sua metáfora da alienação do homem em seu sonho ensandecido de repetir o passado. E que, também de súbito, enxergue a clarividência do contato com o outro, uma mulher, como o fio que lhe permite reconhecer o objetivo verdadeiro de sua procura, aquilo que o faz afrontar o rei, seus pospostos e insistir numa busca que todos supõem equívoca.

 

Ao simplificar exageradamente a estrutura do conto e expor, novamente, seu furor militante e sua disposição denunciadora, Saramago o inscreve na lógica fabular e o associa, funcionalmente, a um discurso político. Dessa forma, O conto da ilha desconhecida se torna apenas uma metáfora. Bonita ou não, apenas uma metáfora; metáfora capaz de combinar tempos e histórias para expor um presente que é simultaneamente desagradável e passível de transformação. Desde que persistamos, ensina o português, em nossas sandices e saibamos identificar como elas espelham – melhor talvez do que o mar salgado – a nós mesmos e aos outros.

 

José Saramago. O conto da ilha desconhecida. São Paulo: Companhia das Letras, 2007 (original: 1998)

Anúncios

9 pensamentos sobre “O conto da ilha desconhecida, de José Saramago

  1. Ola Julio….saiu hj o Jabuti 2008…. A Leda Tenório da Motta ganhou o de crítica literária e o Rouanet ficou em terceiro…. bem q vc poderia postar alguma coisa sobre os outros ganhadores q ainda não foram resenhados e um link direto para os q ja o foram….claro que não é uma questão de glorificar os ganhadores e acatar sem críticas as decisões do júri, mas de qualquer forma o Jabuti é uma referencia dentro do meio literário e do mercado editorial…..enfim, fica a sugestão. Abraços e boas leituras….

  2. Grande métafora à busca do ser humano por si mesmo. O homem tem uma imensa necessidade de dar sentido à sua existência. Muitas são as nossas angústias . Mas como encontrar um sentido quando estamos cada vez mais isolados? Saramago aponta a solidariedade, a confiança no outro como possibilidade para a construção de um significado para nós mesmos e para a coletividade, espaço que parece ideal para nossas vivências. O discurso contraria completamente a ótica da modernidade. Para esta ser mais é ter mais, atitude que leva ao apagamento do outro. Quando pudermos estar lado a lado e não nos julgarmos acima do nosso semelhante , promoveremos ações que mudarão a nossa história para melhor.

  3. Inteligente, sutil, dá Saramago de forma cômica uma estocada nos poderosos mostrando a má vontade ao atender ao público, o empreguismo
    de funcionários acomodados o que me parece sói acontecer em qualquer
    país do mundo, em qualquer época e a coragem necessária aos pequenos
    para conseguir o que lhes é necessário.
    Brilhante a exposição dessa obra.
    Abraços.

  4. Eu acredito que deve ter alguma metáfora da história de Portugal dissolvida nas entrelinhas. Se você souber qual é responda no meu blogue. Estou quase louco a tentar descobrir qual é.

    • Homowilliam,
      tudo bem?
      Acho que podemos explorar diversas metáforas que há no livro – inclusive alguma referência mais ou menos explícita à história de Portugal.
      Abraços,
      Júlio

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s