nota: Pablo Neruda

Pablo Neruda

 

O chileno Pablo Neruda (1904-1973) foi um dos autores de mais destaque na literatura hispano-americana do século XX. Escreveu uma obra imensa e chegou, inclusive, a receber o Prêmio Nobel de 1971.

 

Neruda começou a publicar nos turbulentos anos de vanguarda. Seus dois primeiros livros – Crepusculário (1923) e Vinte poemas de amor e uma canção desesperada (1924) – mostraram, no entanto, força lírica, repertório temático e procedimentos poéticos mais próximos da tradição do modernismo hispano-americano do que das propostas de renovação estética da época. A aproximação com a vanguarda só se consumou dez anos depois, quando reuniu, em Residência na terra (editado originalmente em 1933 e reeditado, com acréscimos, em 1935), poemas escritos a partir de 1925. Residência na terra – para alguns, sua melhor obra – tem entonação surrealista e, além do evidente vínculo com a vanguarda, revela forte influência oriental, a que Neruda teve acesso durante suas andanças como representante diplomático chileno no extremo oriente.

 

A face mais conhecida de sua obra, porém, é o engajamento político de seus versos. Já em 1935, ao assumir a direção da revista de poesia Caballo Verde para la poesía, publicada em Madri, alertou para a necessidade de se buscar “uma poesia sem pureza”. Contra os defensores de uma poesia que privilegiasse o sentido estético, Neruda advogava a poesia que se envolvesse com o mundo real do trabalho, uma poesia “gasta, como por um ácido, pelos deveres da mão, penetrada pelo suor e pelo fumo, cheirando a urina e açucena, salpicada pelas diversas profissões que se exercem dentro e fora da lei.”

 

Nunca mais Neruda abandonou a preocupação política: apoiou os republicanos na Guerra Civil Espanhola, foi senador e candidato à presidência do Chile pelo Partido Comunista, participou ativamente da campanha presidencial de Salvador Allende (1970). O engajamento político que guiou sua obra a partir da década de 30 combinava-se com o lirismo que, passado o experimentalismo estético de Residência na terra, voltou a predominar em sua obra. Do cruzamento dessas duas matrizes – aparentemente divergentes, mas sintetizadas com sucesso por Neruda – resultaram seus livros mais conhecidos: Canto geral (1950), espécie de épico latino-americano que perscruta o passado continental e defende a busca de sua autonomia política e econômica, e Cem sonetos de amor (1959).

 

Dois escritos autobiográficos também ajudaram a acentuar o esforço de Neruda de misturar, para a crítica e para seus leitores, vida e obra: os cinco volumes de Memorial de la Isla Negra (1964) e Confesso que vivi (1974).

 

Neruda veio ao Brasil diversas vezes, mas sua visita mais famosa e importante aconteceu em 1945. Em 15 de julho daquele ano, participou, no Estádio do Pacaembu, em São Paulo, do célebre comício em homenagem ao dirigente comunista Luis Carlos Prestes. Leu, ao lado de Jorge Amado e em espanhol, um poema sobre Prestes.

 

Em Confesso que vivi, ele conta que foi bastante aplaudido. Relata, em seguida, um episódio curioso. Depois do comício, conheceu Prestes na casa de amigos e os dois combinaram um almoço na semana seguinte. Desacostumado aos nomes dos dias da semana em português, Neruda se confundiu e compareceu ao encontro na quarta-feira, com um dia de atraso. Passara a terça “na praia com uma bela amiga brasileira, lembrando a mim mesmo, o tempo todo, que no dia seguinte tinha almoço marcado com Prestes”. Perdeu a oportunidade de um almoço a dois (regado, sempre segundo Neruda, com vinhos raros no Brasil) e desde então, confessou, “Cada vez que me lembro dessa história, quero morrer de vergonha”.

 

[Esse texto foi originalmente publicado no número especial Cadernos Entrelivros – Panorama da Literatura Latino-Americana, número 7, junho de 2008]

3 pensamentos sobre “nota: Pablo Neruda

  1. Li o livro “Veinte poemas de amor y una cancion desesperada” de Pablo Neruda e posso dizer sem duvidas que é uns dos livros mais gostosos de ler que já encontrei, o poeta usa expressões maravilhosas para falar do amor e da dor que o fim de um romance provoca. É um livro melancólico e ao mesmo tempo apaixonante que recomendo a todos.

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