nota: Cesar Vallejo

Cesar Vallejo

 

Poucos viveram tão intensamente as vanguardas na América quanto o peruano Cesar Vallejo (1892-1938). Já em seu primeiro livro, Los heraldos negros, escrito em 1918, Vallejo achou precocemente um lugar na trincheira que os vanguardistas cavavam em sua guerra contra a tradição lírica e formal do modernismo hispano-americano do fim do XIX.

 

Mas foi quatro anos depois, com Trilce – no famoso 1922 – que Vallejo definiu os caminhos de sua busca do novo. Combinou, sob o hermetismo de seus versos livres, traços de vários movimentos hispano-americanos e europeus: criacionismo, ultraísmo, futurismo, cubismo. Inventava algo que Jorge Schwartz considerou de “difícil inserção em alguma tradição literária”. A utopia do novo se manifestava de forma radical em Vallejo. Não havia desprezo completo pela tradição, mas uma maneira peculiar de articular as inúmeras referências que buscava e que conformavam um projeto estético cuja radicalidade tinha um equivalente político nos anos 20 peruanos: a forte ideologização promovida por José Carlos Mariátegui e sua revista Amauta.

 

Interessante é que Vallejo nunca perdeu o prumo dos limites da presença tecnológica no mundo e na poesia. Em parte, a aproximação com o pensamento político de base marxista – que conheceu em Paris, onde morou a partir de 1923, e em viagens à União Soviética e à Espanha – apressou seu distanciamento do culto ao novo professado insistentemente pelas vanguardas. No ensaio “Estética e maquinismo”, constatou com agudeza e ironia: “A máquina não é um mito estético, como não é um mito moral nem econômico.” Em seguida, arrematou: “Os poetas andam hoje tão equivocados que fazem da máquina uma deusa, como aqueles que antes faziam da lua, do sol, ou do oceano, deuses.”

 

Ao comparar criticamente os poetas da vanguarda com os da tradição finissecular, Vallejo rejeitava quase globalmente as vanguardas, inclusive seus próprios textos anteriores. Nem por isso abandonou a disposição de encontrar uma expressão autônoma dos latino-americanos. Reagia, na verdade, à insistência da repetição de termos que tentavam defender a especificidade latino-americana, e que não vinham acompanhados, para ele, de uma efetiva autonomia em relação à estética e ao pensamento europeus. Defensor insistente da criatividade e da capacidade renovadora, Vallejo foi um dos iniciadores da vanguarda latino-americana e, ao perceber seu rápido esgotamento, um de seus primeiros críticos.

 

 

(Esse texto foi originalmente publicado no número especial Cadernos Entrelivros – Panorama da Literatura Latino-Americana, número 7, junho de 2008)

5 pensamentos sobre “nota: Cesar Vallejo

  1. Cesar Vallejo é muito conhecido na América “Andina”. Cá entre nós brasileiros infelismente não. Aliás, conhecemos muito pouco mesmo os poetas sendo: Goianos, mineiros, gaúchos, nordestinos…..

    Viva la libertad!!!!!

  2. Vallejo é um dos poetas mais singulares que conheço. Uma perda precoce para poesia latino-americana e, por que não, universal. Para Neruda, a grande culpada por sua morte foi a estadia prolongada na frança. Mas é difícil julgar, Vallejo morreu em virtude de uma doença que os médicos não conseguiram diagnosticar.
    Em sua última obra “Espanha afasta de mim esse cálice” nota-se a consolidação de um novo rumo na poesia do poeta peruano, deixando para trás o poeta insular de Trilce, para tornar-se o poeta inteiramente engajado com luta pela liberdade e solidariedade entre os homens.

    • Rafael,
      tudo bem?
      Obrigado por seu comentário.
      Não sei, não; acho que morar na França não mata ninguém.
      Brincadeiras a parte, Vallejo foi um poeta extraordinário.
      Abraços,
      Júlio

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