Seis problemas para Don Isidro Parodi e Duas fantasias memoráveis, de Jorge Luis Borges e Adolfo Bioy Casares

Seis problemas para Don Isidro Parodi e Duas fantasias memoráveis são duas das poucas obras do argentino Honorio Bustos Domecq, um dos maiores escritores latino-americanos do século XX. Se você, leitor, nunca ouviu falar dele é porque Bustos Domecq foi pouco publicado no Brasil: apenas os Seis problemas já haviam sido (mal) traduzidos por aqui, em edições hoje esgotadas.

 

Ou talvez seja porque Bustos Domecq nunca existiu. Foi um pseudônimo utilizado pelos dois principais escritores argentinos, Jorge Luis Borges e Adolfo Bioy Casares, para escrever histórias que circularam principalmente entre amigos e outros escritores. Borges & Bioy eram amigos próximos e a parceria literária começou meio por acaso. Os dois se conheceram no início da década de 1930 e, a despeito da diferença de idade (Borges tinha 30, Bioy, 17), se deram muito bem. Uns quatro anos depois, um tio de Bioy, Miguel Casares, encomendou ao sobrinho um folheto publicitário para o iogurte que a leiteria dos Casares, La Martona, produzia. O trabalho era bem pago (16 pesos por página). Bioy disse a Borges que não tinha competência para escrever sozinho e o convidou para que escrevessem juntos. Segundo Borges, foi uma generosidade de Bioy, que precisava menos do dinheiro do que ele.

 

Os dois foram para uma casa de campo e, em meio a um frio terrível, se refugiaram na cozinha próximos ao forno e se encharcaram de chocolate quente, “tão espesso que a colher pousava em sua superfície”. Como o pagamento era por página, trataram de escrever bastante: fizeram quase vinte páginas de um folheto com aparência científica, em que exaltavam as qualidades do iogurte, especialmente sua capacidade de prolongar a vida de quem o tomava. Para sustentar a tese, relataram que sua receita vinha da Europa Oriental e fora criada por um casal para alimentar seus muitos filhos. Estes, por terem tomado a bebida por toda a vida, se tornaram centenários. Todos menos uma filha, corrigiam, que morrera depois dos 90…

 

Iniciavam uma colaboração que duraria mais de quatro décadas. Logo depois do folheto do iogurte, ensaiaram escrever um poema. O resultado, segundo ambos, foi péssimo. Mas a iniciativa seguinte, a criação da revista Destiempo, teve um breve sucesso (três números). Daí em diante, as aventuras literárias em conjunto se diversificaram: antologias de poesia argentina, de contos fantásticos e de histórias policiais, prefácios, traduções e comentários a outros autores, roteiros de cinema (alguns, inclusive, chegaram às telas).

 

Em 1942, apareceu o resultado mais conhecido da parceria: a coletânea de contos policiais Seis problemas para Don Isidro Parodi. O pseudônimo Honorio Bustos Domecq reunia um bisavô de Borges (Bustos) e um de Bioy (Domecq) – dupla identidade que só foi revelada muito tempo depois. Bustos Domecq ainda assinou outros três livros – inclusive Duas fantasias memoráveis, de 1946 e agora finalmente publicado no Brasil. As histórias relatavam as atividades de Don Isidro Parodi, talvez o único detetive que soluciona os casos de dentro da cela em que está preso.

 

Para contar as histórias de Parodi, Borges e Bioy utilizaram também o pseudônimo B. Suárez Lynch – novamente uma mistura de antepassados (Suárez, de Borges; Lynch, de Bioy) precedida pelo “B” inicial do sobrenome de ambos – e com ele assinaram, ainda em 46, Um modelo para a morte. Independentemente do nome com que assinavam as edições, o que caracterizou a colaboração entre eles, porém, foi a profunda afinidade: de leituras, de preocupações intelectuais e literárias e, num certo sentido, de humor. Afinal, ambos relataram que os encontros para escrever eram marcados por muitas gargalhadas.

 

Curioso é que a crítica demorou muito para reconhecer o caráter decisivo que os textos da parceria tiveram nas obras futuras de ambos – apesar de Bioy e Borges terem alertado, mais de uma vez, que ali não havia apenas brincadeira: eles transferiram marcas da experiência de colaboração para suas obras pessoais. A pouca importância dada até recentemente para a parceria é a provável responsável pela demora na maior divulgação desses livros. E, no caso brasileiro, pela hiper tardia edição do conjunto completo dos textos escritos a dois. Num país que conta com mais de uma tradução dos principais livros de Borges e duas edições de suas obras completas, finalmente sua obra em colaboração começou a ser traduzida e publicada. Não serão apenas os textos escritos com Bioy, mas são estes que abrem a coleção (nos próximos meses sairão mais dois livros Borges-Bioy), coordenada por Jorge Schwartz e com ótima tradução de Maria Paula Gurgel Ribeiro. O volume conta, ainda, com um excelente prefácio de Michel Lafon, que analisa o trabalho da parceria e introduz o leitor no mundo de Bustos Domecq.

Assim, os leitores brasileiros podem finalmente descobrir que Honorio Bustos Domecq pode até não ter existido, mas foi um tremendo escritor.

 

 

Jorge Luis Borges & Adolfo Bioy Casares. Seis problemas para Don Isidro Parodi. Duas fantasias memoráveis. São Paulo: Globo, 2008 (originais: 1943 e 1946; tradução: Maria Paula Gurgel Ribeiro)

 

Parte desse texto foi publicada na revista Entrelivros número 14, de junho de 2006, sob o título “Com Bioy, amizade literária”.

 

Paisagens da Crítica nunca trouxe comentários sobre livros de Borges, mas publicou sobre outros três livros de Adolfo Bioy Casares: A invenção de Morel (3 de dezembro de 2005); Histórias fantásticas (10 de dezembro de 2006); Borges (9 de abril de 2007). Estes comentários estão no endereço antigo: http://paisagensdacritica.zip.net

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