Nesta cidade e abaixo de teus olhos, de Annita Costa Malufe

Nesta cidade e abaixo de teus olhos conversa com quem? Annita Costa Malufe prossegue seu diálogo poético de Fundos para dias de chuva e continua a intrigar o leitor, que fica à espera da revelação: a quem os versos se dirigem? Qual é o mundo – povoado – em que circulam?

 

À primeira vista, a resposta parece fácil: Annita conversa com outra poeta, Ana Cristina Cesar. Afinal, a influência de Ana C. é forte, clara, assumida, e transborda o trabalho poético de Annita: Ana C. foi também objeto de suas pesquisas acadêmicas. Outra explicação fácil é encerrar o diálogo no próprio livro e reconhecer sua entabulação com a ilustração cuidadosa, de Silvio Ferraz, que acompanha os poemas na pequena e bem cuidada edição. Mas há mais personagens nesta cidade literária. Personagens, não vozes. Porque a voz é sempre una, embora possa ocasionalmente se travestir. É um narrador – na verdade, uma narradora, porque o traço feminino é forte – que expõe sua intimidade e contempla, perscruta, indaga o que a cerca.

 

É inevitável, nesse itinerário pessoal, que a entonação seja lírica. Mas não é o lirismo funcionário público, com cartão de ponto e paletó-na-cadeira: é aquele que vem combinado com a porosidade da poesia; por isso, aceita invasões, recebe visitas insistentes de outras obras e outros autores. Exerce a crítica como paisagem: o ambiente – disse Lezama Lima – em que o espaço e o tempo se reúnem, onde podemos reagir à barbárie dos desafetos para refundar a experiência e o olhar pessoais. Daí ser tão complicado identificar o interlocutor dessa poesia: ele está tão entranhado no olhar, que conduz e é conduzido, que se torna impossível discernir “influências”, “reescrituras” ou mesmo “desdobramentos” – termo que agradaria mais à poética de Annita do que os anteriores.

 

Poesia, vale lembrar, não deixa de ser representação e, assim, indica certa ausência e oferece uma presença, alterada, desviada. E, no jogo de representar, a capacidade que em geral sobressai é a de assimilação: o quanto somos capazes de absorver e traduzir em signos próprios a experiência histórica e literária que nos rodeia e de que nos sentimos herdeiros – mesmo que nenhum testamento assegure a linha de projeção. E a intensidade da poesia de Annita vem exatamente da delicadeza como assimila, sem cair no entorpecimento das citações desmedidas, registros poéticos de inúmeras origens: do prosaísmo de um Paulo Henriques Britto às teorias de Blanchot ou Derrida, da fantasia cortazariana aos labirintos de Beckett. O interlocutor não-mencionado ressurge, então, duplicado no tom confessional de Annita, e a ausência – essa ausência assimilada, já falou Drummond sobre Ana C. – ninguém rouba mais de sua poesia.

 

Por isso, Annita C. não é apenas uma pequena Ana C.: o vigor de sua conversação, as dedicatórias que ora individualizam, ora pluralizam o leitor e o fio da lâmina que separa o urbano, público, do território convergente da intimidade permitem que os olhos do título não sejam só os do próximo, teu, mas o da voz mesma que fala e, porosa, assume como seu o que é comum e incomum.

 

Annita Costa Malufe. Nesta cidade e abaixo de teus olhos. Rio de Janeiro: 7 Letras, 2008

 

Paisagens da Crítica comentou outros dois livros de Annita Costa Malufe: Fundos para dias de chuva (17 de junho de 2006) e Territórios dispersos: a poética de Ana Cristina Cesar (1º de julho de 2007). Os dois textos estão no endereço antigo: http://paisagensdacritica.zip.net

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