Em busca de Klingsor, de Jorge Volpi, por Renato Prelorentzou

Em busca de Klingsor, de Jorge Volpi

 

por Renato Prelorentzou

 

No dia 10 de novembro de 1919, o New York Times estampava em primeira página o triunfo da Teoria da Relatividade de Einstein. Nessa mesma data, nascia Francis Bacon, não o célebre filósofo inglês que no século XVII revolucionou o pensamento científico ao lançar as bases do raciocínio dedutivo, mas um físico americano graduado em Princeton que, incorporado ao exército aliado, foi a Nuremberg analisar os depoimentos relacionados à pesquisa científica no III Reich. Em um mesmo 10 de novembro, 70 anos depois, Gustav Links, matemático da Universidade de Leipzig, colocou ponto final em seu relato, sua versão de como o acaso governou o século XX, o seu século. Ao fazer coincidir esses eventos, Jorge Volpi sinaliza os três eixos de Em Busca de Klingsor, o único de seus livros já publicado no Brasil: a nova ciência do século XX, a Segunda Guerra e a forma como a subjetividade e a incerteza transformaram o testemunho e a narração do passado.

 

Nascido na Cidade do México em 1968, graduado em Direito e Letras no México e na Espanha, Volpi escreveu nos últimos 15 anos dezenas de romances, contos e ensaios que lhe valeram diversos prêmios internacionais e publicações em dezenove idiomas. Em 1996, assinou com outros 5 jovens escritores mexicanos o Manifiesto Crack, que rompia com os fantasmagóricos localismos da banal literatura pós-mágica e procurava uma linha sucessória que ligasse seus signatários diretamente aos mestres do Boom e da literatura universal.

 

Volpi não se refere, portanto, ao México ou à América Latina. Ao contrário, a trama que conta pela voz de seu narrador passa-se na Europa do entreguerras e nas universidades norte-americanas; fala do mundo ordenado e promissor e do Armistício de 1918; da República de Weimar e do sentimento de revolta da juventude conservadora e patriótica; da busca pelas antigas tradições e da ascensão de Hitler. Descreve a Operação Valquíria, a Missão Alsos, o Projeto Manhattan. Explica também a Relatividade de Einstein, o Teorema de Gödel, a Teoria dos Jogos de Von Neumann, o Princípio da Incerteza de Heisenberg, as fórmulas de Planck, a Quântica de Bohr e toda a revolução científica que reverteu aquilo que até então era livre de conflitos na física clássica: o cientista já não era inocente, sua observação bastava para mudar a ordem do universo.

 

Entre o “Prefácio” e a surpreendente “Nota Final”, o livro de Volpi apresenta estrutura rígida e simétrica; cada um dos três “Livros” que o compõem inicia-se com três “Leis” que descrevem o Movimento Narrativo, o Movimento do Crime e da Traição, e termina com os atos da ópera de Wagner, onde Parsifal enfrenta Klingsor, o rei que simboliza o mal absoluto. Como um livro de história, Em Busca de Klingsor acumula datas, personagens e fatos reais, conta um sem-número de histórias que se articulam para dar coesão a seu enredo. Seu rigoroso realismo – amparado pela historiografia, pela bibliografia, pelos compêndios da física e da matemática –, no entanto, não quer transmitir certezas ou verdades: quer interpretar o século XX e entender as relações entre a ciência e a política, entre a falibilidade dos sistemas de conhecimento e a afirmação enganosa dos discursos totalitários.

 

Coerente com todo o enredo, o final do livro não oferece facilmente uma verdade exata, definitiva. O sentido do texto depende da interpretação aguda do leitor, de sua atenção aos indícios, da maneira como decifra o testemunho de Links sobre a busca de Bacon por Klingsor – não o demoníaco duplo do rei Amorfas no imaginário germânico, mas o suposto mandante de todas as pesquisas científicas do Nazismo. Assim, a experiência de Bacon – que se faz passar por historiador da ciência alemã e que compara sua investigação policial às suas pesquisas científicas – é compartilhada pelo leitor, e ambos são constrangidos a encarar verdades e identidades sempre fugidias, pois Jorge Volpi sabe que não há sentido fixo, que novas leituras trarão novos significados. Na fronteira entre ficção e história, Em Busca de Klingsor é uma aula de ciência, de história e de como a ficção pode reinventar-se a cada momento para pensar o passado.

 

Jorge Volpi. Em busca de Klingsor. São Paulo: Companhia das Letras, 2001 (original: 1999; tradução: Sergio Molina)

 

Renato Prelorentzou é mestre em história social pela USP e pesquisa a obra do escritor mexicano Ignacio Padilla. Já publicou, em Paisagens da Crítica, comentário sobre Palomar, de Italo Calvino (27 de maio de 2007, no endereço antigo: http://paisagensdacritica.zip.net) e, já neste endereço, sobre Fragmentos de Alberto, Ulisses, Carolina e eu, de Julián Fuks (18 de abril de 2008).

 

 

4 pensamentos sobre “Em busca de Klingsor, de Jorge Volpi, por Renato Prelorentzou

  1. nossa, que texto excelente. só parei de ler quando ele começou a falar detalhes da obra porque me interessei muito e quero ler. queria escrever com 10% dessa desenvoltura de vcs. anotada a obra. beijos, pedrita

  2. Esse livro é simplesmente fantástico. Realismo, ficção e romance se encontram de uma forma inimaginável.
    O texto também ficou mto bem escrito, à altura do livro que comenta.
    Abraços
    Glauco

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