Ventos de quaresma, de Leonardo Padura Fuentes

Ventos de quaresma é livro difícil de resenhar. Não é ruim, não é mal feito. Ao contrário: cumpre plenamente o que promete e entretém o leitor, que se interessa pelos personagens, pelas descrições de ruas e paisagens habaneras, pela trama em torno do assassinato violento de uma jovem professora de química. Também os diálogos entre o investigador Mario Conde e seu amigo Magro Carlos são divertidos, assim como as comidas tipicamente cubanas de Josefina, mãe do Magro, que os leva ao delírio quando acompanhadas de umas garrafas de rum. Ventos de quaresma traz, ainda, um bom coquetel de crimes, além do assassinato: tráfico de drogas e de influência, contrabando, sugestão de pedofilia.Tem até uma ruiva atraente, Karina, por quem o Conde se apaixona e com quem ele se deita em cenas picantes – reais ou imaginárias. Ou seja, não dá para reclamar de um livro assim.

No entanto, Ventos de quaresma não é tudo isso; é só isso: a seqüência bem feita de um padrão batido de livro policial. Seu enredo daria um bom conto. Mas Leonardo Padura Fuentes optou pelo romance, recheou a história de adjetivos e de advérbios e o livro passou das duzentas páginas. Em alguns momentos, ensaiou um vôo mais longo e quase variou a voz narrativa. Quase, porque, na verdade, apenas expandiu a fala de algum personagem, mantendo o narrador onisciente em terceira pessoa. As lembranças do passado de Conde também aparentam, vez ou outra, indicar que há uma reflexão por trás do relato do crime e de sua decifração, e o leitor fica na expectativa de um adensamento da narrativa, mas ele não acontece. Talvez faça parte da vontade do leitor, ainda, a crença de que as duas histórias (a da paixão pessoal de Conde por Karina e a da investigação) se cruzem em algum momento – e de novo ficamos a ver navios, porque o desfecho de ambas é desconectado e, sobretudo, decepcionante.

Alguém poderia dizer que o policial de Padura Fuentes tenta fazer a crônica da Havana deteriorada após tantos anos de descaso da ditadura castrista. Só que a crônica – se existe – se resume à constatação da miséria e dos fracassos individuais. Nada além. Crítico, mas nem tanto. No esforço de valorizar o romance poderíamos, finalmente, lembrar que completa a série “As quatro estações”, composta por Passado perfeito, Máscaras e Paisagem de outono, e é superior aos outros três – verdade que serve menos para o elogio a Ventos de quaresma do que para a crítica aos demais.

Mas, claro, nada disso tira o mérito de Ventos de quaresma – mérito que esse comentário ligeiramente esquizofrênico parece não reconhecer. O que certamente desconforta o leitor – sujeito idiossincrático – é precisamente a insipidez do volume. Tudo o que ele poderia ser e não é. As comparações com outros autores e obras atuais, que movem o policial de forma a tirá-lo do mundo pequeno do entretenimento baldio. A lembrança de que Cuba já teve ficcionistas fabulosos, como Lezama, Piñera e Cabrera Infante, e hoje tem que se contentar com Padura Fuentes. Ou, pior, com Pedro Juan Gutiérrez, outro mestre da repetição e cultor da fartura adjetivesca e da crítica legitimadora.

Por isso é difícil de resenhar. Como falar que é bom como um big mac e ruim como um big mac? Seria até um trocadilho infame compará-lo com o sanduíche globalizado, igual em toda parte, resultado de uma receita una e repetida. Logo um cubano, tão diferente e peculiar. Ou será que os cubanos diferentes e peculiares caíram no ostracismo e só restaram os modelos-para-exportação?

Leonardo Padura Fuentes. Ventos de quaresma. São Paulo: Companhia das Letras, 2008 (original: 2001; tradução: Rosa Freire D’Aguiar)

3 pensamentos sobre “Ventos de quaresma, de Leonardo Padura Fuentes

  1. Olá,
    Vimos que alguém de vocês deixou um comentário no blog do Miguel Sanches Neto. Amanhã gravaremos um programa com ele aqui na TV Educativa, e precisamos de pessoas que conheçam as obras para comentar, participar com perguntas no programa.
    O programa se chama Aqui Entre Nós, e será gravado nesta quarta-feira, dia 11, no Canal da Música. Gostaríamos de saber se quem conhece as obras de Miguel Sanches Neto poderia participar.
    Por favor, se puderem dar o retorno nossos telefones são 3331-7530 ou 7458. Podem falar com a Fabiana ou com o Abonico.
    Obrigada,
    Débora

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