podcast: família real portuguesa no Brasil

No link abaixo, comentário em podcast na Rádio Metrópole de Salvador sobre a presença da família real portuguesa no Brasil, no início do século XIX.

O comentário foi ao ar no dia 5 de maio.

http://www.radiometropole.com.br/objetos/audios/05-05-08_comentario_julio_pimentel_historia1.mp3

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O balneário, de Manuel Vázquez Montalbán

O balneário é um livro datado – bem datado – e sua publicação, hoje no Brasil , soa anacrônica.

Lançado originalmente em 1986, O balneário não resistiu ao tempo. Lê-lo agora é decifrar um conjunto de aflições que parecem risíveis e exóticas. Sua trama mirabolante encara os resíduos da Guerra Fria e da Espanha franquista, ambas agonizantes, mas persistentes. Franco já morrera há anos e a glasnost de Gorbachóv era definitiva; no entanto, os mortos não haviam sepultado seus mortos e o espectro do passado recente ainda rondava as preocupações políticas de Manuel Vázquez Montalbán, o autor.

Por isso, ele escreveu um romance que não é propriamente policial, nem propriamente político, nem propriamente histórico. A bem da verdade, não é propriamente um romance, perdido em divagações gerais, personagens caricaturais e incompletos, em uma trama esvaziada e – alerta um dos personagens – de inacreditável inverossimilhança.

Pepe Carvalho, o detetive habitual de Vázquez Montalbán, exemplifica bem o deslocamento de tudo: gourmet e glutão, está encerrado num spa. Junto com ele, gente de muitas nacionalidades (internas & externas à Espanha) compõe um suficiente painel europeu. Quem o coordena, são os suíços, neutros proprietários e administradores do empreendimento. Tudo é dado de saída: nem o leitor desatento deixa de perceber o jogo metafórico que se pretende montar.

O humor do início do livro pode até lembrar outros livros de Vázquez Montalbán e a crueza cínica de Pepe Carvalho, mas dura pouco. Rapidamente começa uma série de rocambolescos assassinatos, que não param mais e são acompanhados pelas atitudes ridículas de todos. Na Europa dos anos 1980, afinal, ninguém sabia o que estava acontecendo ou ocorreria, e todos recorriam a explicações adequadas ao mundo de antes, mas não ao de agora. Isso o leitor também percebe facilmente.

A estrutura da narrativa é também logo decifrada pelo leitor: típico caso do policial em local fechado, sem que haja interferência externa ou possibilidade de fuga dos envolvidos, que persistem confinados, passando fome no spa, até que se dê o caso por liqüidado. Todos os clichês que algum dia alguém imaginou para uma história de investigação dão o ar da graça: passagem secreta, vultos que se esgueiram nas sombras, identidades trocadas, policiais obtusos, mulher fatal, disputas familiares, interesses financeiros. Nada escapa, nem se esconde dos olhos do leitor. Ele é forçado a enxergar absolutamente tudo.

Já a explicação final – cena habitual – é tão esdrúxula e incompleta, que o leitor percebe (se ainda não havia notado) que Vázquez Montalbán de fato não estava nem longinqüamente preocupado com a história que escrevia: queria transmitir sua mensagem política, e pronto. Nisso O balneário se parece com o quase infinito e infinitamente chato Milênio – livro de despedida de Pepe Carvalho – e se diferencia de suas saborosas aventuras – Os mares do sul, O quinteto de Buenos Aires, A rosa de Alexandria e tantas outras.

A única coisa que o leitor não consegue entender é porque o livro foi editado agora, vinte e um anos depois, no Brasil – o que talvez só se explique pelo prestígio do autor e pela capacidade do mercado de absorver histórias policiais de autores conhecidos e reconhecidos. É difícil imaginar outra razão. Ou talvez não haja razão alguma – o que não é de todo mau: afinal, algum mistério um romance policial tem que trazer. Que seja o do motivo, talvez indecifrável, de sua publicação.

Manuel Vázquez Montalbán. O balneário. São Paulo: Companhia das Letras, 2007 (original: 1986; tradução: Ari Roitman e Paulina Wacht).

Paisagens da Crítica já publicou comentários sobre outros livros de Manuel Vázquez Montalbán: Quarteto (10.2.2006), A rosa de Alexandria (8.5.2006) e Milênio (21.2.2007). Todos no endereço antigo: http://paisagensdacritica.zip.net

Dea Fenelon e a beleza da história, por Marcos Silva

Dea Fenelon e a beleza da história

por Marcos Silva

Falarei de Dea Fenelon a partir de um poema de Charles Baudelaire:

A beleza

Eu sou bela, ó mortais! um sonho mineral,

É meu seio, onde cada magoou-se por vez

Feito para inspirar ao poeta cortês

Amor eterno e mudo, trama material.

Governo do azul qual um mistério de esfinge;

Junto o branco de cisnes a coração de neve;

Odeio o que desloca a linha – mesmo breve –,

Nunca choro nem rio do que me atinge.

Os poetas, diante de minha atitude,

Que costumo emprestar de nobres monumentos,

Consumarão a vida a buscar que me estude;

Tenho, p’ra fascinar amantes de momentos,

Uns espelhos que dão mais beleza a tudo:

Meu olhar, meu grande olhar, clarões sempre veludo.

A beleza, nesse poema de Baudelaire, assume dimensões de durabilidade e dureza (pedra), mescladas a faceta orgânica e sexuada (seio, pode ficar prenhe e amamentar), além de sentimental (magoar-se): indissociavelmente finita e infinita. Ela é eterna, simples mortais são os outros, os destinatários dos versos. Charles Baudelaire evoca duração mineral e sensibilidade humana, eternidade ideal e limitação temporal própria à matéria, mesmo à pedra e ao metal: estátuas se desgastam. A beleza se desloca entre o que é vivo e o que persiste, dirigindo-se aos mortais como se estivesse além da vida, mas integrando esta, acenando com a eternidade para retornar à finitude – trama material, mágoa, mudez no reino da palavra que é poesia. O acesso à eternidade se dá através desses “amantes de momentos” que são os poetas.

A beleza figura, portanto, como perspectiva de o ser humano sobreviver depois da morte, espírito palpável no mundo da matéria – história, que diferencia homens e mulheres de uma pedra, ou uma folha caída de árvore (Hannah Arendt, Entre o passado e o futuro). A vontade de equilíbrio (“Odeio o que desloca a linha”) se articula à permanente prática da sedução (“para inspirar ao poeta cortês”, “p’rá fascinar amantes de momentos”). Embora se compare a mistério de esfinge, essa beleza retorna ao mundo material, abandonando o espaço do mito, para caracterizar seu ser – o branco de cisnes, o gélido de neves (que se derretem ao sol), o equilíbrio, o ir além das emoções imediatas. Mas esse é o preço para atingir emoções ainda maiores, complexas, que exigirão uma vida dos poetas para serem entendidas, e outras vidas de outros poetas.

Sua existência se sintetiza na capacidade de fazer os amantes – os poetas – se verem ainda mais belos nos olhos dela mesma, espelhos iluminadores, que iluminam muito além dos semblantes de quem os mira, iluminam o mundo. A poesia, consequentemente, faz os homens se verem mais e melhores. Se os simples mortais se vêem no espelho da beleza, isso pode nos fazer concluir que a eternidade dela está um pouco também no caráter provisório deles.

A primeira vista, pode parecer que a voz de uma historiadora, como Dea Fenelon, é alheia a esse mundo da poesia, até porque o inaugural Aristóteles cuidou de separar meticulosamente os historiadores, servos do que aconteceu, dos poetas, videntes do possível (Aristóteles, Poética). Mas alguns poetas e historiadores, muito tempo depois, ousaram embaralhar o raciocínio do grande mestre grego, ao falarem do que estava acontecendo a seu redor (Rimbaud e a Comuna de Paris) ou ao valorizarem a história como potencialidades (Benjamin e a História a contrapelo; Arthur Rimbaud, “Canto de guerra parisiense”). Quando a escrita assume um papel tão central num filósofo e historiador como Michel Foucault, ou quando o referencial factual (interpretado) pesa tanto para um poeta como Carlos Drummond de Andrade, é hora de entender que a verdade da beleza também freqüenta o conhecimento histórico, e vice-versa (Michel Foucault. História da loucura na idade clássica).

Conheci Dea Fenelon em 1978, através de Olga Brites, que iniciava o Mestrado em história na PUC/SP, ao mesmo tempo que eu começava meu Mestrado na mesma área na FFLCH/USP. Olga me falou, com extremo entusiasmo, das aulas de Dea, e eu vim assistir a uma delas, numa manhã de sábado. Pedi autorização para acompanhar o curso como ouvinte, fascinado com a liberdade e o rigor de Dea, mesclados à evidente generosidade de quem via na docência um ato digno de pensamento e uma prática social muito clara de socialização de saberes. Dea falava dos clássicos com um respeito indagador de quem queria ainda mais. E insistia com os jovens iniciantes sobre a necessidade de uma insatisfação fundante diante dos saberes existentes.

Essa experiência se desdobrou em uma amizade de muitos anos. Sempre aprendi com Dea sobre a história como multiplicidade, invenção e risco – histórias. Não só o que aconteceu, mas também o que poderia ter acontecido, o que está acontecendo ou poderia estar acontecendo. Acompanhei as ampliações e metamorfoses de seus interesses temáticos e teóricos: História do trabalho, História popular, Patrimônio, Memória, Arquivos, Museus – Ensino de história sempre. E admirei sua imensa capacidade de batalhar pelo pensamento, sem renunciar a polêmicas mas também convivendo com diferenças.

Trabalhamos juntos na coordenação de uma Proposta curricular para o ensino de história na rede pública paulista, entre 1986 e 1988. Um balanço down dessa experiência incidiria sobre golpes baixos que sofremos naquela época, na mídia e na academia, e seus desdobramentos posteriores, até data muito recente. Mas eu prefiro um inventário de conquistas: houve debate, os interessados discutiram intensamente seus universos de pensamento, permaneceu uma memória de que o ensino de história é importante para a sociedade e objeto de disputa entre diferentes projetos políticos e teóricos. E num campo de conhecimento muito marcado pelo mais aristocrático conservadorismo, ser acusado de militância é até um elogio, descontada a criminalização da política.

Durante muitos anos, não fomos convidados para fóruns dedicados ao ensino de história. Em 2006, não por coincidência, chamaram-nos para duas diferentes mesas-redondas no VII ENPEH (Encontro nacional de pesquisadores em ensino de história), realizado em Belo Horizonte. Lembro-me de ter comentado com ela que alguma coisa estava mudando – It’s getting better all the time, como diziam os Beatles, nos anos 60. E não me aborreci quando nos trataram, até carinhosamente, como dinossauros do rock: éramos Rolling Stones felizes.

Em seus escritos mais recentes, Dea nos lembrava que a pluralidade não era apenas da memória social, era também da história erudita. Deve ser difícil para os que pretendem deter o monopólio da fala sobre história ouvir algo assim. É tarefa para nós, que lutamos contra tais monopólios, retomar essa generosa discussão.

Dea Fenelon, para sempre entre nós, como legítima portadora da beleza da história, com seu «grande olhar, clarões sempre veludo – Uns espelhos que dão mais beleza a tudo», evidencia o acerto do poeta: todos os homens e mulheres são mortais, mas a beleza que eles produzem vence a morte.

Através de Dea, a beleza da história venceu.

Dea Fenelon, historiadora e professora da Unicamp e da PUC-SP, faleceu no dia 20 de abril de 2008.

Marcos Silva é professor no Departamento de História da Universidade de São Paulo (USP) e autor, entre outros, de Prazer e poder do Amigo da Onça (Paz e Terra, 1989) e Dicionário crítico Câmara Cascudo (Perspectiva, 2002).

Paisagens da Crítica já comentou um livro de Marcos Silva: Câmara Cascudo, Dona Nazaré de Souza & Cia. (14 de agosto de 2007). Está no endereço antigo: http://paisagensdacritica.zip.net