Redor, de Masé Lemos

Redor é pequenino, uma espécie de aleph – ponto luminoso que olhamos e, nele, se sucedem inúmeras imagens de tempos e gentes distintas. Porque a poesia de Masé Lemos combina lugares e mistura tempos, inventa sucessivas metáforas para, em seguida, abandoná-las. E partir.

O signo da partida talvez seja, inclusive, o mais destacado – ou o segundo mais – do livro, dividido em quatro partes assimétricas: “Não deixe de ter em vista esse termo”, “Poesia impura ou elegias a Tarkos”, “Malazarte”, “Redor” e “Coisas”. Começa misturando poemas em verso e em prosa, num registro colado ao quotidiano, mas que sempre se ressente de tal proximidade e opta pelo distanciamento crítico, às vezes irônico, normalmente risonho. Ao se afastar para olhar, porém, a poesia de Masé Lemos reforça a estranheza e indica que, mesmo falando de dentro do dia-a-dia, está – repitamos Ana Cristina Cesar, sem a angústia – a ponto de partir.

A elegia-homenagem a Tarkos aceita o prevalecimento da prosa, assume a repetição variada e o ritmo quase-agônico da oralidade. Ao imergir no mundo e na dicção do poeta francês, novamente a sensação que deixa ao leitor é de despedida – idéia inevitável diante da morte recente do homenageado, mas não só: é sobretudo a força da língua e da linguagem que percorre o mundo de verdade, desmistificado, para isolá-lo e, ao mesmo tempo, revelá-lo. De novo, Masé está dentro como quem está fora, se descolando.

“Malazarte” retoma o caráter de crônica de “Não deixe de ter em vista”, mas agora o tempo presente fica em segundo plano; é o passado que prevalece e se destaca, mesmo quando a cena é contemporânea ao texto – porque o olhar se separa do hoje vivido e sonda o que veio antes, com as imperfeições e impertinências da memória, mas também com o devido distanciamento que permite a interpretação-compreensão do passado.

“Redor” e “Coisas” privilegiam o prosaico e, novamente, a perspectiva do narrador é o tema principal. A combinação do verso com a prosa poética reforça a indefinição medida do livro. A sensação de estranheza, agora, é principalmente do leitor, que pôde se reconhecer, desconfortável, no olhar do narrador, mas também aprendeu, com o passar das páginas de Redor, a aceitar o isolamento da voz lírica e sua dificuldade de fixação, sua desidentidade, sua vagueza e itinerância.

Porque Masé Lemos parte do comum para falar de outro comum – mas raramente reconhecido: o estrangeirismo do olhar poético, sua disposição à errância e à distância, sua tensão contínua e a vocação para o deslocamento. O enigma da chegada – já alertou Naipaul – é equivalente ao da partida; difícil é estimar o próximo passo. Talvez por isso Masé fale muito de partidas, mas, em sua poesia refinada, coloque outro signo acima deste: o da marginalidade, no sentido estrito. E faz, com delicadeza e contundência uma poesia que, afinal, é das margens – com a carga metafórica e metonímica de um lugar que é de encontro, separação e porosidade. Uma poesia do redor.

Masé Lemos. Redor. Rio de Janeiro: 7 Letras, 2007

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