Carne viva, de Paulo Francis

Carne viva tem um personagem apenas, que aparece por trás dos demais e impõe suas opiniões ao narrador: é o autor. E é ele, provavelmente, que os leitores buscam quando se dispõem a seguir as aventuras do banqueiro Francisco Guerra e atravessar os rituais de sexo e dinheiro da alta sociedade carioca. Porque esse autor é Paulo Francis – que dispensa apresentações.

Carne viva foi finalizado um pouco antes de Francis morrer, onze anos atrás. De alguma maneira, prossegue a saga de Cabeça de papel (1977) e Cabeça de negro (1979). Mas só de alguma maneira. Afinal, os romances anteriores de Francis – e também as novelas de Filhas do segundo sexo, de 1982 – são mais ambiciosos e mais complexos, tanto na estrutura quanto na construção dos personagens, mesmo quando caricatos ou francamente ridículos. Trazem discussões amplas e, às vezes, exaustivas.

A leitura de Carne viva, ao contrário, é agradável e rápida. O universo social e intelectual que mapeia é restrito, superficial, banal. É o Brasil que perdeu o gosto pelo pensamento e aceitou os modismos e a decrepitude – sem antes ter atingido o auge. É o Brasil na voz e na perspectiva de Francis, que alardeou, nos jornais e na televisão, o desatino da produção cultural e da política nacional dos anos militares em diante. Curioso, e triste, é que, ao vê-lo ou lê-lo, todos o achavam inteligente ou exótico, o amavam ou detestavam, mas dificilmente pensavam no que dizia, nem que fosse para discordar com algo mais do que um resmungo ou um adjetivo fácil e óbvio.

Nesse sentido, seu último romance pode ser lido como uma espécie de testamento. Nele, está sua entonação altiva, estão seus julgamentos peremptórios e, inúmeras vezes, avassaladores e temerários. Estão lá suas ironias e o ritmo da fala – entrecortada e variada. E também as metáforas que costumava usar ou as gírias fora de moda, com sabor dos anos sessenta, que intercalava em frases iniciadas no registro culto da língua. Sobretudo, Carne viva traz sua inquietação e sua inquietude: movimento e desassossego sob um olhar arguto e amargurado, em que o mal é inevitavelmente o homem.

O homem corroído de que Francis fala tem muitas caras: do burguês tosco ou culto, mas sempre oportunista, ao intelectual que segue a trilha dos modismos e despreza o que não o espelha; do capitalista cínico, que defende publicamente a ética e está sempre disposto a aceitar uma negociata privada, ao idealista cuja ingenuidade se divisa com a ignorância. Me diga, leitor: você não conhece esses personagens? Não convive com vários deles, talvez com todos? Não é inevitável que, após identificá-los, sinta um imenso desconsolo? Pois é essa a sensação que a leitura de Carne viva nos deixa.

Apesar de seu realismo enviesado, mas contundente, Carne viva não é um grande livro. O escritor não chegou aos pés do jornalista e do polemista. E talvez fosse mesmo impossível que, algum dia, Francis conseguisse neutralizar a força de sua expressão – principal origem dos amores e dos ódios, bem mais do que suas opiniões – e obtivesse o efeito imaginativo que a ficção tem que ter. Talvez fosse impossível que Francis não tentasse – militante à sua maneira – convencer o leitor. Talvez fosse impossível que ele não se impusesse, corpulento, a seus personagens e a seu narrador.

Quem conviveu com Francis conta que sua imagem pública contrastava absolutamente com sua atitude na intimidade, quando era receptivo e doce. Inevitável pensar que também isso pesou na escritura de Carne viva. E que a imposição do autor à obra foi tamanha que conduziu, até, para um desfecho relativamente lírico – lirismo amargo, mas sempre lirismo.

Paulo Francis. Carne Viva. São Paulo: Francis, 2008

5 pensamentos sobre “Carne viva, de Paulo Francis

  1. Júlio:

    Seu comentário está muito bom. Considero Francis um ótimo estilista DE IMPRENSA PERIÓDICA (os escritos dele n’O Pasquim e na Revista do DINERS são excelentes), em gêneros que não abrangem o imaginário ficcional. Os romances de Francis sempre têm um ar de reportagem envergonhada. Talvez o jornalista julgasse que havia maior nobreza na ficção: engano grave, apoiado numa concepção ainda hierarquizada de escritas.

    Marcos Silva

  2. Marcos,
    obrigado pelo comentário.
    O jornalismo de Francis penetra na sua ficção e isso dificulta bastante a independência de sua escrita imaginativa.
    Da leitura da colaboração de Francis para a imprensa, acho que aprendi a pontuar e a dar ritmo aos textos. Ou pelo menos passei a tentar.
    Abraços,
    Júlio

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