Austerlitz, de W. G. Sebald, por Julia Bussius

Austerlitz, de W. G. Sebald

por Julia Bussius

Austerlitz, de W. G. Sebald (ou Max Sebald, como ele preferia ser chamado), é uma narrativa extraordinária, infelizmente ainda não traduzida no Brasil [a edição em língua inglesa, porém, pode ser encontrada facilmente e por preço razoável]. O autor alemão, nascido em Wertach, na região do Allgäu, em 1944, viveu a maior parte de sua vida na Inglaterra, onde lecionou literatura austríaca em algumas universidades e coordenou um centro de estudos sobre tradução. Faleceu em 2001, ao sofrer um ataque do coração enquanto dirigia seu carro. Antes de Austerlitz, apenas dois de seus livros foram traduzidos no país: Os emigrantes e Os anéis de Saturno, ambos pela Record e ambos imperdíveis.

O título desta obra não se refere à estação de trem em Paris ou a uma das batalhas de Napoleão, e sim a um homem que tem sua vida assombrada pela catástrofe. Em 1939, Jacques Austerlitz embarcou num Kindertransport – trem que levava crianças judias para fora do país – deixando Praga, sem mesmo ter completado cinco anos de idade, para ir à Inglaterra, onde seria adotado por um pastor calvinista e sua esposa. Seus novos responsáveis, que levavam uma vida sombria e infeliz na pequena cidade de Bala, País de Gales, afastaram o menino de qualquer contato com seu passado. Seu nome verdadeiro é revelado apenas após a morte do casal, e a partir desta palavra, que lhe soa totalmente estranha, o imenso e triste vazio de sua história surge de modo irreparável.

O narrador – como Sebald, um alemão exilado na Inglaterra – conhece Austerlitz numa viagem à Antuérpia, Bélgica, onde iniciam um diálogo muito peculiar, permeado por relatos de história da arquitetura, assunto dos estudos de Austerlitz, e por descrições de melancólicas paisagens naturais. O primeiro encontro ocorre no final dos anos 60, e há uma lacuna de quase trinta anos até o próximo contato entre os dois.

Quando, por acaso, se reencontram em Londres, Austerlitz dá inicio à narração de sua história, descoberta ao poucos, à medida que não pode mais impedir o surgimento de seu passado desconhecido. Durante anos, ele tenta fugir de qualquer vestígio sobre suas origens – até mesmo seus estudos de história não avançam os limites do final do século XIX. E sem compreender bem o porquê, vive atormentado, algo que o torna esquivo e melancólico e muitas vezes o leva a sérias crises de nervos – passando dias de desassossego absoluto. Contudo, as lembranças teimam em persegui-lo e, aos poucos, ele começa a recolher memórias deste passado enevoado, que passa a adquirir forma. Ele procura por seus pais desaparecidos, seguindo os lugares e as pistas de como suas vidas se extinguiram. Revisita as cidades que havia soterrado e reencontra as paisagens e línguas de sua infância.

A escrita de Sebald fala da memória como algo fundamental. A melancolia de seus personagens é uma forma de resistir ao esquecimento. Como um colecionador, ele reúne histórias, fotos (sempre presente em seus livros), desenhos, mapas, notícias, lugares e pessoas – tentando encontrar sentido no presente por meio destes cacos do passado. O tempo e a memória são a matéria de reflexão deste autor, que nos alerta para algo fundamental: não se pode enterrar o passado (sua maior crítica à Alemanha do pós-guerra, que encobriu os anos de atrocidade com o desenvolvimento de uma economia fortíssima).

Os diálogos do livro são contínuos, e não estão indicados por aspas ou travessão. As falas do narrador, Austerlitz e dos outros personagens se entrelaçam o tempo todo, como no fluxo de uma narrativa oral. Sebald já foi apontado como aquele narrador que Walter Benjamin julgava ter desaparecido no mundo moderno. Ele é um exímio contador de histórias, e nos deixou obras literárias sensíveis como esta, com a capacidade de tocar qualquer pessoa que, com o mínimo de lucidez, tenha sobrevivido ao catastrófico século XX e a todas as suas idiossincrasias.

W. G. Sebald. Austerlitz. São Paulo: Companhia das Letras, 2002

Este comentário foi publicado originalmente em 1º de maio de 2006, no endereço anterior de Paisagens da Crítica. É republicado agora devido ao lançamento da edição em português de Austerlitz.

Julia Bussius é jornalista, historiadora e estuda a obra de W. G. Sebald.

4 pensamentos sobre “Austerlitz, de W. G. Sebald, por Julia Bussius

  1. pelo menos esse autor tem duas obras no nosso idioma. a annemarie selinko só teve traduções no brasil por uma dessas coleções, hoje não se acha mais. bem como vários outros escritores. uma pena. falei do livro sentimento do mundo do drummond no meu blog. beijos, pedrita

  2. Acabo de ler o livro. É maravilhoso. É o melhor livro que li no século 21.
    É horroroso, enquanto história de um horror.
    Escolho Horror por ecoar o clima do Coração das trevas.

    O desafio de provocar angústia desvelando lentamente um monte de cacos do Holocausto, quando em outras obras o tema as vezes parece sossobrar na repetição, e isso misturado à maravilha de vadiar por estações de trem, hotéis, fortalezas e cidades com alguém que conhece as camadas de tragédias históricas ali impregnadas e escondidas.
    DUKCT.

    • Fernando,
      tudo bem?
      Desculpe-me a demora na liberação do comentário e na resposta.
      Concordo plenamente com sua leitura. Um horror que se desdobra aos poucos, em vertigem.
      Abraços,
      Júlio

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