Coleção Sangue na Vinha, de Jean-Pierre Alaux e Noël Balen

Bodas de ouro em Yquem, Desvendando Margaux e O ritual de Bordeaux misturam investigação policial com grandes vinhos. O leitor, no entanto, degusta o livro com a impressão de que lhe foi servido um vinhozinho qualquer – aquele chileno mais-que-batido, que aceita na casa dos parentes para não parecer esnobe nem desfeita.

São os primeiros volumes lançados no Brasil da Coleção “Sangue na Vinha” que, apesar do nome meio trocadilhesco, parte de uma idéia genial. Afinal, o que pode ser melhor do que ler um bom policial acompanhado de um bom vinho? Ou, pelo menos, sonhando com um dos rótulos que dão nome aos livros: Château d’Yquem – o maior de todos os vinhos de sobremesa –, o charmoso e elegante premier grand cru classé de Margaux e (ainda que o título da tradução brasileira omita) o mais cultuado de todos os bordaleses, Pétrus.

Na França, a coleção – escrita por Jean-Pierre Alaux e Noël Balen – já tem dezoito volumes, ultrapassa as fronteiras de Bordeaux, circula por quase toda a França e até invade os domínios espanhóis. Difícil é brindar ao sucesso. Porque a idéia é genial, os vinhos, impressionantes, mas os romances são muito fracos. O problema não é a inverossimilhança de um enólogo-detetive, que interrompe seguidamente suas provas para investigar crimes escabrosos. Afinal, se existe rabino-detetive e pelo menos um grande padre-detetive – o Padre Brown -, por que não um enólogo? É curioso, pelo menos, além de retomar a óbvia associação entre a investigação e o procedimento analítico, função primordial de um enólogo. Sem contar a brincadeira de situar um enólogo inglês na França, cujo nome – Cooker – nos faz pensar imediatamente no crítico americano Robert Parker, que os bordaleses adoram e os borgonheses deploram. É quase impossível que o leitor não perceba a referência a Parker. Os autores, no entanto, acharam conveniente não deixar margem a qualquer dúvida e se preocuparam em destacar a marca da caneta que Cooker usa – adivinhe qual é.

Mais do que um exemplo, aí está a razão da fragilidade de Sangue na Vinha. Tudo é óbvio e oferecido facilmente ao leitor. As frases e os parágrafos curtos e diretos, sem qualquer tratamento literário, não exigem o manejo de nenhuma pequenina célula cinzenta. Os três livros se comprazem em se confinar no universo dos clichês. Clichês mesmo, não as marcas habituais do gênero policial: frases feitas, personagens caricatos, metáforas óbvias e baldias. Um ou outro exemplo: a mulher de Cooker “faz-se carinhosa aos vapores perfumados do banheiro”, um amigo considera “um ponto de honra preencher mais tarde essa pequena lacuna”, as pessoas “raramente evocam esse período doloroso” e os silêncios “se eternizam”; sobre a empregada da casa de outro amigo de Cooker, “A tez amarelada e os cabelos sem brilho presos num pequeno coque se integravam às mil maravilhas na decoração desbotada do salão.”

Se tentarmos avaliar a trama misteriosa a partir de seus elementos genéricos, a coisa fica mais feia ainda. Sangue nas Vinhas incorre em quase todos os pecados que, no início dos anos 1930, Borges elencou como erros imperdoáveis dos praticantes do gênero. Quase toda a motivação e a investigação dos crimes é arbitrária, carente de lógica. Por isso, o leitor nunca tem as informações necessárias para o entendimento ou a decifração dos crimes. Os personagens-assassinos aparecem de repente, quase no fim dos livros, só para serem acusados. Nos três casos, não há método investigativo e nem desenvolvimento lógico: a decifração se dá por acaso. Além disso, o leitor acaba a leitura sem explicações. Por que o criminoso de O ritual de Bordeaux – nome que o editor brasileiro deu a Saint Pétrus et Le Saigneur – realizava o ritual do título? Aparentemente, os autores esqueceram de explicar. Ficamos sabendo, ao final do livro, o motivo dos crimes, mas não a razão pela qual o criminoso praticava o tal ritual. O vinho de Yquem até tem relação com os crimes do volume dedicado a ele, mas Yquem é pouco mais que um cenário para a trama. Margaux do livro, na verdade, é o nome da filha de Cooker – e o château aparece quase como um trocadilho.

Uma pena. Porque a idéia foi boa e a garrafa – digo, a edição – é bem cuidada, com capa elegante e glossário ao final. O problema é que a leitura deixa um resíduo ruim, espécie de retrogosto desagradável para quem esperava beber bem.

Jean-Pierre Alaux & Noël Balen. Bodas de ouro em Yquem. Rio de Janeiro: Rocco, 2007 (original: 2004; tradução: Alcida Brant)

Jean-Pierre Alaux & Noël Balen. Desvendando Margaux. Rio de Janeiro: Rocco, 2007 (original: 2004; tradução: Alcida Brant)

Jean-Pierre Alaux & Noël Balen. O ritual de Bordeaux. Rio de Janeiro: Rocco, 2008 (original: 2005; tradução: Alcida Brant)

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