O balneário, de Manuel Vázquez Montalbán

O balneário é um livro datado – bem datado – e sua publicação, hoje no Brasil , soa anacrônica.

Lançado originalmente em 1986, O balneário não resistiu ao tempo. Lê-lo agora é decifrar um conjunto de aflições que parecem risíveis e exóticas. Sua trama mirabolante encara os resíduos da Guerra Fria e da Espanha franquista, ambas agonizantes, mas persistentes. Franco já morrera há anos e a glasnost de Gorbachóv era definitiva; no entanto, os mortos não haviam sepultado seus mortos e o espectro do passado recente ainda rondava as preocupações políticas de Manuel Vázquez Montalbán, o autor.

Por isso, ele escreveu um romance que não é propriamente policial, nem propriamente político, nem propriamente histórico. A bem da verdade, não é propriamente um romance, perdido em divagações gerais, personagens caricaturais e incompletos, em uma trama esvaziada e – alerta um dos personagens – de inacreditável inverossimilhança.

Pepe Carvalho, o detetive habitual de Vázquez Montalbán, exemplifica bem o deslocamento de tudo: gourmet e glutão, está encerrado num spa. Junto com ele, gente de muitas nacionalidades (internas & externas à Espanha) compõe um suficiente painel europeu. Quem o coordena, são os suíços, neutros proprietários e administradores do empreendimento. Tudo é dado de saída: nem o leitor desatento deixa de perceber o jogo metafórico que se pretende montar.

O humor do início do livro pode até lembrar outros livros de Vázquez Montalbán e a crueza cínica de Pepe Carvalho, mas dura pouco. Rapidamente começa uma série de rocambolescos assassinatos, que não param mais e são acompanhados pelas atitudes ridículas de todos. Na Europa dos anos 1980, afinal, ninguém sabia o que estava acontecendo ou ocorreria, e todos recorriam a explicações adequadas ao mundo de antes, mas não ao de agora. Isso o leitor também percebe facilmente.

A estrutura da narrativa é também logo decifrada pelo leitor: típico caso do policial em local fechado, sem que haja interferência externa ou possibilidade de fuga dos envolvidos, que persistem confinados, passando fome no spa, até que se dê o caso por liqüidado. Todos os clichês que algum dia alguém imaginou para uma história de investigação dão o ar da graça: passagem secreta, vultos que se esgueiram nas sombras, identidades trocadas, policiais obtusos, mulher fatal, disputas familiares, interesses financeiros. Nada escapa, nem se esconde dos olhos do leitor. Ele é forçado a enxergar absolutamente tudo.

Já a explicação final – cena habitual – é tão esdrúxula e incompleta, que o leitor percebe (se ainda não havia notado) que Vázquez Montalbán de fato não estava nem longinqüamente preocupado com a história que escrevia: queria transmitir sua mensagem política, e pronto. Nisso O balneário se parece com o quase infinito e infinitamente chato Milênio – livro de despedida de Pepe Carvalho – e se diferencia de suas saborosas aventuras – Os mares do sul, O quinteto de Buenos Aires, A rosa de Alexandria e tantas outras.

A única coisa que o leitor não consegue entender é porque o livro foi editado agora, vinte e um anos depois, no Brasil – o que talvez só se explique pelo prestígio do autor e pela capacidade do mercado de absorver histórias policiais de autores conhecidos e reconhecidos. É difícil imaginar outra razão. Ou talvez não haja razão alguma – o que não é de todo mau: afinal, algum mistério um romance policial tem que trazer. Que seja o do motivo, talvez indecifrável, de sua publicação.

Manuel Vázquez Montalbán. O balneário. São Paulo: Companhia das Letras, 2007 (original: 1986; tradução: Ari Roitman e Paulina Wacht).

Paisagens da Crítica já publicou comentários sobre outros livros de Manuel Vázquez Montalbán: Quarteto (10.2.2006), A rosa de Alexandria (8.5.2006) e Milênio (21.2.2007). Todos no endereço antigo: http://paisagensdacritica.zip.net

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