O Jardim de D. João, de Rosa Nepomuceno

O Jardim de D. João se destaca no meio da imensa lista de livros que lembram e celebram os 200 anos da vinda da família real portuguesa ao Brasil.

Rosa Nepomuceno não repetiu os velhos clichês sobre o período, nem entrou na onda oportunista de lançar velhas idéias embaladas em nova roupagem para falar da abertura dos portos, da instalação da Casa da Moeda ou da fundação do Banco do Brasil. Tampouco palpitou na palpitante polêmica sobre a relação entre o estabelecimento da corte no Rio e a futura unidade política do Brasil independente – controvérsia que ganhou até contornos bairristas de um lado e outro.

Pesquisadora das especiarias e de sua história, Rosa desvelou um lado interessantíssimo da estadia nobre nos trópicos: a criação do Jardim Botânico, do Rio, por D. João. O parque chamou-se originalmente Real Horto e, meio por acaso, consolidou uma quantidade imensa de espécies vindas dos vários cantos do mundo. Logo no início do livro, Rosa conta a incrível história de Luís de Abreu Vieira e Paiva, um “astuto oficial” português, que foi decisivo para a formação do acervo do Jardim. Feito prisioneiro dos franceses que controlavam as Ilhas Maurício, Luís de Abreu negociou sua liberdade e a de seus duzentos companheiros e, de quebra, abiscoitou mudas e sementes do famoso Jardim das Toranjas, onde o botânico (adequadamente nomeado) Pierre Poivre cultivava espécies asiáticas e americanas.

Bem sucedido nas duas empreitadas, Luís de Abreu aportou no Rio, em julho de 1809, com as mudas que iniciariam a vocação do Jardim Botânico para a diversidade. O Real Horto, afinal, era um jardim de experimentos científicos – numa época em que esse cultivo tinha função estratégica. Nele eram aclimatadas plantas que pudessem ser comercializadas ou usadas medicinalmente. Especiarias, como canela, pimenta do reino ou cravo-da-índia. O chá, que chegou do oriente e se estabeleceu por aqui. Provavelmente, as orquídeas. E frutas como cajá, abacate, manga ou lichia. Ou, ainda, as célebres palmeiras imperiais que, consta, teriam sido plantadas pelo próprio D. João (Rosa observa que não há registro desse ato de jardinagem real, mas que ele é provável; ou, por outra, se non è vero, è bene trovato).

Da instalação e da constituição de sua forma inicial como “jardim de especiarias”, Rosa percorre a história do parque e acompanha seus invernos (no Segundo Império, quando foi usado no desenvolvimento de técnicas agrícolas) e primaveras (principalmente sob os cuidados de João Barbosa Rodrigues, que o dirigiu por quase vinte anos e hoje dá nome a uma das aléias do Jardim). Percebe o significado de sua abertura ao público e o papel que assumiu para a cidade do Rio de Janeiro. Reconstitui o histórico de suas dificuldades e, com entonação lírica, canta sua beleza.

Porque O Jardim de D. João não é escrito com a (suposta) frieza de uma pesquisa que sonha, afetadamente, com a objetividade. Rosa está presente no livro o tempo todo: relembra suas constantes visitas ao Jardim e aponta a impossibilidade de falar dele sem a emoção de quem o vive no quotidiano. O lirismo não impede o rigor da pesquisa e do texto; ao contrário, o intensifica porque exige explicações e interpretações que escapam ao domínio técnico da autora e implicam o que o Jardim melhor oferece: reflexão e conversas com outras pessoas – os botânicos do parque, por exemplo.

O cuidado e as opções editoriais fazem, ainda, de O Jardim de D. João um livro-objeto: aquele que nos fala pelas palavras e pelo aparato peritextual. A edição repete a qualidade da discussão e a beleza do texto e provoca seguidamente o leitor, querendo que o manuseemos e procuremos, curiosos, as imagens e pequenas delicadezas que traz. Edição certamente cara, que contou com suporte da comissão para a celebração dos 200 anos da vinda da família real.

Justíssimo. Também por isso é importante relembrar a data. Mesmo que concordemos com aqueles que desprezam sua importância, é inevitável reconhecer a quantidade de mudanças que a estadia dos nobres lusitanos provocou no quotidiano da época e nos tempos posteriores. Transformações aparentemente miúdas que às vezes significam mais para nós do que a macropolítica. Afinal, macropolítica não tempera nossa comida, nem melhora nossa saúde. Muito pelo contrário.

Rosa Nepomuceno. O Jardim de D. João. Rio de Janeiro: Casa da Palavra, 2007

5 pensamentos sobre “O Jardim de D. João, de Rosa Nepomuceno

  1. dos livros desse período que li e amei foi o da lilia, longa viagem da biblioteca dos reis. agora acabei de ler um sobre napoleão, mesmo que ficcional os diálogos. anotei esse. beijos, pedrita

  2. Agradeço a generosa crítica ao meu livro O jardim de D. João. Este foi feito com grande prazer e familiaridade com o parque que frequento quase diariamente.
    A crítica atesta a delicada atenção abordou os diversos aspectos da obra, inclusive a edição.
    Muito obrigada,
    Rosa Nepomuceno

  3. oi rosa aqui quem vos fala é um quase conterraneo seu, sou de laranjal paulista , ali pertinho de botucatu. agora estou em são paulo , no momento estou cursando gastronomia na hotec , e encontrei seu livro viagem ao mundo das especiarias num sebo na joão mendes , queria te parabenizar pelo trabalho grandioso , que deve ser visto e lido por todos os etudantes de gastronomia , pois ele e uma verdadeira biblia sagrada com relação aos fatos que ali acontecem e que voce como ninguem poderia espresar , quero ler este novo livro o jardim de dom joão , pois acredito que ali ,vou me deliciar assim como estou nas especiarias , queria em breve te conhecer pessoalmente , dizer que estou fazendo propaganda dos seus livros e sem querer querendo me torneu seu fan incondicioanla abraço do amigo e adimirador luis carlos cherubino gaimapaoli (orkut cheruba giampaoli)

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