Fragmentos de Alberto, Ulisses, Carolina e eu, de Julián Fuks

por Renato Prelorentzou

O leitor que encerra as Histórias de literatura e cegueira de certo se surpreende ao saber que aquele jovem autor publicou, ainda antes, outro livro. E fará bem em conseguir os Fragmentos de Alberto, Ulisses, Carolina e eu, pois vai, mais uma vez, se admirar quando ler, nas páginas de estréia de Julián Fuks, seus experimentos de escrita gravados, dessa vez, na contraface da íntima relação entre vida e ficção: se, no livro mais recente, há a ousadia de imaginar escritores reais e extraordinários em suas diárias horas criativas, naquele primeiro, está o impulso de fazer ficção com anônimos pedaços de vida cotidiana.

Os contos de Fragmentos de Alberto, Ulisses, Carolina e eu foram premiados pelo Projeto Nascente (USP/Editora Abril) em 2003 e publicados pela Coleção Rocinante da Editora 7 Letras no ano seguinte. Julián contava pouco mais de 22 anos. Em cada uma das 64 páginas de seu livro, revezam-se fluxos de consciência, diálogos, memórias, uma tardia carta de amor, a página de diário de um viajante, o relato de uma velha senhora: como sugerido pela sutil ambivalência do título, os fragmentos são sobre Alberto, Ulisses, Carolina e outros, mas são também escritos por eles – narradores controlados por um autor hábil em variar o estilo e se exercitar na narração. Por isso, o livro-todo aparece ao leitor como uma coletânea de textos autônomos que, embora acenem com tênues continuidades nas repetições de nomes e circunstâncias, se afastam e abrem espaço para a história de seu autor. Esse “eu”, nítido em fortes traços autobiográficos, enxerga o mundo de um modo narrativo, vê pessoas como personagens e conflitos como dramas, mas sabe das incongruências e desilusões de assim proceder. Mais uma vez, as experiências de vida e de leitura se enredam, e a frustração de saber, forjados o lirismo e a grandiosidade vividos, faz com que os narradores – e seu autor – se encontrem diante do mais decisivo ato desta reivindicação literária, transformando suas vidas em texto, às voltas com a “enfadonha metalinguagem”.

Assim, os Fragmentos… são, sobretudo, instantes de vidas, lampejos que a força afetiva da memória e a solenidade da reflexão convertem em pequenas transcendências. São relatos de alguém que pensa ter alcançado um mistério, uma revelação, mas que percebe que são as palavras que fazem aquele momento misterioso, revelador: elas servem ao engano e ao desengano; tornam momentos memoráveis em cenas literárias, ou delatam que só são memoráveis os momentos que se parecem com cenas lidas; decidem entre o ridículo e o épico, o prosaico e o poético, irônico e romântico, o esquecível e o inesquecível. E é precisamente pela cuidadosa escolha de suas palavras que Fuks abarca o precário e o faz redentor, mas imediatamente, na autocrítica desse mesmo fazer, volta a encontrar o banal, mundano – e, por isso, essencial.

No “Prólogo necessário” aos capítulos de Histórias de Literatura e Cegueira, Fuks diz que, quando não contadas, quando trancadas em uma gaveta, quando o escritor, descrente de seu ato, as interrompe, “as histórias são saqueadas em sua natureza”. O leitor dos Fragmentos de Alberto, Ulisses, Carolina e eu saberá ler aí um manifesto pela criação e pela perpetuação literária – seja feita de célebres textos, seja tirada da vida trivial –, e não apenas a justificativa para a mais recente e audaciosa escrita de Fuks. E quem o leu como apurado leitor dos livros de Borges, João Cabral e Joyce, certamente gostará de lê-lo como sensível leitor de histórias vividas.

Julián Fuks. Fragmentos de Alberto, Ulisses, Carolina e eu. Rio de Janeiro: 7 Letras, 2004

Renato Prelorentzou é mestre em história social pela USP e pesquisa a obra do escritor mexicano Ignacio Padilla. Publicou, em Paisagens da Crítica (endereço antigo: http://paisagensdacritica.zip.net), comentário sobre Palomar, de Italo Calvino (27 de maio de 2007)

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