Histórias de literatura e cegueira, de Julián Fuks

Histórias de literatura e cegueira é, em primeiro lugar, um livro ousado. Dispõe-se a ficcionalizar itinerários de escritores e, para completar, escolhe três dos maiores autores do XX: Borges, João Cabral e Joyce. Risco duplo, portanto: o de simular fragilmente suas biografias e o de emular obras bastante conhecidas. O livro poderia resultar desnecessário ou pedante, repetitivo ou pretensioso.

Julián Fuks escapa do perigo e conta histórias divertidas e intrigantes. Age como um ladrão de palavras – diria Michel Schneider – que inventa tradições, cria precursores, reúne o que veio antes de si e reconta em relatos adequados ao público que vai ouvi-lo. Reconta & canta, como faziam os aedos ancestrais: poetas, cegos e memoriosos. No entanto, há uma tensão logo na partida: qualquer dos três escritores parece-nos tão imerso no mundo da escrita, tão embrenhado nas palavras impressas, que soa estranho imaginar que seus mundos possam ser traduzíveis na figura de um cantador. Para esconjurar esse outro risco, Fuks recorre a uma estratégia aparentemente simples e inverte as posições: no mundo da ficção, cegos são os precursores, visionário é o cantador. O herdeiro confesso se assume e cria uma história a mais, irreal e verossímil, para Joyce, Cabral e Borges. Não sei dos outros dois, mas Borges, sem dúvida, teria gostado do jogo e da inevitável tensão entre ver e ouvir.

Em relatos carregados de sombra – como só poderiam ser – Fuks explora a poderosa metáfora do cegamento para avaliar as conexões e os distanciamentos entre a verdade e a mentira, entre o vivido e o imaginado. Insiste, desde o “Prólogo necessário” (de feição evidentemente borgeana), que não se restringe ao real e às mistificações que o rodeiam: pleiteia o possível, o universo, afinal, da ficção. A história está ali, sim, mas é o quarto plano, enviesado aos demais e por eles seguidamente contaminada.

O livro é cartesianamente preciso – seria contraditório, se não fosse: divide-se em três capítulos quase idênticos no tamanho. A narrativa, porém, oscila em função do personagem. Do recolhimento de Cabral à correspondência de Joyce; das labirínticas relações borgeanas ao silêncio atravancado de objetos concretos de Cabral; da fragmentação de Joyce à erudição de fôlego infinito de Borges. Cada um deles fala de seu alumbramento da literatura e da relação, posterior, com a cegueira. A infância ressurge biográfica, poderosa, sem que saibamos ao certo se ela é o começo da vida ou dos livros. Inevitável também é repetir um tema caro aos três, embora vivido de forma peculiar: o exílio. De novo, não é o da vida, mas dos livros e, pelo fio da memória, do tempo. As histórias fluem ligeiras e quase enganam o leitor, pela aparente simplicidade. Também aí o cantador ilude, em seu jogo de lembranças e esquecimentos, e age para inocular em cada verso reproduzido ou relato divertido seu viés de intérprete – do melhor intérprete possível, aquele que os três escritores foram, Fuks depois deles e, finalmente, nós: leitores.

Porque Histórias de literatura e cegueira é sobretudo um exercício de leitura, da crítica destituída do distanciamento que alguns pregam. A crítica como capacidade de assimilar e traduzir, de prosseguir a fabulação sem deixar de sujeitá-la às necessárias intrigas da razão – prática, de resto, em que esses três cegos foram quase insuperáveis.

Julián Fuks. Histórias de literatura e cegueira. Rio de Janeiro: Record, 2007

3 pensamentos sobre “Histórias de literatura e cegueira, de Julián Fuks

  1. Caro Júlio,

    agradeço muito a generosa atenção que dedica ao meu livro, para não falar das observações tão agudas e certeiras – claro, não caberia a mim falar. Um privilégio inesperado esse de tê-lo como leitor e crítico.

    Um abraço,
    Julián

  2. Julián,

    muito obrigado. Foi uma satisfação ler seu livro. Li em outubro do ano passado, quando escrevi esse comentário. Como não o publiquei na época, reli o livro agora, para “conferir”, e gostei mais dele.

    Amanhã, publicarei, aqui mesmo no blog, comentário de Renato Prelorentzou sobre outro livro seu: Fragmentos de Alberto, Ulisses, Carolina e eu.

    Abraços,
    Júlio

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