O enigma de Paris, de Pablo De Santis

O enigma de Paris nos faz pensar se é necessário publicar todos esses livros que povoam as livrarias. Não falo dos livros obviamente ruins: a auto-ajuda, a vulgaridade (com ou sem verniz literário ou intelectual), as coisas simplesmente mal escritas. Falo de livros que até divertem um pouquinho, são bem escritos, bem montados, mas – sejamos sinceros – absolutamente desnecessários. É o caso desse romance policial do argentino Pablo De Santis, que recebeu prêmios importantes e foi traduzido e lançado no Brasil por uma importante editora.

O livro é bem feito? É. Sua história pára em pé? Pára. Garante entretenimento por duas ou três horas? Garante. Então, eu é que sou implicante? Talvez. Mas, ao acabar a leitura, senti um profundo desconforto. Pensei em todos os jogos retóricos a que De Santis recorre, à ânsia de parodiar o policial clássico e incluir umas pitadas do policial “duro” americano. Pensei nas citações cifradas de Borges. Pensei na idéia de ambientar historicamente o crime nos tempos da montagem da Exposição Universal de Paris. Pensei nas brincadeiras com as matrizes do gênero. Tudo isso é interessante. É. Por que, então, o desconforto? Porque tudo é previsível, tudo é repetitivo, tudo é artificial, tudo parece um pouquinho arrogante: do tom da narrativa à intenção explícita de reinventar o gênero ou de alterá-lo drasticamente.

Daí me lembrei de autores que, sem tal vaidade, de fato mudaram drasticamente a história da narrativa policial. Lembrei de Dashiell Hammett (de quem nem gosto tanto) escrevendo para ganhar uns trocados, de Leonardo Sciascia, que preferia a discussão política e a transferiu ao policial de forma bruta, de Manuel Vázquez Montalbán e seu recurso ao policial para relatar o declínio da esperança de toda uma geração, de Andrea Camilleri e a incorporação de registros da língua falada dos sicilianos. Lembrei, claro, de Borges, de Ricardo Piglia e de Ignacio Padilla, que associaram a literatura de enigma às artes da impostura e da crítica. Lembrei até de nosso Luiz Alfredo Garcia-Roza e seu diagnóstico da decadência irreversível da ética. Nenhum deles assumiu o ar orgulhoso de quem escreve para mudar o gênero – sem, no fundo, acrescentar nada de novo.

Má vontade minha. Talvez mau humor ou cansaço. E o leitor poderá confirmar ao ler O enigma de Paris e, quase garantidamente, sair da leitura satisfeito. Mas tudo me pareceu clichê demais: o interesse do narrador pelo mundo das investigações originar-se da leitura de uma revista (foi nas revistas de crimes, lembrem-se, que as histórias policiais surgiram), a seqüência de relatos de feitos dos doze maiores detetives do mundo, a discussão sobre a simbologia do ofício (pegadas? Quebra-cabeças? Lupa? Bengala de mil-utilidades? Intuição? Sorte? A frenologia? A razão pura e plena?), o desfecho falso seguido por um desfecho verdadeiro que, claro, ilustra os jogos de cena habituais das histórias de detetives.

Mas – você pode estar se perguntando agora – se o livro fala de tudo isso e o faz bem, por que reclamar? Ora, leitor, não reparou nas pistas que deixei nos parágrafos anteriores? Implicância, má vontade, mau humor, cansaço. Ou elas são explícitas demais para serem verdadeiras? Não sei. Leia O enigma de Paris e decifre. Já que foi publicado mesmo, aproveite.

 

Pablo De Santis. O enigma de Paris. São Paulo: Planeta, 2007 (original: 2007; tradução: Maria Alzira Brum Lemos)

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5 pensamentos sobre “O enigma de Paris, de Pablo De Santis

  1. eu tenho essa sensação, gosto de desvendar filmes e livros pouco lidos e divulgados. não qualquer livro, mas não ir pelo óbvio, pelo que a mídia seleciona e pouco seleciona. quero ler esse. beijos, pedrita

  2. Há críticas que para não serem invejosas deveriam não ser escritas.
    Sua visão é pessoal demais. E crítica não é isso.
    Opnião pode ser,
    mas mesmo assim você trabalha o livro quando não precisaria fazê-lo. É um bom livro e se você vê isso, não diz por algum ressentimento.
    E tecer má-vontade em cada vírgula simplesmente torna esta crítica desinteressante e desnecessária.
    Nada do que você diz é compatível com o livro.
    Há críticas que não deveriam ser escritas. Elas mostram o tipo de crítico que não é crítico coisa nenhuma, e não passa de um preguiçoso.
    Falar mal de algo é premissa do existir de um invejo.
    Fique quieto da próxima vez.
    Escreva sobre o que gosta, parecerá menos tolo.

  3. Julio,

    Desconheço critica impessoal. E, um blog, é necessariamente exercicio de “pessoalidade”. Dai nao entendi o “anonimo”. Cada um tem direito de se expressar. E ate de manter-se no anonimato. Porque nao? Seu texto nao me pareceu invejoso, preguiçoso ou tolo. Ao contrario, achei ate bem leve (com tantas ressalvas que foram feitas).
    O blog, ao que me parece, nao se confunde com asua atividade academica. E, necessariamente, mais pessoal e, portanto, menos “critica literaria” do que a opiniao de um leitor, escritor e critico, porque nao?
    Gostei e nao vou ficar no anonimato!
    Abraço fraterno. Adoro ler o seu blog. Me identifico muito com os seus gostos literarios. Sao sempre gostos e, as vezes, desgostos, como no caso.

    • Eymard,
      tudo bem?
      Obrigado.
      A intenção do blog é exatamente diferenciar-se da atividade acadêmica. No caso, porém, as duas coisas quase se misturam, uma vez que pesquiso, há alguns anos, as formas e variações da narrativa policial. Evidentemente, o tom da análise difere conforme o tipo de texto e seu espaço de circulação.
      Respeitemos, porém, as opiniões diversas.
      Abraços,
      Júlio

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