Morus, Moreau, Morel. A ilha como espaço da utopia, de Ana Claudia Aymoré Martins

Morus, Moreau, Morel. A ilha como espaço da utopia parte de uma idéia fabulosa em todos os sentidos. Ótima, porque se dispõe a confrontar três construções utópicas associadas a ilhas: a de Thomas Morus, a do Dr. Moreau, de H. G. Wells, e a de A invenção de Morel, de Adolfo Bioy Casares. E idéia que permite a fabulação, a capacidade de evadir do real e de aplicar, a ele, uma alternativa presente e viva.

Na origem, o livro foi uma tese de doutoramento, defendida em 2003, por Ana Claudia Aymoré Martins. Bem organizado e bem escrito, percorre a construção de sentidos para a idéia de utopia no ocidente, visita desde Atlântida até representações recentes no cinema e na literatura; em seguida, dedica um capítulo a cada obra mencionada no título. Resolve bem a discussão sobre Morus, de forte componente conceitual – logo, fundamental para a sustentação da tese, e interpreta com tranqüilidade o lugar do livro de Wells na imaginação negativa acerca das transformações tecno-científicas do século XIX. Algumas relações importantes aparecem – sobretudo com o Frankenstein, de Mary Shelley, que do início desde a segunda década do século espreita as leituras do umbral perigoso por que caminharam os sonhos tecnológicos.

No capítulo relativo a Bioy Casares, infelizmente, sua leitura perde força. Carente de bibliografia especializada na obra de Bioy (fartíssima na Argentina e nos Estados Unidos), Ana Claudia Aymoré Martins perde continuamente o foco da análise ao cruzar o livro – que é de 1940 – a episódios da vida pessoal de Bioy, à sua relação com Borges e, principalmente, a transposições e associações fílmicas diretas ou indiretas. Perde, com isso, o detalhamento da empreitada literária que Bioy pretendeu levar adiante com a obra e que, depois, renegou parcialmente. Perde, ainda, a angústia com que Bioy tratou o tema da tecnologia redentora (em tempos de guerra) e da leitura e escritura infinitas, base de sua concepção de utopia literária – como seus comentadores apontam há tempos. Um ou outro deslize editorial também prejudicam o livro – como o comentário (válido em 2003, mas hoje desatualizado) de que não existem livros de Bioy Casares em circulação no Brasil (depois disso, houve mais de uma edição importante) ou a menção à presença da ditadura militar argentina em 1986 (acabou em 83).

O mais importante, porém, mantém-se firme e estável: a qualidade da reflexão e sua ousadia, tanto no varejo (questionar a leitura habitual de Frei Vicente de Salvador acerca do motivo da denominação Brasil para o território que os portugueses descobriram), quanto no atacado: a lembrança da centralidade da utopia no pensamento ocidental e seus mecanismos de refundação contínua, com suas incontáveis variações. A ilha – atesta a autora – continua em nosso horizonte e nossos olhos insistem em buscá-la. Talvez conheçamos por lá alguma monstruosidade ou um criador de monstros. Talvez reencontremos o sonho tecnológico que o XIX criou e perdeu. Talvez – à semelhança dos portugueses conquistadores de mares – apenas inventemos nossa utopografia para nela espelhar o céu, mesmo sabendo quão tenebroso pode ser um mundo racionalmente controlado. Enquanto sonhamos com a descoberta de nossa ilha desconhecida, a leitura do livro de Ana Claudia Aymoré Martins ajuda a entender a ininterrupta ânsia de inventar utopias.

 

Ana Claudia Aymoré Martins. Morus, Moreau, Morel. A ilha como espaço da utopia. Brasília: Editora da UnB, 2007

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