Lãs ao vento, de Arriete Vilela

Lãs ao vento é um romance ou um livro de contos? É uma autobiografia ou uma reunião de histórias que se passaram no quotidiano? Fala do local ou do universal? É narrado diretamente pela autora ou por inúmeros personagens literários?

Arriete Vilela inventa, com Lãs ao vento, um jogo ininterrupto, em que nenhuma posição é fixa. Parte de citações de músicas ou de outros autores para contar breves histórias, marcadas pelo prosaico, pela intimidade; casos situados em lugares fechados (casas, vilas), que sugerem uma aproximação com a peculiaridade do local – talvez as Alagoas de onde vem a narrativa.

Entre um caso e outro, surgem cartas da autora à editora; as cartas enunciam outras histórias, num longo encadeamento narrativo, que se recusa a definir sua veracidade e busca validade universal: não são mais as Alagoas que falam, nem o Brasil, nem parte alguma; o território é da palavra – grafada com maiúscula inicial para determinar sua proeminência e autonomia – e da busca expressiva.

O fio da leitura, no entanto, liga os pequenos casos locais à indagação literária das cartas. Mais do que relações subterrâneas ou vasos comunicantes, há um outro deslocamento (ou diluição?) agora: da autoria, colocada em xeque pela terceira pessoa que narra os casos e pela fluidez da voz autoral – que não é integralmente real ou fictícia – das cartas. Afinal, como indica o título, tudo é provisório e móvel no terreno poroso da literatura; como lãs ao vento, a autora é uma autora possível e a editora é uma editora suposta – e ambas são parte do mosaico gradativamente construído na narrativa.

Por isso nenhuma das questões tem resposta fácil – ou sequer possível. Qualquer definição a que recorrêssemos para enquadrar a narrativa de Arriete Vilela sucumbiria. E provavelmente porque todas essas classificações se perdem nas convenções a elas atribuídas e não conseguem dar conta do fato – óbvio, mas tantas vezes negligenciado – de que entre o local e o universal não há separação rígida, que o autor se traveste de seus personagens ou os faz se misturarem a ele próprio, o quotidiano e o autobiográfico se penetram e se confundem misteriosamente, o conto e o romance são formas que dialogam. E Arriete Vilela, com delicadeza, ensina tudo isso em Lãs ao vento.

 

Arriete Vilela. Lãs ao vento. Rio de Janeiro/Penedo (AL): Gryphus/Fundação Educacional do Baixo São Francisco, 2005

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3 pensamentos sobre “Lãs ao vento, de Arriete Vilela

  1. Sou professora de Literatura no Colegio Rosa Mistica, em Arapiraca. Estou fazendo a campanha para o recebimento de Arriete em nosso colegio. Montei um power point p passar aos alunos. Ficou legal! Seria bom publicar fragmentos dos poemas e contos reforcando a qual livro pertence, peguei alguns em outros sites ms nao identifica o livro. Aui. por exemplo, poderiam esar a disposicao alguns fragmentos para articularmos “estudos dirigidos”. Que tal!!!

    • Magna,
      obrigado por seu comentário.
      Mas normalmente não coloco fragmentos das obras que analiso.
      Sugiro a leitura direta e completa delas.
      Abraços,
      Júlio

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