A duas vozes, de Eduardo Jardim

A duas vozes é daqueles livros que encantam logo de saída, nos envolvem pelo prazer da leitura e só aos poucos nos revela sua complexidade. Prosseguimos como se prossegue numa aula difícil, mas bem dada: com o prazer da revelação gradativa, no fio da narrativa fina e bem estruturada.

As vozes são de dois dos maiores intelectuais do século XX: Hannah Arendt e Octavio Paz. E o autor, Eduardo Jardim, os coloca lado a lado – em encontros e diálogos imaginários e verossímeis. O ponto de partida é simples e instigante: ambos foram críticos, mapearam a crise do modelo moderno e descreveram os mecanismos políticos turvos que o século criou. Ambos construíram pensamentos que evitaram a falsa segurança dos conceitos rígidos, tão propensos a se converterem em dogmas e a ampararem autoritarismos de cores e espessuras variadas. Ambos tentaram resgatar a história, reivindicaram a importância do presente e se contrapuseram à ânsia moderna de impor o futuro às demais temporalidades e à experiência efetivamente vivida.

Eduardo Jardim – autor de livros importantes sobre o projeto moderno no Brasil e sobre Mário de Andrade – é, porém, cuidadoso e sabe que tantas semelhanças não implicam espelhismo. Ao contrário, a formação desigual de Arendt e Paz provoca perspectivas diferentes. Do contato estreito da alemã com Karl Jaspers, Martin Heidegger, Walter Benjamin às conexões surrealistas do mexicano com André Breton e a influência multifacetada que incorporou em suas andanças pelo mundo, dos Estados Unidos à Índia, e em seus constantes retornos ao México. Da propensão de Arendt às discussões da filosofia política à palavra e ao verso como centros vitais da obra de Paz.

No entanto, as dessemelhanças os levam a um outro ponto de encontro – que Jardim coloca no centro de seu livro: Arendt e Paz olharam a crise da modernidade e pensaram o tempo presente a partir de uma posição literalmente marginal: o olhar judaico de Arendt, de alemã desterrada pela brutalidade nazista, e a perspectiva latino-americana de Paz. E é essa diferença tornada proximidade que leva ambos a pensarem um dos temas centrais do XX, o da revolução, com o olhar simultaneamente encantado e desiludido de quem percebeu que seu tesouro foi perdido ou sacrificado pelos rituais de institucionalização e burocratização – do totalitarismo nazi-soviético ao regime de partido único mexicano.

Para o leitor de Paz e de Arendt, repassar o pensamento dos dois no jogo proposto por A duas vozes é uma chance de perceber certas sincronias que, fora da comparação, podem passar despercebidas. É também a oportunidade para lembrar que, num século de homens sombrios como foi o XX, houve quem buscasse – pela política ou pela poesia – a liberdade, essa desejada e tantas vezes desconhecida das gentes.

6 pensamentos sobre “A duas vozes, de Eduardo Jardim

  1. Júlio:

    Gostei muito do novo desing site, ficou bom!!
    Essa ideia do Eduardo Jardim é ótima pois contrasta uma visão latina do Octavio Paz com uma visão européia.
    Quanto ao Octavio Paz, eu sou suspeita para falar bem dele, pois sou absolutamente apaixonada pela sua obra, pricipalmente quando ele escreve sobre poesia.
    O título A Duas Vozes me lembrou “A Outra voz” da obra de Octavio Paz onde ele dizia que: “A Idade Moderna exaltou o individualismo e tem sido, assim, o período da dispersão das consciências”.
    Consciências dispersas, gosto mais das despertas.
    Bjs.

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