Naquele exato momento, de Dino Buzzati

Naquele exato momento diagnostica o mal do século XX – o desassossego. Reúne textos em geral pequenos que Dino Buzzati publicou no Corriere della Sera nos anos 1940 e 1950.

Buzzati é um tremendo autor. Seu O deserto dos tártaros, de 1940, é angustiante e belo. Fala do deserto e das esperanças ocas para injetar o deserto na nossa alma e as esperanças ocas na nossa inconsciência. Se o XX é o século do estranhamento, do deslocamento e da errância, poucos erraram mais que os personagens de Buzzati, mesmo quando ficavam paralisados pelo entorno. É isso que (re)encontramos nos 156 fragmentos de Naquele exato momento. Com a diferença de que Buzzati sabe que, mesmo em tempos sombrios, o lirismo é necessário; é preciso tragá-lo, nem que seja com amargura e com uma terrível desconfiança.

Os registros são de todos os tipos: de instantâneos quotidianos – uma visita ao médico, por exemplo – ao reconhecimento de uma Itália que nunca mais seria a mesma após os anos de guerra. A guerra, aliás, é onipresente nos textos, e não poderia ser diferente. Num dos mais vertiginosos – o que trata da festa do 25 de abril de 1945, dia da libertação – Buzzati narra lentamente os abraços e beijos efusivos de quem se encontrava pelas ruas de Milão, mas não deixa o leitor relaxar; mantém subterraneamente a descrença de que a alegria estivesse mesmo sendo partilhada. E arremata com um soco rápido no nosso estômago, ao constatar que não é mais possível ser jovem, independentemente da idade: o país emergia da tragédia envelhecido e a alegria só podia estar na superfície.

Realismo que constrange, embora necessário. Estranho é que o livro, na edição brasileira, seja apresentado como um marco do “realismo mágico italiano”. Talvez fosse a necessidade mercadológica de vender a crueza de Buzzati como algo que o leitor brasileiro já conhecia, das pragas, quer dizer, das plagas vizinhas, e consumiria melhor. Mas realismo mágico aqui, em bom português, non c’entra. É a brutalidade da vida vivida sem mistificação, mesmo que por vezes seja preciso fantasiar para suportar melhor a brutalidade do que se viveu e o imponderável do que virá.

Dessa combinação aguda de realismo e lirismo e amargura e um olhar angustiado perante a história é que se fazem as crônicas – sim, crônicas – desse livro publicado originalmente em 1955 e que, mais de cinqüenta anos depois, é de classificação difícil e de comparação ainda mais complicada. Porque o desassossego, esse desassossego assimilado, mas nem por isso mais tolerável, ninguém o rouba de Buzzati – e infelizmente nem de nós. A experiência pessoal, afinal, não deixa de ter valor coletivo, como sabem alguns poucos escritores brasileiros da atualidade – penso em Miguel Sanches Neto e em suas crônicas. Talvez por isso o termo consagrado por Pessoa ressoe tanto na distância e na cronologia e mantenha suas aparições prazerosas – para a leitura -, mas desagradáveis para a consciência.

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