A seita dos anjos rompe —pelo menos parcialmente— uma tradição dos romances de Andrea Camilleri: a da afirmação categórica, na nota final, de que tudo ali vem da imaginação, que não há qualquer relação, a não ser casual, com eventos efetivamente ocorridos.
Neste livro, o referente é real: o advogado Matteo Teresi, protagonista do romance, existiu no princípio do século XX. Ele também editou, de fato, um jornalzinho em que denunciava a máfia, os poderosos locais e os padres corruptos. E seu destino —que não descreverei aqui— foi idêntico ao do personagem de A seita dos anjos.
Claro que Camilleri esclarece que as aventuras e desventuras de Teresi e o escabroso caso —igualmente real— de um padre pedófilo foram apenas sugestões, inspirações longínquas para a ficção: “o romance”, diz o autor, “revolve e transforma intencionalmente os fatos que ocorreram até torná-los irreconhecíveis a ponto de refugiá-los no campo da pura fantasia”. Ou seja, há vínculo efetivo entre o referente e o texto, mas o texto tem a intenção de superá-lo e dissolvê-lo.
Interessante é que o alerta valoriza a ficção, mas contribui para que o leitor fique mais atento à conexão com a experiência vivida, histórica, de mais de cem anos, e —inevitável— de hoje. Como não associar os crimes horrorosos da imaginação a outros, não menos terríveis, que ocorrem atualmente? Como não pensar na falta que faz, em pleno século XXI, um personagem de temerária coragem como Teresi?
É improvável que um bom leitor não saiba que os terrenos da ficção e da história, embora distintos, são compartilhados pela categoria una e múltipla da representação. É estranho supor que alguém ainda acredite que, compromissos distintos à parte, não haja mecanismos recíprocos de revelação que fazem com que a história seja melhor percebida a partir do registro ficcional, e vice-versa. A representação da distância, já nos lembrou Carlo Ginzburg, varia a perspectiva e amplia o olhar; aprofunda a imaginação moral e a consciência do tempo vivido —dos tempos vividos.
A seita dos anjos, por isso, pode ser lido apenas como um bom romance, entretenimento agradável para duas ou três horas. Camilleri, porém, deu todas as pistas para que o leitor perceba que há mais coisas ali, e mais fundas. Que há uma discussão sólida por trás de cada conversa aparente banal, do anedotário habitual que seus personagens projetam.
E essa discussão —sobre as relações tão íntimas, óbvias e complexas da ficção com a história— é sempre fascinante.
Andrea Camilleri. La setta degli angeli. Palermo: Sellerio Editore, 2011.
Paisagens da Crítica comentou outros vinte livros de Andrea Camilleri.
Clique no título dos livros para lê-las:
- A pensão Eva (La pensione Eva), em 24.03.2006;
- O calor de agosto (La vampa d’agosto), em 12.5.2006;
- As asas da esfinge (Le ali della sfinge), em 22.3.2007;
- A cor do sol (Il colore del sole), em 3.5.2007;
- A pista de areia (La pista di sabbia), em 1.11.2007;
- Maruzza Musumeci, em 3.12.2007;
- O campo do oleiro (Il campo del vasaio), em 12.6.2008;
- As ovelhas e o pastor (Le pecore e il pastore), 19.06.2008;
- O tailleur cinza (Il tailleur grigio), em 24.06.2008;
- O guarda-cancela (Il casellante), em 3.11.2008;
- A idade da dúvida (L’età del dubbio), em 22.4.2009;
- O guizo (Il sonaglio), em 2.5.2009;
- Um sábado com os amigos (Un sabato, con gli amici), em 8.8.2009;
- A caça ao tesouro (La caccia al tesoro), em 9.11.2010;
- O sorriso de Angélica (Il sorriso di Angelica), em 17.11.2010;
- A intermitência (La intermittenza), em 17.02.2011;
- O jogo dos espelhos (Il giocco degli specchi), em 8.7.2012;
- Uma lâmina de luz (Una lama di luce), em 8.7.2012;
- Grande Circo Taddei (Gran Circo Taddei), em 10.9.2012;
- A Rainha da Pomerânia (La Regina di Pomerania), em 10.9.2012.