O punho e a renda traz, logo no início, clara advertência: tudo aqui é imaginação, as histórias e personagens não são reais, qualquer semelhança é mera coincidência, etc.
Nenhuma novidade: o alerta, comum e presente em tantas obras, estabelece o caráter ficcional do que vem a seguir.
Neste caso, no entanto, convém prestar atenção.
A ênfase e a pressa no esclarecimento do que, a princípio, seria óbvio, produz no leitor a sensação de que os referentes que levaram ao texto são mais concretos do que se poderia supor caso a obra não se empenhasse tanto em destacar sua ficcionalidade.
Sensação que se torna logo convicção, quando o autor menciona o possível “susto” de certos leitores diante do relato e lhes assegura que o escreveu “para denunciar o mal” e “louvar a instituição” de que fala e em que trabalha, o Ministério das Relações Exteriores.
Inevitável concluir: tais leitores têm a chave capaz de trocar os nomes fictícios pelos reais e expor tramas terríveis que se desenvolveram no Itamaraty durante os anos da ditadura militar — tema do livro.
A advertência, porém, não pretende apenas instigar a curiosidade invejosa do leitor comum, aquele que não tem chave. Ela resume a proposta do livro, em que ficção e história se embaralham irreversivelmente.
Certos livros, afinal, enquanto lemos e depois de os termos lido, viram parte da nossa vida, passam a compor nossas lembranças e, vez ou outra, nossos medos.
Se você, leitor, leu, por exemplo, Crime e castigo na adolescência, sabe que o espectro de Raskolnikoff passa a nos acompanhar desde então e seus dilemas, belos ou pérfidos, se tornam nossos.
Minha adolescência teve Dostoievski, mas teve também o Brasil do regime militar. Nascido em 64, ano do golpe, cresci durante a ditadura e minha consciência do que era o Brasil — de como era o Brasil — foi relativamente rápida. Adolescente, vi a abertura política e, engajado pela primeira e única vez na vida, olhei com angústia o passado e o futuro que nos espreitavam.
Hoje, plenos 46 anos, a leitura de O punho e a renda, de Edgard Telles Ribeiro, reacendeu toda a tristeza que o país, às vezes sem perceber, partilhava naqueles anos.
Edgar Telles Ribeiro é ótimo ficcionista. Além disso, é diplomata.
O punho e a renda combina as duas coisas. Narra a trajetória de Max, diplomata oportunista, que aproveitou a chance de ascender rapidamente e adquirir poder em meio ao Brasil dos governos armados.
Ele teria participado de tramas golpistas em pelo menos dois outros países latinoamericanos, Uruguai e Chile. Max também teria vivido os bastidores da Operação Condor, da negociação nuclear brasileira com a Alemanha, no governo Geisel, e mantido contato com serviços secretos dos Estados Unidos e Inglaterra.
Na democratização, o camaleônico protagonista bandeara para o lado dos liberais e continuara sua irresistível ascensão. Tratava-se afinal de um homem que, escrúpulos devidamente à parte, sabia jogar o jogo. Para usar uma metáfora recorrente no livro, ele conhecia as regras e formas do balé rigidamente coreografado das relações pessoais e públicas, internas e externas do Ministério.
Quem conta a história é um amigo dele, que se afastou gradativamente, mas nunca deixou de ser assombrado pelas opções de Max e, décadas depois, resolveu investigar sua trajetória.
Lembremos: tudo é ficção.
Digamos que seja mesmo. De qualquer forma, e como sempre, a ficção revela, nas páginas de O punho e a renda, mais do que muitas pesquisas historiográficas puderam dizer do período.
Revela a amargura, revela a angústia, revela o incomensurável volume de fantasmas que passaram a assombrar nossos dias e, hoje ainda, frequentam aqui e ali nosso quotidiano.
Por isso, O punho e a renda é livro inesquecível: gruda na pele, gruda na alma, desconforta. Por isso, é, desde já, um livro essencial. Para entender um tempo terrível e para perceber os recursos fabulosos da boa ficção na interpretação do passado.
Edgard Telles Ribeiro. O punho e a renda. Rio de Janeiro: Record, 2010.
vou anotar. beijos, pedrita
Pedrita,
tudo bem?
É muito bom. Vale a pena.
Beijos,
Júlio
Julio, fui sua aluna no curso sobre Ficção e História na Maria Antonia (2007?). Acabei de ler o Punho e a Renda. Uma madalena indigesta em um chá amargo. Senti o mesmo desconforto e desalento. O livro, embora às vezes muito prolixo, é um retrato daqueles tempos difíceis. E das pessoas que entre as trevas circulavam. Abraço, Eugenia.
Eugenia,
tudo bem?
Difícil, não é? Mas necessário.
Abraços,
Júlio
Júlio,
Li “O punho e a renda”, informada pelo “paisagens…” Também achei muito bom.
Coreografias do lago do … Itamaraty e de outras instâncias, bem “desconfortantes” mesmo.
Muita coisa pra pensar, como
ficção e história, de vários modos,
um escritor de dentro de uma carreira de estado,
biografia e obra,
um autor que escolhe ambientar o romance em campo muito real, experimentado,
um narrador-personagem entre os ritmos de descobrir e de contar,
o leitor passa a acompanhar os ritmos, quer saber do Marcílio de Andrade Xavier (o efeito de “real” já começa no nome).
Se não acrescentei (seria díficil), em todo caso é a minha colher.
Beijos,
Vera
Vera,
tudo bem?
Acrescentou, claro.
O que mais impressiona, no livro, é mesmo a posição de onde ele fala, esse conhecimento do terreno e a consciência de quão estranho ele é.
Beijos,
Júlio