As perfeições provisórias foi uma descoberta feliz e totalmente casual. Olhava, pela enésima vez, as prateleiras de livros italianos na Livraria Cultura e dava especial atenção, como de hábito, às publicações da editora Sellerio, de Palermo.
Bati o olho no livro de Gianrico Carofiglio, vi rapidamente sua biografia, descobri que era de Bari, na Puglia, onde atua como juiz, e que Le perfezione provvisorie era a quarta aventura de Guido Guerrieri. Li duas ou três páginas e comprei.
Guerrieri é advogado e, entre uma audiência e outra, se envolve em investigações criminais. Detetive amador, hesita em aceitar um caso, navega aqui e ali na busca de pistas, tende a se considerar vencido e, finalmente, decifra o mistério.
Fiel à tradição hegemônica entre as narrativas policiais italianas, As perfeições provisórias explora as peculiaridades da região, insinua, sem assumir, a interferência da máfia, recusa a matriz do policial hard-boiled norte-americano. Ou seja, a reflexão prevalece e as cenas de ação são quase inexistentes.
Na prática, a trama do livro é mínima. Guerrieri é procurado pelos pais de uma moça de vinte e poucos anos. Ela desapareceu, a investigação policial foi inconclusiva, o caso está para ser arquivado. Eles pretendem que ele busque alguma informação capaz de impedir o arquivamento, impulsionar novas pesquisas e, sobretudo, lhes dar alguma esperança.
O advogado investiga um tanto aleatoriamente, tenta explorar indícios quase imperceptíveis, parece distante de qualquer solução. Cerca de dois terços das 336 páginas do romance são tomadas pelas incertezas e balanços existenciais do detetive. Sua vida inteira ressurge, proustianamente, pelas frestas da memória. Seu presente, quase oco de emoções, repete o passado de incertezas e reitera a autoimagem de uma vida gauche.
Citações de filósofos, historiadores e romancistas pontuam seu esforço nostálgico e movem sua investigação contorcionista. O desfecho e a revelação da verdade acerca do desaparecimento da moça não surpreendem o leitor, mas isso importa pouco.
O que surpreende é a capacidade de Gianrico Carofiglio utilizar o suporte tão maltratado e banalizado das histórias policiais para construir personagens sólidos — pelo menos quatro, nessa história — e desenvolver uma trama consistente.
É longa a lista de casos literário-policiais que se resolveram pelo acaso. Bem mais limitada é a relação dos autores de livros policiais capazes de aparecer do nada para um leitor escaldado e mostrar que há mais vida inteligente na área do que normalmente se supõe.
Em vários momentos da leitura de As perfeições provisórias, quis ligar para a meia dúzia de editores que conheço e propor enfaticamente sua tradução e edição no Brasil. Não fiz, mas obviamente encomendei os demais livros de Carofiglio e os lerei com prazer — aquele prazer de sentir-se entretido e, ao mesmo tempo, desafiado; esta, talvez a razão principal da ficção.
Gianrico Carofiglio. Le perfezioni provvisorie. Palermo: Sellerio, 2010
Oi, Julio
Você faz umas descobertas interessantes. O fato de o policial estar sendo reabilitado na Itália, ligado a uma cultura regional. Isto é um achado. A outra descoberta é a maleabilidade da literatura policial, que se deixa habitar pela alta literatura. Além da descoberta em si do próprio autor.
Parabéns do
msn
Miguel,
tudo bem?
Obrigado.
Seria interessante pesquisar mais a fundo essa penetração regional do policial na Itália.
É interessante como os autores conseguem fugir do estereótipo da máfia onipresente e variar o modelo.
Abraços,
Júlio
nossa, vc faz trabalho de pesquisa, faz tempo q não vejo alguém buscar algo que não venha de bandeja pronto e estimulado por alguma divulgação. é muito bom ver que há gente que ainda pesquisa e vasculha obras, autores e eventos culturais que não venham prontos e estimulados de fora. fiquei curiosa por conhecer essa obra. beijos, pedrita
Pedrita,
tudo bem?
Faz parte do ofício (e do prazer) procurar autores que desconheço. A cada 40 e poucos ruins, leio um bom. rs
O Carofiglio é muito interessante. Hoje chegaram outros cinco livros dele. Depois que ler, comento.
Beijos,
Júlio
Prezado Julio. Envio este comentário sobre o novo livro do escritor colombiano. Parabéns pela pesquisa.
(http://fb.me/zPQCVTaO)
Rubén,
obrigado.
Estou curioso pelo novo García Márquez. Aguardemos.
Abraços,
Júlio
Julio (ja estou com saudades de novas resenhas suas!), terminei de ler Perfeiçoes provisorias. A sua resenha me estimulou e fui conferir. Gostei muitissimo. Dificil, realmente, classifica-lo como policial ou que outro tipo. Embora o fio condutor seja a “investigaçao”, ela é apenas suporte para todas as relaçoes humandas paralelas. Agora me resta ir atras de seus outros livros e descobri, pela internet, que Carofiglio acaba de lançar um outro livro que, pela resenha, que pareceu interessantissimo. Obrigado mais uma vez por suas preciosas descobertas. Muito me agradam! Abraço. Eymard.
Eymard,
tudo bem?
Obrigado.
Demorei a escrever de novo porque estava bastante enrolado com trabalhos e atrapalhos. Publicarei, daqui a pouco, nova resenha – sobre ‘O sonho do celta’, de Vargas Llosa.
Está no forno uma resenha sobre outro livro de Carofiglio, o melhor que li até agora: ‘O passado é uma terra estrangeira’.
Mas fiquei curioso para saber que livro é este de que fala. Qual é?
Abraços,
Júlio
Julio, me parece um novo livro dificil de ser classificado: “La manomissione delle Parole”. Ha um aplicativo dele para IPAD. Abraço.
Eymard,
tudo bem?
Não li. Apenas vi resenhas dele. É uma análise dos usos da linguagem. Mas acho que ele não é novo; talvez seja uma nova edição. Não tenho certeza.
Abraços,
Júlio
Julio, recebi hoje os livros do Carofiglio (inclusive o mais recente: la manomissione delle Parole”). Muito obrigado pela dica. Realmente a entrega é rápida e tudo funciona muito bem. Fiquei fregues! Abraço, Eymard.
Eymard,
tudo bem?
Aproveite seus livros – inclusive o novo!
Depois, se puder, diga o que achou.
Abraços,
Júlio
ah, o livro é o mais recente sim. Foi publicado em outubro de 2010. O argumento é que surgiu, segundo o proprio autor, no Ragionevoli dubbi!